“A direita deve ser mais utópica”, diz presidente de Portugal (EXCLUSIVO)

(Sputnik/ Lucas Rohan)

Marcelo Rebelo de Sousa cobra “soluções fortes” que respeitem o compromisso com a Europa, exalta as “utopias da esquerda” e defende que “a direita deve ser mais utópica”.

Para o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, é bom que os partidos, o governo e a oposição tenham propostas para enfrentar a crise que respeitem os compromissos com a União Europeia. A declaração foi dada durante visita ao Festival Literário de Óbidos (FOLIO), ao norte de Lisboa, pouco depois de fazer uma defesa pública das utopias da esquerda e dizer que a direita “deve ser mais utópica”.

Utopia é o tema central do FOLIO e o presidente não fugiu do assunto, apenas adaptou para o seu campo de trabalho.

A presença do presidente no FOLIO foi estritamente cultural. Ele visitou exposições e comércios locais, provou doces e bebidas e assistiu falas de escritores. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa confessou que antecipou a participação no festival por problemas de agenda e explicou que faz a visita para prestigiar o evento “como cidadão e como presidente”. No entanto, ele não escapou dos assuntos políticos.

No momento em que se debate, com a aproximação do fim do ano, a primeira proposta de orçamento geral feita pelo governo de António Costa, o presidente refuta “interferir no debate dos partidos, no debate entre governo e oposição”. Mas Rebelo de Sousa faz uso de seu conhecido otimismo quando confrontado com as diferentes propostas que passam por críticas fortes às regras impostas pela União Europeia e cumpridas pelos governos.

“É bom que haja dois caminhos diferentes que têm um ponto em comum: respeitar os compromissos perante à Europa. Nos dois caminhos a ideia de fazer tudo para controlar o déficit, muito bem. Controlar o déficit da balança de pagamento, muito bem. Mas como que se faz? Como se faz o equilíbrio entre o rigor financeiro e a justiça social? Como se compatibiliza com o estímulo do crescimento? É bom que haja visões diferentes para que pessoas possam escolher. Gostamos de soluções fortes e que respeitem aquilo que deve ser respeitado”, afirmou.

O turismo Pouco antes das 16h, horário marcado para sua chegada, o presidente apareceu não portão de entrada da vila medieval de Óbidos. A cidade que sobrevive dentro das muralhas de um antigo castelo há muito tempo não recebia a visita de um presidente. Conhecida pela ginjinha, um licor tradicional produzido na região, Óbidos é considerada uma das principais cidades turísticas do interior de Portugal. Movimento esse que Marcelo Rebelo de Sousa vê com seu tradicional otimismo.

“É um grande ano do turismo. Estamos a descobrir novos turistas, reencontrar velhos turistas como os franceses, vendo aumentar o número de turistas brasileiros e americanos. Óbidos é um exemplo como é possível ter vários tipos de turismo e de turistas”, disse.

Utopias ao presidente

A utopia é o tema central da segunda edição do FOLIO. O festival que teve sua primeira edição no ano passado inspirado na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) escolheu trabalhar o tema em programações distintas. Durante fala em um evento que debatia “jornalismo, utopia e economia” Rebelo de Sousa comentou o que chamou de “revolução silenciosa das start-ups, chamando a atenção para os novos modelos de empresas jovens e inovadoras, e relacionou esse panorama com o debate político.

“Não podemos deixar morrer as utopias porque elas não são nem de direita, nem de esquerda. A esquerda deve continuar utópica e a direita deve ser mais utópica”, afirmou o presidente.

Logo após deixar o primeiro lugar visitado, uma aula pública sobre Bertolt Brecht com a professora Vera San Payo de Lemos, tradutora do dramaturgo alemão, o presidente foi cercado por um grupo de 50 crianças que carregavam compridos canos coloridos nas mãos. Os estranhos objetos, logo se soube, eram os recém-criados “sussurradores”.

Alunos de duas escolas portuguesas prepararam sussurros de utopias para contar ao presidente. Marcelo Rebelo de Sousa ouviu cada uma das dúvidas, perguntas e possibilidades levantadas pelas crianças e respondeu uma a uma, a maior parte com um entusiasmado “eu também”.

“Como seria correr no fundo do oceano? “, foi um dos sussurros ao qual Rebelo de Sousa respondeu com um sorriso de concordância. “Eu disse para ele que gostaria de poder escrever na água. Ele respondeu que ele também gostaria”, explicou, detalhadamente, uma das crianças ao repórter.

O trabalho de desenvolvimento das utopias dos estudantes foi elaborado pela professora Herminia Falcão, que três dias antes já orientava os alunos em leituras preparatórias. “A partir daí eles criaram as suas utopias para sussurrar ao presidente”, conta.

Relações com o Brasil

Um dos espaços visitados pelo presidente português no FOLIO foi o museu que abriga a exposição de xilogravuras do artista pernambucano J. Borges feitas para a edição do livro “O Lagarto”, que reúne o conto do Nobel de Literatura José Saramago e a arte do brasileiro. A obra foi lançada mundialmente no primeiro dia do Festival de Óbidos.

O FOLIO, para o presidente, serve como ponto de encontro entre Brasil e Portugal permitindo uma troca cultural. Sempre entusiasta, Rebelo de Sousa afirma que apesar da crise do setor editorial, a edição de autores brasileiros em Portugal atualmente é “como não estava há 40 anos”.

“A literatura brasileira hoje entra em Portugal como não entrava há 40 anos. Sempre entrou, mas eram os grandes escritores daquela época. Agora há uma edição de autores brasileiros em Portugal em quantidade como nunca existiu. Apesar do panorama editorial, por razões de crise, ter sofrido. Em Portugal estamos muito atentos ao que se publica no Brasil. Gostamos da literatura brasileira. Esse FOLIO é um ponto de encontro entre Brasil e Portugal e vai continuar no futuro”, disse.

Acordo ortográfico: “Não há nada para dizer”

Enquanto comentava o intercâmbio literário entre Brasil e Portugal, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi provocado a opinar sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. “Neste momento é um não tema, não há nada para dizer”, resumiu o presidente português aos jornalistas. Rebelo de Sousa evitou tomar posição num assunto delicado e polémico, já que as novas regras estabelecidas para harmonizar a ortografia da língua dividem opiniões em Portugal. (Sputnik)

por Lucas Rohan

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