António Ole, o angolano de múltiplos talentos

António Ole, artista angolano (DW)

“António Ole – Luanda, Los Angeles, Lisboa” é a primeira exposição do artista angolano no Museu da Fundação Gulbenkian. Ela reúne obras de décadas, entre pintura, desenho, escultura, instalação, fotografia e filmes.

A guerra foi um processo que marcou imenso o percurso artístico de António Ole, nascido em Luanda, cidade que também influenciou a sua personalidade no mundo das artes. Ao entrar na ala principal por onde começa a exposição montada no Museu Calouste Gulbenkian, o público é levado a ver “No Caminho das Estrelas” (1980), um dos emblemáticos filmes do artista angolano.

O filme, dedicado a Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola (falecido a 10 de setembro de 1979), faz hoje parte da memória da história de Angola. O artista explica: “Os filmes também têm muito a ver com a ideia de que se nós numa certa fase da vida de Angola não filmássemos eu acho que a memória desse período se teria perdido. Não seria, de facto, para a memória futura. Não haveria o registo desses momentos emocionais muito marcados por esses períodos tão ricos como a independência de Angola, enfim, como a luta de libertação, a guerra colonial. Tudo isso era para mim matéria de trabalho e eu tentei sempre usar isso como leitmotiv para enriquecer o meu trabalho”.

Triângulo inspirador

António Ole, que passou pela escola de documentários, enveredou pelo cinema porque sentiu necessidade de dar movimento à fotografia. E é no triângulo de viagens entre Luanda (Angola), Lisboa (Portugal) e Los Angeles (EUA) que encontrou a motivação para esta veia multifacetada: “Não acredito em artistas que fazem só uma coisa. Se nós temos a liberdade podemos usar todos os instrumentos possíveis para que o nosso discurso seja mais completo, mais variado até, digamos.)

Nesta exposição, retrospetiva da obra de António Ole, também aparece o documentário sobre os N’Gola Ritmos (1978) – da Coleção da Cinemateca de Angola –, grupo musical que, na década de 40 e 50, desempenhou um papel relevante para o despertar da consciencialização e do nacionalismo angolano.

Entre os músicos do grupo destaca-se o nome de Liceu Vieira Dias. António Ole conta que “o trabalho que faziam era um trabalho político também, poder-se-á dizer, porque usavam a língua quimbundo para fazer passar certo tipo de discurso. A certa altura, dois a três elementos do grupo foram presos e acabaram por serem enviados para Tarrafal (em Cabo Verde), que era uma prisão política. Isso não impediu que o grupo continuasse com outros músicos, mas no fundo este grupo marca uma etapa muito importante no nacionalismo angolano”.

Recuperando a história de Angola

O artista procura mostrar a música como um ato revolucionário e de resistência, adianta Rita Fabiana, uma das curadoras da exposição, que nos fala de um outro filme: “Conceição Tchiambula”, dos anos 80.

Segundo ela, “é um filme que o António Ole faz já na transição entre Luanda (Angola) e Los Angeles (EUA), onde há uma introdução da ideia de ficção. É um filme que novamente recupera a história recente de Angola – a história colonial mas também o pós-independência – através da vida de uma mulher camponesa, a Conceição Tchiambula, mostrando quão a sua vida é dura mas também com olhar sobre a história recente colonial, da deslocação de populações para o norte de Angola para trabalhar nos campos de café e a dureza desta vida e, no fundo, a dificuldade da afirmação da sua história, desse seu corpo como algo seu, novamente esta ideia de resistência e de luta”.

Com exposições em várias instituições internacionais, a obra de António Ole encontra-se presente em inúmeras coleções públicas em Portugal, Angola, África do Sul, Estados Unidos da América, Alemanha e Cuba. (DW)

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