Luacano resgata mística de grande produtor de arroz

Campos de produção de arroz. (Foto: D.R.)

O município do Luacano quer resgatar a mística de grande produtor de arroz do país, proeza alcançada antes da independência nacional, de modo a contribuir para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Moxico e alargar o leque de produtos a exportar.

Com um território de 13 mil e 573 quilómetros quadrados, férteis e cobertos por chanas na extensão, o município, que em Novembro de 2015 se lançou para a produção experimentar de arroz, numa área de aproximadamente cinco hectares, quer mostrar aos angolanos, em particular, e ao mundo, em geral, que pode produzir em grande escala, desde que haja acompanhamento das autoridades e incentivos, traduzido em investimentos públicos ou privados em toda a cadeia de valor.

Em 2015, num gesto de coragem e persistência, similar aos dos heróicos combatentes da liberdade, a Administração do Luacano, tendo em conta o histórico de produção atingida no tempo colonial, decidiu-se a abraçar o desafio lançado pelo Executivo na diversificação da economia, mesmo em ambiente adverso, mercado pelo abrandamento da economia, devido à queda do preço do petróleo no mercado internacional.

Um grupo de 70 agricultores, que antes cultivava de forma isolada e em pequenas quantidades, liderado pelo ancião Sacuota Caiombo, de 76 anos, avançou para esta nova aventura, mesmo sem os meios modernos que permitam, em tempo recorde, o plantio, a colheita e o descasque deste cereal muito consumido pelos angolanos.

Apesar da sua idade avançada, Sacuota Caiombo, que começou por cultivar arroz ainda no “tempo de outra senhora”, procura transmitir agora a experiência aos mais jovens que pretendam fazer desta cultura um produto de alto rendimento, que possa criar riqueza para as famílias camponesas e gerar divisas para o país.

O ancião, que falava à reportagem da Angop, disse que, em 2015, embora ter sido atrasado o cultivo de arroz, foi colhida mais de uma tonelada, através da utilização de técnicas manuais.

Uma parte destes camponeses associados acumulou experiência desde o tempo colonial, razão pela qual o agricultor julga que este produto, cujas importações atingiram 117.240,17 toneladas no primeiro trimestre deste ano, pode ser cultivado em grande escala.

Com semblante visivelmente alegre, apesar de a produção não ser ainda expressiva, por ser experimental, o entrevistado pede apoio ao Governo, empresários locais e nacionais, através da realização de fortes investimentos na produção de arroz, com instrumentos agrícolas, desde máquinas descascadoras, alfaias, charruas, ceifadoras, sementes e adubos.

Dados os indicadores da produção 2015/2016, a campanha de cultivo de arroz, cujos terrenos se encontram já em preparação, numa área superior a 50 hectares, poderá contar com o engajamento de 200 camponeses filiados à associação criada recentemente.

Junto à administração municipal, foi cultivada uma área de sete hectares, cuja colheita não ultrapassou uma tonelada, porque parte da semente estava fora do prazo e porque a zona foi invadida pelo gado bovino que faz grama que cresce toda a extensão das chanas, segundo o administrador-adjunto do município do Luacano, Francisco Catenga.

Apesar de não ser especialista na matéria de cultivo de arroz, o responsável da administração explica, ao pormenor, que o cultivo deste produto, feito numa área inundada, deve durar seis meses até à colheita, ou seja, de Novembro a Maio do ano seguinte.

Com água em abundância,  vastas parcelas de terras caracterizadas por chanas, que se cruzam com o horizonte, logo ao amanhecer e ao pôr-do-sol, hoje as principais áreas de cultivo de arroz no município do Luacano são Sacamoto, Calumbo, Camizeze e Dilolo-circinscrição, onde se encontra o maior lago de Angola.

Grande parte do arroz, produzido nestas localidades, de acordo com Francisco Caiombo Catenga, foi comercializada na feira da banana, no município da Camaeia, e na exposição de produtos agrícolas, aquando da visita, a 22 de Junho, do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, à província do Moxico.

