Presença de portugueses aumenta tensões na Sonangol

(Foto: D.R.)

Falta de experiência, desconfiança e ameaça de vazamento de informações secretas da petrolífera estatal angolana ao exterior criam “guerra política” entre a velha e a nova administração.

A presença de funcionários portugueses na Sonangol acentua as tensões entre a velha e a nova administração, atualmente sob o comando de Isabel dos Santos.

Falta de experiência dos novos consultores, desconfiança e a ameaça de vazamento de informações secretas da petrolífera estatal angolana para o exterior colocam em xeque os negócios da empresa, já fragilizada pela crise no mercado internacional do petróleo.

“Ambos os lados, quer os antigos administradores, quer os novos funcionários, estão a mandar informações para fora para dificultar o trabalho uns dos outros”, afirma o jurista Rui Verde.

Em meio à “guerra política” na Sonangol, os portugueses são meros instrumentos nas mãos da filha do presidente angolano, avalia o analista em entrevista à DW África. Mas ao mesmo tempo têm alto potencial para prejudicar os planos de Isabel dos Santos.

DW África: A presença de portugueses nos quadros da Sonangol está a gerar um ambiente de tensão na empresa. Quais são as possíveis consequências?

Rui Verde (RV): O problema dos consultores não é propriamente o facto de serem portugueses, mas de a maior parte ser estagiário. O que aconteceu é que Isabel dos Santos contratou uma série de empresas americanas e portuguesas, que mandaram para lá um exército de estagiários que, aparentemente, pouco sabem da matéria. O mal deriva daí. São pessoas que não sabem e estão ali a aprender a fazer os seus estágios, o que é um disparate.

Os consultores não são gestores, portanto não sabem gerir uma empresa, sabem dar opiniões. O segundo aspecto, que é facto de serem portugueses, vem daquela relação amorosa entre a elite angolana com Portugal. Por um lado, são contra o país e, por outro lado, vão buscar Portugal para tudo, o que é estranho.

DW África: O jornal Expresso divulgou uma reportagem sobre possível vazamento de informações confidenciais da Sonangol para o exterior por parte dos consultores lusos. De que forma isso pode prejudicar a empresa?

RV: Há uma “guerra” política na Sonangol entre a nova e a velha administração. No fundo dessa guerra, estão a vazar informações para fora. Ambos os lados, quer os antigos administradores, quer os novos funcionários, estão a mandar informações para fora para dificultar o trabalho uns dos outros. E, obviamente, como os consultores são mercenários, terão todo o interesse em obter informações e receber o melhor preço.

DW África: E Isabel dos Santos está com o controle da situação ou pode também sair prejudicada de alguma maneira?

RV: De certeza que sairá prejudicada, porque é impossível ter o controle de uma empresa que não conhece e onde tenta impôr uma série de pessoas de fora. A empresa tem milhares de empregados e não vão ser 200 pessoas importadas às pressas de Portugal que vão controlar, isso é impossível. Portanto, ela terá problemas muito sérios, como já está a ter.

DW África: É o caso de Manuel Vicente, o antigo presidente, que torna-se um, alvo…

RV: Ele é um alvo claramente. Foi a própria administração dele que ajudou na construção do império de Isabel dos Santos. Hoje em dia, é claramente um alvo a bater, que também vai se defender. Portanto, vamos ter vazamentos dos dois lados, sem qualquer dúvida.

DW África: Isso pode representar alguma consequência em termos eleitorais para o presidente José Eduardo dos Santos?

RV: É possível. O presidente está a seguir uma estratégia abrangente. No fundo, está a tentar resolver todos os problemas, desde a lei eleitoral aos problemas das receitas do Estado. Mas é como aquela história: “O cobertor que é demasiado pequeno tapa os pés, mas não a cabeça”. E na Sonangol criou um problema tremendo nessa guerra da Isabel dos Santos, porque obviamente está em conta a cultura da empresa, e não se consegue dar a volta destruindo a própria empresa.

DW África: E qual é o interesse de Isabel dos Santos por trás disso?

RV: Se analisarmos, as grandes operações de Isabel dos Santos foram feitas com o apoio da Sonangol. Basicamente, a Sonangol emprestou dinheiro para, por exemplo, a compra da Galp Energia e da Unitel. Portanto, a petrolífera sempre foi a sócia de Isabel dos Santos. E nesse momento ela passa a ser dona do próprio sócio. E eu julgo que esse foi o objetivo principal: controlar o império todo com a Sonangol dentro. É evidente que os gestores de Isabel dos Santos são duas ou três pessoas que ela arranjou em Portugal e, portanto, nessa medida, entrega a portugueses. Mas eles são meros instrumentos. São os chamados imbecis úteis.

DW África: E, enquanto isso, os quadros angolanos ficam prejudicados.

RV: Ficam. Não têm acesso às promoções da Sonangol e a sua competência é deitada fora. Deita-se, assim, um trabalho de 20 anos que foi feito na empresa. Tinha obviamente muitos erros, mas que era melhor serem corrigidos internamente. É um disparate deitar fora a mais valia dos angolanos que estão na Sonangol. (DW)

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