Processo CGD “é uma derrota perante o BCE”

(Miguel Baltazar/Negócios)

O processo de nomeação da nova gestão da CGD é “uma derrota das autoridades portuguesas perante o BCE”, critica Marques Mendes. O comentador da SIC defende que fazer “pior era impossível” e diz que António Domingues chega à Caixa fragilizado.

É “uma derrota das autoridades portuguesas perante o Banco Central Europeu”. É desta forma que Luís Marques Mendes avalia, no seu comentário semanal na SIC, o processo de nomeação da nova gestão da Caixa Geral de Depósitos.

As críticas do conselheiro de Estado resultam do facto de o supervisor europeu ter chumbado o modelo de governação que o Governo e António Domingues tinham concebido para a CGD e que previa uma equipa de 19 administradores e a acumulação de funções de presidente executivo e não executivo.

“Tinha sido dito que a Caixa ia ter 19 administradores. E que estava tudo acertado com o BCE. Afinal o BCE impôs-se às autoridades portuguesas e vamos ter apenas 11. Na prática vários nomes propostos foram ‘chumbados’. Conclusão: Temos pessoas convidadas e agora desconvidadas. Uma precipitação por parte de quem convidou e uma humilhação para quem é convidado e desconvidado. Parece uma brincadeira de crianças”, remata Marques Mendes.

António Domingues “inicia funções já fragilizado”

Para o comentador, o caso CGD foi “um processo conduzido irresponsavelmente na praça pública” e, apesar de o banco do Estado ir ter “um novo presidente sério, competente e muito profissional”, Domingues “inicia funções já fragilizado”, aponta. “O BCE impôs a separação de funções [de ‘chairman’ e CEO]”, o que mostra que esta proposta foi “mais uma guerra perdida pelas autoridades portuguesas. Pior era difícil”.

Marques Mendes chega até a falar da “saga da CGD”, processo em que, no seu entender, “as autoridades continuam a dar tiros nos pés”. O comentador diz mesmo que “é difícil encontrar tanta leviandade junta”.

Esta avaliação resulta ainda do facto de, como o Negócios noticiou, durante o segundo trimestre do ano, altura em que o caso CGD já estava na praça pública, o banco ter perdido quase 1.400 milhões de euros em depósitos. “Não admira. Com tanto ruído em torno da Caixa, as pessoas assustam-se”, sublinha o conselheiro de Estado.

O comentador considera mesmo uma “leviandade” o facto de “o banco do Estado [ter estado] 2/3 do ano (oito meses) sem uma administração em plenitude de funções. Deve ser um recorde mundial, digno do Guinness. Assim não admira que a imagem do banco público se degrade”.

Administradores que vêm do BPI perdem vínculo ao banco

Mendes deixa ainda no ar “uma pergunta inconveniente”, relacionada com o facto de “praticamente todos os membros propostos para a comissão executiva serem quadros do BPI”. Sem pôr em causa a sua “seriedade e competência”, o comentador questiona: “são quadros de um banco concorrente. Agora, vão para a Caixa. Muito bem. Mas mantêm vínculo ao BPI? No final, voltam ao BPI? Isso não suscita conflito de interesses? É que à mulher de César não basta ser sério. É preciso também parecê-lo”.

Ainda não há qualquer posição oficial sobre esta matéria. No entanto, ao que o Negócios apurou junto de diversas fontes, os quadros do BPI que vão transitar para a administração executiva da CGD – Emídio Pinheiro, Tiago Ravara Marques e João Tudela Martins – vão deixar de ter qualquer vínculo ao banco de origem.

Além de Domingues e dos gestores que vêm do BPI, a gestão executiva da Caixa vai ainda integrar Henrique Cabral Menezes, actual presidente do Banco Caixa Geral Brasil; Pedro Leitão, antigo administrador da PT; e Paulo Rodrigues da Silva, ex-administrador da Vodafone Portugal.

Entre os 11 administradores não executivos que tinha sido propostos por António Domingues e pelo Governo, ainda não se sabe quais permanecerão na equipa, depois de o BCE ter imposto uma redução do conselho de 19 para um máximo de 11 membros. (Negocios)

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