O investimento na produção de arroz em grande escala pode constituir uma alavanca para dinamizar a economia do Moxico e de todo o corredor do Lobito, uma vez que vai viabilizar o retorno de investimentos feitos nos Caminhos-de-Ferro de Benguela, enquanto o cobre da Zâmbia e dos minerais de Catanga não tiver como opção de exportação a linha-férrea angolana e o Porto do Lobito.

O administrador municipal adjunto do Luacano, Francisco Caiombo Catenga, disse estarem a providenciar esforços, no sentido de incentivar os camponeses associados para dar início à produção de arroz em grande escala.

Os incentivos que a administração pretender dar a estes camponeses, que já demonstraram que podem fazer mais e melhor, desde que os apoios surjam oportunamente, são instrumentos agrícolas como enxadas e semente.

“A produção do arroz cá no município está na sua fase embrionária. Os camponeses voluntários estão integrados nos bairros e estes estão a levar a cabo essas actividades em regime experimental, com o suporte, por enquanto, de instrumentos agrícolas manuais”, explica à equipa de reportagem.

Francisco Catenga, o homem que acompanha milimetricamente a actividade dos camponeses, fez saber que a administração, liderada por Ana Filomena Chipoia, está a tentar divulgar, a nível do país, em particular, e do mundo, em geral, o potencial desta região, com uma população estimada em 25 mil e 18 habitantes, à luz do Censo 2014, para que haja a atracção de investimentos, a fim de dinamizar a actividade dos agricultores.

Em termos de condições naturais, climáticas e materiais existentes a nível do município, afirmou existirem os Caminhos-de-Ferro do Lobito, plataforma que pode servir de aporte para o transporte de toda a produção para as províncias do centro e o litoral de Angola.

“O que nós temos são as nossas grandes chanas, muito férteis, e a grande extensão territorial deste município. Desde a era colonial, já existem áreas identificadas, por onde a população cultivava o arroz”, declarou.

“Cá na sede do município do Luacano, cultivava-se aqui no Samassango, e a sete quilómetros da via que vai ao Luena, e daqui quem vai ao Lago Dilolo, a três quilómetros na área de Manduna, área do Sacamoto, onde, neste ano agrícola, se registou já alguma produção, área do Candongo, circunscrição do Lago Dilolo, rio Calumbo, a dois quilómetros da sede comunal, também se cultivou o arroz, colhido em Maio e Junho últimos”, esclareceu.

Conforme o responsável, esta produção de mais de uma tonelada foi levada ao município da Cameia, na feira de produção da banana, e há outras áreas onde se cultivava o arroz, área do Sarmoz, margens do rio Luangues e Nha Cazenga, constituindo-se nas zonas mais vastas, daí a necessidade de haver investidores aqui neste município.

“Investir numa indústria de arroz, isto é, a partir das grandes máquinas de cultivo, que vai até ao descasque, é o que queremos. Não precisamos de pequenos investimentos, queremos investimentos de grande dimensão”, afirma, categoricamente, o responsável.

A ideia é, segundo o responsável, depois de colher o arroz, que não seja apenas consumido neste município do Luacano, mas seja comercializado também na província, no país e exportado para outros estados.

“Em função dos indicadores apresentados na primeira safra, embora em regime experimental, estamos convictos de que, caso haja investidores, o Luacano será o maior produtor de arroz a nível de Angola”, acrescentou.

Relativamente às vias para escoar a produção, pese embora os atrasos na execução das obras, disse que o Governo está a providenciar a construção em definitivo da Estrada Nacional n.º 250, Luena/Luacano, paralela à linha-férrea dos Caminhos-de-Ferro de Benguela, cujas obras estão em curso em vários troços, num percurso total de 256 quilómetros.

“O Governo começou com a estrada do Luena para o Leua, depois do Leua para o Lumeji e, posteriormente, do Lumeji para esta localidade do Luacano”, explicou.

