Abandonado por aliados, Eduardo Cunha cai e vira homem-bomba

Cunha diante de uma faixa no plenário da Câmara. (Alexsandro Loyola Lid.PSDB)

Por 450 a 10 votos, o pivô do impeachment de Dilma Rousseff perde o seu mandato
Peemedebista fica inelegível por oito anos e deverá ser julgado por Sergio Moro.

Eduardo Cunha (PMDB-RJ) por muito tempo se vangloriava de ter sua própria bancada, que o alçou à presidência da Câmara em 2015. Era um baixo clero com mais de cem aliados de diversos partidos juntamente com seus correligionários e colegas que fez ao longo de quatro mandatos consecutivos e alegadas estratégias conjuntas para arrecadar fundos de campanha. Por isso, a cena que se via no plenário da Câmara dos Deputados que o cassou nesta segunda-feira era, até alguns meses atrás, inimaginável: Cunha quase unanimemente abandonado. Com exceção de Carlos Marun (PMDB-MS) e de Edson Moreira (PR-MG) – dois parlamentares em primeiro mandato que se tornaram quase guarda-costas dele -, pouquíssimos se aproximavam do ex-presidente da Casa. Apenas esses dois discursaram em sua defesa.

Esse isolamento resultou no placar de 450 votos a favor de sua cassação, apenas 10 contrários e 9 abstenções. O número foi bem superior aos 257 necessários para que ele fosse cassado. Foi o sétimo parlamentar a perder o mandato desde 2001, quando o Conselho de Ética foi criado. Com a cassação, Cunha se tornou fica-suja e fica inelegível até 2027. Sem o cargo eletivo e, consecutivamente, sem a prerrogativa de foro privilegiado, os cinco processos que tramitam contra o peemedebista no Supremo Tribunal Federal (STF) deverão ser enviados ao juiz de primeira instância Sergio Moro, o responsável pela Operação Lava Jato em Curitiba. Era tudo o que ele não queria.

De todo-poderoso a abandonado, agora ele deve se tornar um homem-bomba, com potencial de abalar toda a classe política brasileira. O temor de parte de seus aliados é que, para se livrar de punições duras, como a prisão, o peemedebista faça um acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal e entregue alguns de seus colegas em eventuais irregularidades. Ele nega que fará qualquer acordo (“Quem faz delação é criminoso e eu não sou criminoso”, repetiu após a cassação),mas diz que contará toda a história do impeachment de Dilma Rousseff em um livro no qual pretende relatar conversas com todos os políticos com quem conviveu neste período. Inclusive o atual presidente Michel Temer (PMDB) e um de seus principais auxiliares, Moreira Franco. Nada foi gravado. “Tenho uma boa memória”, disse o ex-deputado ao fim da sessão. Desempregado, Cunha afirma que sua primeira ocupação agora será buscar uma editora que queira publicar esse livro, com o qual ele afirma que pretende “ganhar muito dinheiro”. Depois vai pensar no que fazer.

Investigado pelo crime de lavagem de dinheiro e por corrupção, a quebra de decoro parlamentar do ex-todo-poderoso deputado se deu numa sessão armada na CPI da Petrobras para que ele brilhasse. O tiro saiu pela culatra. Foi lá que ele mentiu ao dizer que não tinha contas bancárias no exterior. As investigações do Ministério Público Federal mostraram que ao menos quatro trusts eram controladas por ele.

A sessão da noite de contou com a presença de 470 dos 513 deputados. Foi marcada por uma aguerrida defesa cheias de ameaças e por acusações do peemedebista contra o Governo de Rousseff, que ele ajudou a derrubar. Chamou Dilma de mentirosa. Disse que o PT coordenou a pilhagem da Petrobras. Ressaltou que seu processo é político e que cassá-lo é a principal bandeira de seus adversários. “O PT quer um troféu para justificar seu discurso de golpe”.

Pela segunda vez, Cunha ressaltou que quase 160 deputados têm processos tramitando no STF, assim como ele. Dessa vez, não disse o “eu sou vocês amanhã”, como o fez em sua defesa na Comissão de Constituição e Justiça, em julho. Coube ao seu advogado, Marcelo Nobre, mandar um recado aos parlamentares. “O que vemos nesta casa hoje é uma guilhotina posta, em cima da mesa. Uma guilhotina com nome e sobrenome. Chama-se precedente de linchamento.”
Ascensão, apogeu e queda

Inteligente, frio e calculista, a ascensão de Cunha foi algo inesperado em um partido onde a maioria de seus líderes é de coronéis da política, o PMDB, acostumado mais a acomodação e negociação do que confronto. Em pouco mais de uma década, deixou de ser um influente arrecadador de campanha a líder da legenda no Rio de Janeiro e em todo o país. Alçado a presidente da CCJ, depois a líder do PMDB na Câmara, seu apogeu ocorreu em fevereiro de 2015 quando venceu a presidência da Câmara derrotando o candidato do Governo da ocasião, Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Quando passou a ser investigado pela Polícia Federal mudou o tom contra a gestão Rousseff. Rompeu com o PT e passou a atacar o Ministério Público. Seu discurso agressivo é algo do qual ele se arrepende, conforme contou na segunda-feira ao jornal Folha de S. Paulo. O clima de tensão política piorou quando o impeachment da presidenta passou a se tornar uma realidade. Ao menos 53 pedidos de destituição da presidenta chegaram às suas mãos. Engavetou 40. Aceitou um. E foi essa admissão – aceita por vingança conforme petistas e por evidências de crimes de responsabilidade, segundo o peemedebista – que acabou com a queda da presidenta.

Aliado do presidente Temer, foi abandonado por ele na reta final de seu julgamento. Um sinal disso foi a ausência durante os debates do líder do Governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), e até então aliado de primeira hora do agora ex-deputado.

Em sua última entrevista coletiva no salão verde da Câmara, Cunha já deu seus primeiros disparos. Chamou antigos aliados que votaram pela sua cassação de hipócritas, reclamou do Governo Temer e afirmou que Rodrigo Maia (DEM-RJ), seu sucessor na presidência da Câmara, conduziu o processo de cassação de maneira equivocada, por isso recorrerá ao Judiciário para tentar retomar o seu mandato. “Todo mundo sabe que na verdade, há uma articulação porque no Governo hoje tem uma eminência parda. Quem comanda o governo é o Moreira Franco, que é sogro do presidente da Casa. Então o sogro do presidente da Casa fez uma articulação que fez com que fosse feita uma aliança com o PT e, consequentemente, a minha cassação estava na cara”. Um dos mais impopulares políticos do Brasil na atualidade parece não querer vender barato sua queda. (El Pais)

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