Imposto escondido com poder de compra de fora

CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)

Quem não tiver aumentos em 2015 e 2016 vê o salário real cair 33%. Inventar formas de minimizar as perdas provocadas pela inflação galopante é o grande desafio

Depois de ter baixado a barreira dos 10%, em Agosto de 2012, pela primeira vez desde que há registos, e atingido um mínimo de de 6,9%, em Junho de 2014, a inflação em Angola, medida pela variação homóloga do índice de preços no consumidor na Província de Luanda do Instituto Nacional de Estatística (INE), não parou de subir, fixando-se nos 35,3% em Julho passado, máximo de quase 12 anos.

A culpa do regresso do fantasma da inflação é da desvalorização do kwanza. Depois de ter passado praticamente incólume à subida dos direitos aduaneiros e ao aumento dos combustíveis, a inflação não resistiu ao trambolhão da moeda nacional. Quando uma moeda desvaloriza os produtos importados tornam-se mais caros. Numa economia, como a angolana, que não tem produção doméstica e compra fora uma parcela significativa do que consome, a subida da inflação torna-se inevitável.

Enquanto os preços disparam os salários estão estacionados há, pelo menos, dois anos. A inflação é um imposto escondido porque os aumentos dos salários não acompanham o ritmo de crescimento dos preços, corroendo o poder de compra dos trabalhadores. Ou seja, tal como o imposto sobre os rendimentos do trabalho, a inflação acaba por reduzir o rendimento real de quem vive do salário.

De acordo com os meus cálculos quem não tiver aumentos em 2015 e 2016 terá uma perda de poder de compra da ordem dos 33% – considerando a taxa de inflação média de 10,3% no ano passado e admitindo para este ano uma taxa média de 34,2% no ano corrente. A taxa média é mais adequada do que a homóloga para efeitos de cálculos de poder de compra, porque reflecte o aumento médio dos preços ao longo de 12 meses e não entre dois meses de anos consecutivos.

Como é reconhecido por (quase) todos, a actual crise económica e financeira, não permite ao Estado e à maior partem das empresas aumentar os salários de forma a repor a totalidade do poder de compra. Não sendo possível repor o poder de compra na totalidade tem de se avançar para soluções intermédias, como fez a Odebrecht que acordou com os trabalhadores um aumento geral de 10%. Com a inflação galopante tudo o que puder ser feito para minimizar as perdas de poder de compra é bem-vindo. E se não for possível aumentar todos creio ser de elementar justiça inventar formas de, pelo menos, aumentar os salários mais baixos. (expansao)

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