Angola apela à coesão e condena ingerências

A XVII Cimeira do Movimento dos Não-Alinhados, organização que integra 120 países, terminou ontem na Ilha Margarita (Venezuela), com os Chefes de Estado e de Governo a defenderem a reforma das Nações Unidas, incluindo o seu Conselho de Segurança. Hassan Rohani, do Irão, passou a presidência da organização a Nicolás Maduro, da Venezuela.

No meio de uma profunda crise económica e política, a Venezuela assumiu sábado a presidência do Movimento dos Países Não-Alinhados (NOAL) durante a Cimeira desta organização, realizada na Ilha de Margarita, na qual o Chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, se faz representar pelo Vice-Presidente da República, Manuel Vicente.
O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que enfrenta uma crescente pressão internacional e descontentamento popular, recebeu do seu homólogo iraniano, Hassan Rohani, a presidência para um mandato de três anos deste grupo internacional de países que tenta reinventar-se no após Guerra Fria.
À XVII Cimeira do Movimento dos Países Não-Alinhados compareceram delegados dos 120 países do grupo, entre eles os Presidentes do Irão, Zimbabwe, Cuba, Equador, Bolívia, El Salvador e da Autoridade Palestina, juntamente com alguns primeiros-ministros.
No discurso de abertura da Cimeira, Maduro disse que a Venezuela enfrenta “uma ofensiva imperialista” com métodos “não convencionais” em forma de “guerra económica”. O Presidente venezuelano disse que essa “guerra” é parte de “uma ofensiva imperialista para tentar reverter os avanços e conquistas da revolução bolivariana”, fundada pelo falecido líder Hugo Chávez (1999-2013) e que se estendeu por toda a América Latina, impondo-se sobre as “oligarquias” tradicionais.
Maduro acusou a oposição venezuelana de planear um golpe de Estado. Os opositores, contudo, afirmam que Maduro agarra-se ao poder com os militares e com o controlo dos órgãos de justiça e eleitoral. A coligação Mesa da Unidade Democrática (MUD) está numa ofensiva para conseguir este ano um referendo revogatório, que segundo a consultora privada Datanálisis, é apoiada por oito em cada dez venezuelanos.

Respirar com aliados

No meio da crise política e económica, Nicolás Maduro procura algum alívio nesta XVII Cimeira dos Movimento dos Países Não-Alinhados, realizada durante dois dias na cidade de Porlamar, na Ilha de Margarita, onde se reúnem líderes de muitos países seus aliados.
O Movimento dos Países Não-Alinhados, que surgiu como alternativa à bipolaridade entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética, debate na Ilha Margarita a paz e a defesa da soberania, subindo o tom contra os Estados Unidos, sobretudo nos discursos dos representantes da Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador.
O Presidente de Cuba, Raul Castro, denunciou planos “subversivos e de ingerência” dos Estados Unidos que impedem a normalização das suas relações bilaterais, mas garantiu que o seu governo quer ter “relações de convivência civilizada” com os Estados Unidos.
“Reafirmo a nossa solidariedade com a Venezuela e proponho que esta Cimeira rejeite todas as tentativas de ingerência e desestabilização externas”, manifestou o Presidente equatoriano, Rafael Correa.
Maduro, Castro, Correa e o Presidente boliviano, Evo Morales, voltaram a denunciar nos seus discursos o “golpe de Estado parlamentar” no Brasil, que destituiu a Presidente Dilma Rousseff por uma suposta manipulação das contas públicas.

Revés internacional

O anfitrião da Cimeira, o Presidente venezuelano, enfrenta um descontentamento popular devido à altíssima inflação e à escassez de produtos básicos que provocam longas filas nos supermercados para se conseguir alimentos a preços subsidiados. Além disso, perdeu a influência internacional ostentada pelo seu mentor, Hugo Chávez, em face da queda dos preços do petróleo e do retrocesso da esquerda na região.
Integrante da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), este país com as maiores reservas petrolíferas do mundo procura apoio para a sua campanha que visa congelar a produção global de petróleo, de forma a estabilizar os preços do produto.
A oposição venezuelana assegura que Maduro procura com a reunião dos NOAL simular que não está internacionalmente isolado, referindo-se ao revés internacional sofrido pelo Governo em vésperas da Cimeira.
Os quatro países fundadores do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) anunciaram que vão assumir de forma colegial a presidência temporária deste grupo regional da América do Sul, que caberia à Venezuela exercer. A Chanceler argentina, Susana Malcorra, disse que a Venezuela, para permanecer no Mercosul, deve cumprir os objectivos económicos, comerciais e de direitos humanos, embora o Mercosul não tenha a “intenção” de a expulsar.
“Isto é um golpe político muito forte para a Venezuela”, disse à AFP a analista Raquel Gamus, que também considerou que a Cimeira dos NOAL tem pouco significado. “Isso não dá ao país nenhum tipo de benefício, só gastos”, acrescentou.
A Ilha de Margarita, conhecida por “Pérola do Caribe”, sofreu uma forte deterioração por causa da crise. Mas nos últimos dias, devido à Cimeira, as suas ruas foram revitalizadas, não falta água, os hotéis ficaram lotados e as filas nos mercados desapareceram.
Palco de protestos recentes contra o Governo, em Margarita dezenas de pessoas foram detidas há duas semanas, depois de um grupo de moradores ter protestado contra Maduro com um “panelaço” durante uma caminhada pelo bairro de Villa Rosa.
Para prevenir distúrbios e garantir a segurança das delegações, 14.000 polícias e militares vigiam a ilha, os voos particulares foram proibidos e os aviões comerciais passam por um rígido controlo de passageiros.

