Ihsan kizitan: “Os empresários turcos têm flexibilidade e vontade de trabalhar com os angolanos”

(Foto: D.R.)

Em entrevista ao jornal OPAIS, o embaixador da República da Turquia em Angola, Ihsan kizitan, fala sobre as relações comercias entre os dois países, da situação política, das trocas comerciais, com destaque para o sector têxtil, no qual os angolanos apostam cada vez mais, fazendo compras de roupa para revender em Angola. O embaixador sublinhou, duramente a conversa, que os empresários turcos têm flexibilidade e vontade de trabalhar com angolanos

Como avalia as relações diplomáticas entre Angola e a Turquia?

As relações Turquia – Angola são excelentes. Estamos a trabalhar para desenvolver o potencial que existe em diversas áreas. Angola é um parceiro importante em África e, sem dúvidas, um dos países líderes no continente africano.

Por essa razão, pretendemos acelerar cada vez mais as nossas relações, criando laços em todos os sectores. Temos encorajado os empresários turcos a investirem em Angola e fico satisfeito pelo interesse dos empresários angolanos demostrado pela Turquia.

No ramo militar, três navios das forças armadas da Turquia visitaram o porto de Luanda no ano passado. Foi uma visita histórica por ser a primeira vez. A agência de desenvolvimento (TIKA) tem colaborado com a fundação Lwini e trabalhamos conjuntamente num projecto, que recentemente doou cadeiras de rodas a instituições de caridade. Além deste temos outros projectos.

Como está à balança comercial entre Angola e a Turquia?

A nossa balança comercial tem vindo a crescer nos últimos 10 anos. Nos próximos tempos acre ditamos que virá a Luanda uma grande delegação de empresários. No ano passado tivemos uma delegação composta por 60 empresários, liderados pelo ministro da Economia.

A missão teve participação na feira de construção “Projekta Angola”. A cimeira Turquia – África decorreu em Malabo, em que participou o Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan e Angola.

Importa referir aqui que muitos empresários e empresas turcas estavam preparados para participar no maior evento de exposição de Angola (FILDA), mas que, infelizmente, foi cancelada, passando de Junho para Novembro. As empresas turcas, apesar das dificuldades no país, ainda têm demostrado interesse em investir em Angola.

E quais são as empresas turcas interessadas em investir em Angola?

Bem, não caberiam aqui nomes, pois são muitas e corremos o risco de deixar algumas de fora. Mas existe uma interação entre as empresas. No ano passado estabelecemos o Conselho empresarial Angola – Turquia e no ramo comercial este será o nosso epicentro de negócios. Temos trabalhado em alguns acordos institucionais para cooperações.

O que Angola pode ganhar com a Turquia?

As empresas turcas podem ajudar Angola na diversificação da economia angolana. Como somos um país que não tem petróleo, sabemos o que isso é, a Turquia teve de desenvolver as suas indústrias em todos os sectores. Há a possibilidade de cooperar em diversas áreas, nomeadamente nas dos bens de consumo e construção.

A Turquia pode oferecer a Angola produtos de alta qualidade ao nível dos da Europa, mas com preço asiático. Por causa da dificuldade que atravessa a economia angolana, o nosso volume de negócios decresceu, todavia, a Turquia continua a posicionar- se como um dos maiores parceiros de Angola numa escala de zero a vinte.

Por outro lado, a Turquia é uma ponte entre o Ocidente e a Ásia, não apenas do ponto de vista cultural, mas também do ponto de vista económico. As nossas indústrias competem e exportam directamente para Europa.

Têm os níveis Europeus mas a preços bem mais baixos. Os empresários turcos têm flexibilidade e vontade para trabalhar com os angolanos. Os empresários turcos conseguem perceber melhor os empresários angolanos e têm vontade de trabalhar em conjunto. A maior parte da indústria turca é focada para a área da produção.

Qual é o peso da comunidade turca em Angola?

Em Angola, temos uma comunidade pequena, estimada em duzentas pessoas.

A Turquia é uma referência em termos de indústria têxtil.Angola pode ser um bom mercado para investimentos turcos neste sector?

Sim, é um bom mercado para se investir. Existem muitos empresários angolanos a importar tecido da Turquia. E também devemos ressaltar que a Turquia é 17ª maior economia do mundo, é membro do G20 e tem um acordo alfandegário com a União Europeia.

Os angolanos estão cada vez mais interessados em visitar e fazer negócios na Turquia?

Penso que existe um intercâmbio entre empresários turcos e angolanos. No entanto, esperamos que este ano uma delegação participe da feira comercial em Izmir. Todavia, Istambul posiciona-se como um dos maiores aeroportos da Europa e funciona como placa giratória naquela região, e é o sexto maior destino do mundo, por onde passam, anualmente, perto de 40 milhões de turistas, dentre eles angolanos.

Qual é a cidade turca onde podemos encontrar mais angolanos, Istambul ou Ancara?

Nas duas cidades, pois Istambul e Ancara são as maiores cidades da Turquia. Tenho conhecimento que existem muitos turistas angolanos a visitarem Antalya. Portanto, existem muitos destinos turísticos na Turquia.

Sabe dizer-nos qual é o número médio de solicitação de vistos?

Em relação ao número de vistos para a Turquia, está acima dos 100 por mês.

Fala-se cada vez mais em ameaças terroristas. É um factor que inibe o turismo?