Sublinha a importância dos caminhos-de-ferro neste processo de transporte, sendo considerado o número um no processo de escoamento dos produtos. “Graças aos caminho-de-ferro, podemos dizer que estamos em paz, porque, se não houvesse a ligação Luena/Luacano por linha-férrea, teríamos muitas dificuldades, mas graças a Deus, com o comboio em circulação, há garantia das condições de vida da população”, fez saber.

Testemunho e esperança de um ex-produtor

Fernando Tchianhama, 57 anos, hoje presidente da UNACA local, explica que, na era colonial, a administração municipal entregava sementes de arroz, além de instrumentos agrícolas e fertilizantes aos camponeses organizados em associações, para cultivarem e depois devolverem a mesma quantidade, incentivando-os numa produção alargada deste cereal.

Lembra que, apesar de não existirem tractores naquela altura, para ajudar na preparação das terras, havia o engajamento da administração colonial em ver as chanas inundadas com as plantas de arroz, sendo o responsável pela distribuição das sementes aos camponeses organizados que, por sua vez, fazia chegar individualmente a cada filiado.

A semente, revela, era stockada nos armazéns e, quando chegasse o período do cultivo do arroz, a administração voltava a fazer novamente a distribuição aos camponeses. Foi com esta forma de organização que a produção, mesmo sem ter o suporte de maquinaria agrícola de ponta, atingiu grandes quantidades.

Fernando Tchianhama recua no tempo e recorda que, aos seus 10 anos, já acompanhava os pais aos campos de arroz e, nesta altura, as áreas mais produtivas eram Samassango, Lago Dilolo, assim como a sete quilómetros da sede do Luacano em direcção ao Lago Dilolo, por sinal o maior de Angola em extensão.

Ao acreditarem que o Luacano pode voltar aos tempos áureos de segundo maior produtor deste cereal, depois do município do Alto Zambeze, os camponeses estão a tentar aumentar e incrementar a produção, para o consumo do Luacano, da província e do país, bem como o excedente voltado para a exportação para outros estados que não tenham a produção do arroz.

Mais do que ter vontade pessoal de cada camponês que abraçou esta causa de dinamizar a produção de arroz nestas imensas chanas, cujos limites se cruzam com a linha do horizonte logo ao raiar e ao pôr-do-sol, os homens do campo pedem apoio ao Governo na construção de novas vias rodoviárias, para permitir que a produção no final da colheita não fique confinada às zonas de cultivo.

A ligação rodoviária entre todos os municípios da província, que depois deve fazer interligação com a plataforma ferroviária (Caminhos-de-Ferro de Benguela, cujo término em território angolano é o município fronteiriço do Luau), já operacional desde 2012, constitui agora o grande desafio do Governo, para fazer escoar toda a produção de arroz do Leste ao litoral.

Para os camponeses, a produção em grande escala, se os apoios que pretendem forem direccionados à aquisição de tractores modernos, para aumentar a produtividade, vai atrair potenciais investidores para toda a cadeia de valor, desde a produção, transporte, stockagem, descasque e comercialização aos grandes centros de consumo.

No final de cada colheita, os associados devolviam a quantidade de sementes que recebiam da administração, enquanto o grosso da produção era comercializado aos comerciantes que operavam ao longo da linha férrea, que, por sua vez, colocam aos principais centros de consumo.

A nossa província é rica em terras férteis e propícias para o cultivo de arroz, razão pela qual há uma campanha de sensibilização dos camponeses, para que possam destinar parte das suas parcelas ao cultivo deste produto, porque se trata de uma cultura que pode ajudar a aumentar o rendimento das famílias.

Projecto empresarial muda forma de fazer arroz no Lumeje/Luau

Um projecto agrícola de grande dimensão, que visa a produção de arroz, milho, soja, girassol e outros vegetais, poderá ser implementado numa área de 0,2 milhões de hectares por um consórcio de empresas angolanas e chinesas.

Este projecto, a ser implementado no corredor ferroviário Lumeje, Luacano e Luau, vai aproveitar as extensões de chanas subaproveitadas para cultivar o mesmo produto em grande escala, bem como a viabilização da produção de arroz de pequenos produtores, que actualmente se debatem com o problema de falta de máquina de descasque. (angop)

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