Angola é contra ingerências nos assuntos internos

O Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, pediu ao Movimento de Países Não Alinhados que se mantenham coesos na defesa dos Estados-membros e dos princípios daquele organismo, condenando interferências nos assuntos internos. “Devemos promover a coesão dos Estados para poder manter-nos fiéis e defender, com firmeza, os propósitos e princípios que foram as bases da criação do Movimento, contidos na Carta de Bandung, na Declaração de Havana, de Bali e na Carta das Nações Unidas”, disse.
Manuel Vicente falava na sessão de abertura da XVII Cimeira dos Não-Alinhados, que decorre na ilha venezuelana de Margarita, uma intervenção que terminou com um “muito obrigado”, em língua portuguesa, do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro. “Devemos recusar a interferência nos assuntos internos dos nossos Estados e o desrespeito pela integridade territorial e a soberania dos nossos povos, que tendem a desacelerar o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável dos países em vias de desenvolvimento”, disse.
Manuel Vicente pediu uma maior articulação com “os organismos das Nações Unidas para ter uma abordagem séria e identificar as políticas de crescimento económico e sustentáveis, igualitárias, para que o mundo seja menos desigual e politicamente estável”. Os Não-Alinhados devem ainda continuar a condenar todas as políticas e práticas discriminadoras que impedem o acesso dos países em vias de desenvolvimento de obter os benefícios da informação e tecnologias de comunicação e de redes estabelecidas em países desenvolvidos, referiu.
“Os nossos países devem, num esforço concertado, defender a reforma do sistema das Nações Unidas, a reestruturação do Conselho de Segurança, a melhoria das relações com os organismos principais das Nações Unidas e a revitalização do trabalho da Assembleia-Geral”, frisou. A complexidade dos problemas que o mundo actual enfrenta requer concertação, diálogo e negociação permanente, porque a interdependência e maior proximidade fazem com que os problemas locais se tornem globais, obrigando a respostas concertadas e universais para acabar com os crimes transnacionais, as grandes doenças endémicas, o terrorismo e a destruição contínua do meio ambiente, referiu Manuel Vicente.

Estabilidade e paz

O Vice-Presidente destacou que “Angola tem sido um factor importante de paz e de estabilidade regional e internacional”. Enquanto líder da Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos, Angola tem realizado “um debate ministerial aberto sobre a manutenção da paz e da segurança internacional, prevenção e resolução de conflitos na região, que assentou bases que podem contribuir para a resolução dos conflitos que continuam a afectar a sub-região de África”.
Angola continuará comprometida “com a promoção e preservação da harmonia e da segurança” no continente africano e em recuperar “a sua capacidade produtiva, na promoção da diversificação da sua economia nacional”, acrescentou Manuel Vicente.

Liderança iraniana

O Presidente do Irão, Hassan Rohani, afirmou sábado no início da Cimeira dos Não-alinhados, na qual passa a presidência à Venezuela, que a reunião decorre no meio de uma situação em que a paz está em risco no mundo inteiro.
“Os membros dos Não-alinhados precisam mais do que nunca de solidariedade, consolidação e integração”, disse o Presidente iraniano, que considerou “muito preocupante o que está a acontecer actualmente nas relações internacionais” no mundo globalizado.
Rohani destacou que os países não-alinhados constituem dois terços da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e são “uma parte indispensável nas soluções para os desafios actuais do mundo”.
O Presidente iraniano assegurou que a “tendência da polarização militar actual está a superar as corridas armamentistas do passado” com a proliferação de guerras, disputas e a ingerência nos assuntos internos das nações por parte de países que têm poder e riqueza.
“Temos visto incidentes muito dolorosos na Síria, Iraque, Líbia que têm ferido e ainda atingem a consciência de milhares de pessoas no mundo”, referiu, considerando o que acontece nestes países um “símbolo da irresponsabilidade das grandes potências”. Em relação a isto, Rohani disse que o Irão “advertiu desde o princípio sobre o perigo do terrorismo jihadista” junto de governos como os do Iraque e da Síria.

© JA

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