Pé na Praia: O tráfico e o dízimo

(DW)

“Não tem dinheiro? O pastor foi buscar uma máquina de cartão de crédito atrás do altar!”, contou o traficante ao jornalista alemão Thomas Fischermann. Na coluna desta semana, ele conta o que aprendeu em uma visita à favela.

Trabalhar como correspondente no Brasil significa, entre outras coisas, um eterno aprendizado de vocabulário. Por exemplo, há pouco tempo estava numa das maiores favelas da cidade, uma zona de pobreza com várias dezenas de milhares de habitantes, cultura própria e hábitos próprios de linguagem. Descobri que lá os traficantes são chamados de “os meninos”. Sério mesmo, gente? Os meninos? Isso soa até inocente, quando se pensa que a meninada do local adora ficar sentada pelos cantos de casas – com armas automáticas pesadas a tiracolo.

Com ou sem armas, dá para reconhecer fácil os “meninos”: o estilo é diferente, mas sempre de ostentação. Alguns carregam correntes de ouro pesadas e corte de cabelo raspado, outros óculos de sol e roupas desportivas caras da Nike, Armani ou Oakley. “Não escreva roupa de designers”, me aconselhou Jonny (nome alterado pela redacção), um informante local. Essa expressão é da Zona Sul do Rio. Escreva “roupa de marca”.

Graças a Jonny, meu vocabulário melhorou consideravelmente naquele dia. Aprendi outra expressão importante: “Não tenho nada não.”

Jonny estava me contando que foi à igreja com outros três meninos. Lá, usando suas roupas de marca, eles foram sentar na primeira fileira. A namorada do Jonny fazia parte de uma igreja pentecostal virada ao lucro, as quais florescem nas favelas do Rio. Jonny contou que o pastor começou a pedir dinheiro. Sugeriu 100 reais por traficante bem vestido como oferta a Deus. Eles balançaram a cabeça. “Não tenho nada não, tá mal aí, cara!”

Nesse meio tempo, já sei o que isso significa. “Não tenho nada não”: as pessoas pobres da cidade ouvem isso com frequência. Quando na verdade se tem umas notas no bolso, mas não se quer gastá-las, se diz ao flanelinha ou pedinte ou vendedor de rua: “Não tenho nada não.” Um alemão usaria simplesmente a palavra “não”, mas brasileiros não gostam de ser tão ríspidos. Preferem enrolar. A ideia é que o outro vai acabar por te deixar em paz.

Acho que isso não é uma expressão clara o suficiente. Nem sempre dá certo. A ida à igreja dos “meninos” é um bom exemplo. Não tem dinheiro? “O pastor foi buscar uma máquina de cartão de crédito atrás do altar!”, conta Jonny, até hoje irritado com essa história. “Nem a gente tem máquina de cartão de crédito!”

Os quatro rapazes do tráfico levantaram enfurecidos. Nunca mais voltaram à igreja. Jonny está certo de uma coisa: “Esse pastor é mais bandido do que nós!” (DW)

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