Existe uma ameaça terrorista em todo o mundo. Mas a Turquia tem feito um grande esforço no sentido de sobrepor-se aos grupos terroristas. No entanto, a vida quotidiana, os negócios e os vôos voltaram à normalidade e a Turquia continua a ser um destino atractivo para os turistas.

Mas o que se passou concretamente na Turquia que recentemente esteve na boca do mundo?

Na noite de 15 de Julho, uma facção das Forças Armadas Turcas tentou desencadear um golpe em várias cidades do país, particularmente em Ancara e Istambul. Foi uma campanha terrorista. Os agressores disparam contra o seu próprio povo, apunhalaram os seus comandantes pelas costas e bombardearam o Parlamento Nacional e o Gabinete da Presidência.

Os terroristas tentaram transmitir as suas mensagens controlando os estúdios da televisão estatal e invadido os meios de comunicação privados, mas não durou muito tempo. Infelizmente, mais de 246 pessoas foram mortas e 2.185 feridas no decorrer da tentativa de golpe de Estado.

Durante as operações realizadas contra os grupos terroristas mais de 10.410 foram detidos e 4.060 presos até a data desta entrevista. As operações continuam. Esta tentativa de golpe foi montada pela organização terrorista de Fethullah Gulen (FETO).

O nosso Governo tem vindo constantemente expondo os reais motivos deste grupo terrorista e seu líder, Fethullah Gulen, a todos os amigos, aliados e parceiros. O golpe fracassado é o mais recente acto criminoso revelando o perigo do FETO. O povo turco derrotou esta tentativa de golpe e se bateu pela democracia e o Estado de direito. Foi a vitória da democracia. A Turquia sairá mais reforçada desta experiência.

O que o Governo turco está a fazer para garantir a segurança à população?

No contexto das medidas para a ordem pública e segurança, O estado de emergência a nível nacional foi declarado a 21 de Julho, de acordo com a nossa Constituição e no pleno respeito pela Convenção Europeia dos Direitos Humanos.

Estado de emergência é uma medida permitida sobre a lei internacional quando existe uma ameaça iminente à segurança e à ordem pública, como é caso da França, por exemplo, que também está a viver um estado de emergência decretado pelo Presidente.

Sabemos que a Turkish Air Lines cancelou as suas frequências para Luanda. Como está o processo de retoma dos voos?

Este processo continua a decorrer. Esperamos que os voos sejam retomados no futuro. Os vôos directos serão muito mais fáceis para a Turquia e Angola, no sentido de fomentar o turismo e as relações de negócios entre empresários dos dois países. A Turkish Air Lines tem mais de 40 destinos em África. E Angola pode ocupar um lugar privilegiado, no âmbito do reforço da cooperação entre os dois países.

Como vê o estado actual da economia angolana?

A queda do petróleo mexeu com a economia angolana. Neste momento a economia do país está atravessar um grande desafio. Mas devemos lembrar que aconteceu também em 2008/2009.

Acredito no dinamismo, capacidade da economia angolana para ultrapassar este desafio. Não apenas em Angola, mas todos os países ao nível do mundo, de forma directa ou indirecta, vivem este mau momento.

Portanto, existem outros recursos naturais além do petróleo, designadamente mineiras, que podem jogar um papel decisivo neste processo de dinamização da economia. Devemos enfatizar o dinamismo do povo angolano. As pessoas são os maiores recursos de um país.

Que soluções aponta (aconselharia) para a saída da crise?

Tenho notado que as autoridades angolanas estão atentas à situação do país e têm tomado medidas necessárias para a solucionar.

O foco continua a ser a diversificação da economia, cujo assento tónico é posto na agricultura, sem esquecer o relançamento da indústria, olhando sempre, pois claro, para as vias de comunicação.

Os planos do Governo angolano estão bem alinhados. E esperamos resultados satisfatórios para Angola.

Um diplomata de formação e carreira

Chama-se Ihsan Kizltan, nasceu em 1965, na cidade de Izmir, Turquia. É Bacharel em Artes pela Universidade de Boğaziçi, Faculdade de Economia e Ciências Administrativas, Istanbul. Possui um Mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Johns Hopkins, Estados Unidos de América, Washington D.C., e fala fluentemente Inglês. De 1992 a 1994 trabalhou no Departamento dos Assuntos Marítimos como Adido, em Ancara. De 1994 a 1997 na Representação Permanente da Turquia na NATO, em Bruxelas, com a categoria de adido. Em 1997 foi para a Embaixada de Almate (Cazaquistao), onde ficou até 1999.

Neste ano (1999) regressou a Turquia para trabalhar na Presidência da República como Chefe Adjunto do Gabinete do Presidente, em Ancara, funções que desempenhou até 2001, ano em que se regressou a Bruxelas para trabalhar na Nato, até 2005, como Conselheiro da representação do seu país.

Em 2005 fez as malas de regresso a Ancara, onde viria a ocupar-se do Departamento dos Assuntos de Defesa- Chefe, até 2007, rumando depois para a Embaixada da Turquia em Washington DC como I Conselheiro, missão que terminou em 2011, tendo regressado outra vez ao seu país, Turquia, para exercer o cargo de Chefe de Departamento de Defesa, durante um ano. Igualmente durante um ano (2011/2012) trabalhou como director-geral Adjunto do Conselheiro do Presidente da Assembleia Nacional, para em 2013, concretamente em Outubro, ser indicado embaixador na Republica de Angola, cujas relações quer dinamizar. Um diplomata de formação e de carreira. (opais)

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