Na corda bamba, Rio Olímpico passa pela primeira prova de fogo

O vento causou estragos no Parque Olímpico. (STEFAN WERMUTH REUTERS)

Após uma estreia caótica para entrar nos estádios, a organização supera o desafio dos primeiros dias.

Os organizadores podem respirar tranquilos após dois dias de competições com o vento literalmente em contra. Após um primeiro dia de demora para entrar nos estádios, com voluntários despreparados e os guardas da Força Nacional chegando atrasados aos postos de controle de acesso, as filas voltaram a fluir este domingo. E o transporte conseguiu absorver uma multidão de torcedores que, no sábado, ficou parada e frustrada aguardando um ônibus que chegasse ao distante Parque Olímpico. Um novo desafio, no entanto, começa nesta segunda, primeiro dia útil da Olimpíada, quando os jogos da competição podem interferir na já complicada dinâmica da cidade.

No segundo dia de competições, o inimigo foi o vento que despiu os estádios e lembrou – com seu cheiro podre – da promessa olímpica esquecida das autoridades de investir em saneamento urbano e despoluir as lagoas que banham o entorno dos estádios. Uma das lonas da fachada do centro aquático, inspiradas nos tradicionais azulejos portugueses, rasgou-se. As provas de remo realizadas, nas normalmente calmas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas, também foram suspensas pela ventania e até o tenista espanhol Rafael Nadal teve que interromper seu treino quando as lonas protetoras da estrutura da quadra começaram a se desgrudar. Uma tábua de madeira desprendeu-se e caiu ao lado do tenista. O treino foi suspenso por duas horas.

As duas primeiras jornadas tiveram também a torcida brasileira como protagonista. Para o bem e para o mal. Enquanto times como o de handebol feminino – que venceu na sua estreia a Noruega – agradecia o calor do público, atletas brasileiros e estrangeiros reclamaram de uma torcida que não respeita nem os necessários segundos de concentração. Com uma tradição muito futebolística, em que gritos, vaias e insultos são parte do jogo, os brasileiros torcem no vôlei de praia e no basquete como nas provas de tiro, natação ou tênis de mesa, provocando reclamações dos próprios atletas. Na noite do sábado, durante várias provas de natação, repetiram-se os avisos pela megafone para manter a ordem com discutível sucesso.

Apesar da empolgação com o jogos, é raro o estádio, a exceção, claro, dos de futebol, que não apresente dezenas de fileiras vazias, uma maldição que persegue qualquer evento olímpico. Em Londres, os organizadores levaram militares para torcer nos jogos, enquanto no Rio milhares de ingressos serão distribuídos em escolas públicas.

O Rio, no entanto, continua mantendo suas mazelas, mesmo que discretamente noticiadas, e a segurança segue sendo o principal dos seus desafios. Não há esquema militar que consiga disfarçar a violência que o carioca sofre diariamente de assaltantes, policiais ou das guerras do tráfico. O próprio coordenador de segurança da cerimônia de abertura, um delegado da polícia federal, sofreu uma tentativa de assalto de quatro homens armados com facas ao sair do Maracanã no dia da cerimônia de abertura. Acompanhado por mais dois policiais, o grupo atirou e matou um dos assaltantes provocando pânico de membros de delegações estrangeiras, voluntários e jornalistas que deixavam o estádio e tiveram que se esconder em carros. Horas antes, na região da praça Mauá, outro assalto terminou com a morte de uma arquiteta carioca. Apesar do forte dispositivo de segurança nas instalações olímpicas, uma bala perdida perfurou a tenda destinada à imprensa no Centro Olímpico de Hipismo, em Deodoro, a mais de 30 quilômetros da Barra de Tijuca, e que os organizadores ainda não sabem de onde surgiu.

As ameaças de bomba têm marcado também a rotina da cidade há duas semanas. O esquadrão antibomba mobiliza-se nesses tempos de ameaça terrorista praticamente todos os dias. No sábado, em Copacabana, chegaram a explodir artificialmente uma bolsa durante a prova de ciclismo em rota e neste domingo uma mochila também foi explodida por segurança pela polícia, na Avenida das Américas, a poucos quilômetros do Parque.

Na manhã deste domingo, enquanto uma enorme fileira de grades metálicas se desmoronava por causa da forte ventania e por não estarem fixadas umas às outras, um carioca resumia bem-humorado o cenário que descreve bem os desafios olímpicos desses dias: “Se estivessem fixadas, não seria o Brasil. Aqui é tudo no limite”. (El Pais)

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