Turquia e Rússia fazem as pazes e falam em recomeço

Vladimir Putin (esq.) e Recep Tayyip Erdogan em São Petersburgo (DW)

Após meses de crise diplomática, Putin e Erdogan anunciam restabelecimento do diálogo e solidariedade para resolver problemas da região. Relação estava abalada desde derrubada de um caça russo pela Turquia.

Em encontro em São Petersburgo nesta terça-feira (09/08), os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, concordaram em normalizar as relações bilaterais, abaladas desde o fim de 2015. “Nossa prioridade nas relações com a Turquia é voltar ao nível anterior à crise”, disse Putin.

“Sua visita, que você fez apesar da situação política doméstica extremamente complexa, mostra que todos queremos restabelecer nosso diálogo e restaurar nossas relações”, disse Putin, oferecendo a Erdogan apoio no contexto da tentativa de golpe militar fracassada de 15 de Julho.

Na resposta, o chefe de Estado turco, que havia definido sua visita a Moscovo como uma nova etapa, sublinhou que as relações entre os dois países entram numa fase “totalmente diferente” e considerou que a “solidariedade” entre eles contribuirá para a resolução dos problemas na região.

Após a conversa de uma hora e meia, um porta-voz do gabinete do líder turco disse haver consenso sobre a normalização das relações entre os dois países. “O clima foi muito positivo”, afirmou.

Concordância sobre a Síria

O presidente russo disse esperar que Ancara possa “restaurar completamente a ordem constitucional” após a tentativa de golpe e reiterou que Moscovo sempre se opôs a acções anti-constitucionais. “Quero manifestar a esperança de que, sob a sua liderança, o povo turco possa lidar com esse problema [a situação pós-golpe] e que a ordem e a legalidade constitucional sejam restauradas”, disse Putin.

Já Erdogan agradeceu o apoio incondicional oferecido por Putin. “Sua ligação imediatamente depois da tentativa do golpe alegrou muito a mim, a meus colegas e ao nosso povo”, disse o líder turco no início da reunião.

Putin disse que Rússia e Turquia têm um objectivo comum na Síria, que é resolver a crise, e que é possível superar as diferenças de como fazê-lo. O líder russo disse ainda que as opiniões de seu governo nem sempre coincidiram com as da Turquia, mas que os dois lados concordaram em encontrar soluções.

Putin anunciou que ele e Erdogan terão um novo encontro mais tarde, na noite desta terça-feira, para acertar detalhes da cooperação na Síria, onde a Rússia apoia o presidente Bashar al-Assad e a Turquia, os rebeldes que tentam depo-lo.

Planos para usina nuclear

Sobre as relações comerciais, Erdogan afirmou que os dois países vão retomar a meta de comércio anual de 100 biliões de dólares e que as conversações para a retomada dos voos charter da Rússia para a Turquia serão aceleradas. O turismo é um dos principais sectores da economia turca.

Depois de chamar Putin de “querido amigo”, Erdogan disse que a Turquia está pronta para implementar um projecto conjunto de um gasoduto que começará no sul da Rússia e poderá chegar até a Europa. Ele também anunciou um acordo para construir a primeira usina nuclear da Turquia.

A visita de Erdogan à Rússia ocorre num momento em que as relações da Turquia com a Europa e os Estados Unidos estão tensas devido à reacção do governo turco à tentativa de golpe, que resultou na morte de mais de 240 pessoas. Desde então, 16 mil pessoas foram presas e cerca de 50 mil foram afastadas de seus cargos.

Caça derrubado

Putin foi um dos primeiros a manifestar apoio ao líder russo no pós-golpe, apesar de as relações entre Ancara e Moscovo terem sido abaladas após a Turquia derrubar um caça russo perto da fronteira com a Síria, em Novembro de 2015.

Putin descreveu o incidente como uma “punhalada nas costas” e impôs sanções, banindo a importações de alimentos turcos e suspendendo todos os voos fretados para a Turquia. O número de turistas russos visitando a Turquia caiu 87% no primeiro semestre de 2016, e as trocas comerciais caíram 43% nos primeiros cinco meses do ano.

Em junho, o presidente turco enviou a Putin uma carta pedindo desculpas pelo incidente com o avião, o que abriu caminho para a reaproximação e a visita desta terça-feira. Três dias depois da tentativa de golpe militar, o governo turco colocou sob custódia dois pilotos que participaram da operação que derrubou o caça russo, acusando eles de envolvimento no movimento fracassado. (DW)

LPF/rtr/afp/lusa/dpa/ap

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