Abram alas à China

Lisboa (Foto: D.R.)

Um país farto em indignações fugazes e pouco substantivas é curioso observar a falta delas quando o assunto envolve a China.

O último capítulo desta história de remanso foi escrito na semana passada quando o Governo aprovou em conselho de ministros um regime que permite o reagrupamento de acções, uma das condições da Fosun para entrar no capital do BCP e o facto passa entre os pingos da chuva.

A mesma Fosun é dona da seguradora Fidelidade e da Luz Saúde, a China Three Gorges é a maior accionista da EDP e a  State Grid of China assume igual posição na REN. Outro grupo chinês, a HNA, tornou-se accionista da TAP, o Haitong adquiriu o BESI e a KNJ Investment Limited, uma sociedade chinesa com sede em Macau, é apontada como compradora de uma posição maioritária na Global Media. A estes, juntam-se vultuosos investimentos na área do imobiliário que garantiram a muitos chineses os chamados “vistos gold”.

Perante esta avalanche de investimentos ergue-se uma montanha de silêncio. Ninguém se indigna com a invasão chinesa e o controlo de sectores relevantes da economia nacional, poucos questionam a natureza autocrática do regime de Pequim e raros se revoltam com o facto do país manter ainda a pena de morte ou reprimir militarmente o movimento independentista da região do Turquestão Oriental.

Por muito menos, os angolanos foram destratados e a proveniência do seu dinheiro questionada, além de se colocar em causa a legitimidade do Governo de José Eduardo dos Santos. Nada disto acontece em relação à China que, curiosamente, tem também grandes investimentos em Angola e deverá tornar-se parceira da Sonangol no BCP.

Há muitas boas explicações para a aceitação passiva desta estratégia chinesa e nem todas elas se encontram dentro de portas. Uma delas, porventura a essencial, tem a ver com o facto dos grandes países da Europa serem eles também beneficiados com o imperial investimento de Pequim.

O Reino Unido lidera esta tabela, em segundo lugar surge a Alemanha, em terceiro a França e em quarto Portugal. O dinheiro, entre outras coisas, comprou também a benevolência dos grandes países europeus, os quais cobiçam o gigantesco mercado interno chinês como uma bóia de salvação para as suas empresas exportadoras. A força da China constrói-se à conta da fraqueza da Europa e Portugal é apenas um exemplo paradigmático desta hipócrita realidade. (jornaldenegocios)

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