EPAL: Quando o “perigo” vem das torneiras

(Foto: Virgílio Pinto)

A água fornecida pela empresa pública de águas de Luanda (EPAL) é tida, por muitos consumidores, como um autêntico veneno para o organismo devido ao elevado nível de turvação que o líquido apresenta.

Veneno, é assim que Cristina Francisco, moradora num dos edifícios da centralidade do Sequele, considera a água que jorra da torneira do seu apartamento. A água, conforme fez questão de mostrar, é amarelada e cheira a barro. Conta a senhora que, mesmo que ferva ou desinfecte, o líquido fornecido pela EPAL causa-lhe enormes problemas de saúde com destaque para febre tifóide, diarreia e vómitos.

Por isso, nem ela, nem a família se atrevem a beber água da rede pública. Esta serve apenas para lavar, cozinhar e limpar a casa. “Até para banhar não é recomendável. Das vezes que banhei com esta água, sem desinfectar, apanhei infeções urinárias. Agora, antes de ir ao banho, procuro sempre pôr algumas gotas de lixivia ou fervo”, explicou.

Porém, quando a sede aperta, Cristina Francisco disse que ela e a família recorrem a água engarrafada. Diariamente, são cerca de 10 litros que o agregado de seis pessoas gasta. Cada litro custa 300 kwanzas. “Andámos nesta vida. Diariamente gastámos perto de 3mil kwanzas para dar de beber à família.

Mas é mais saudável do que beber o veneno que sai da torneira de casa”. Assim como Cristina, centenas de cidadãos estão a “fugir” do consumo de água fornecida pela EPAL. O líquido da rede pública, que chega aos consumidores por via das torneiras e cisternas, está a levantar desconfiança por causa do nível excessivo de turvação.

A alternativa tem sido, para muitos, as diferentes marcas de águas engarrafada. Para a grande maioria destas pessoas, a água da rede pública não convém que entre no estômago nem mesmo recorrendo ao uso de produtos químicos. Também em casa de Eugénia Tomás, ainda na centralidade de Cacuaco, a água que jorra da torneira não tem outra finalidade senão para lavar, banho e higienizar a casa.

De acordo com a senhora, todas a vezes que consumiu a água da rede pública teve dissabores. “É incrível. A água que nos dão não é boa. É muito acastanhada e é suja”. Por seu lado, Miguel Samuel, residente no distrito urbano da Maianga, município de Luanda, diz que a água que jorra em casa não tem cor.

Mas sai com muitas impurezas, situação que o tem remetido a uma permanente desconfiança. A família toda consome o líquido, mas ele, por uma questão de saúde, prefere todos os dias recorrer à água engarrafada “Toda a gente em casa bebe água da EPAL. Eu não posso. Faz-me mal. Já tentei, mas tive problemas intestinais”, frisou.

Já no bairro onde vive Felismina António, nos Mulenvos, município de Viana, a cor da água é variável. Afirma a senhora que há semanas que ela sai completamente turva, mas também há dias em que jorra um pouco mais límpida. Dar fervura e algumas gotas de lixivia tem sido a opção.

“E até ao momento não tivemos nenhum problema. A família consome normalmente. Mesmo até a bebé de dois anos consome essa água. É que andar também a encher a dispensa com água engarrafada não é muito seguro”.

Se a água tem cor, gosto e cheiro, ela não serve para o consumo humano

Baseando-se nas queixas dos consumidores da água fornecida pela EPAL, a engenheira civil e ambiental Dilma Costa e Silva fez saber que a água da empresa pública não cumpre com os padrões recomendados porque não corresponde aos padrões de potabilidade exigidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Segundo a especialista, os padrões universais recomendam que a água própria para o consumo humano deve ter um nível de PH (potencial hidrogeniónico) num intervalo de 7 a 10. Deve ser incolor (apresentando aspecto límpido e transparente), inodora e insípida (sem cheiro nem gosto).

Porém, se a água que jorra das torneiras está a apresentar cor, cheiro e gosto, Dilma Costa e Silva aconselha as pessoas a absterem-se dela devido às complicações de saúde que pode acarrectar.

“A água imprópria para o consumo humano pode causar doenças como diarreia, febre tifoide, hepatite, infecção intestinal e outras patologias. Se a água é amarelada, como dizem os consumidores, o ideal é não consumi-la”, frisou. Sobre o uso de produtos químicos para desinfectar o precioso liquidoa, a especialista alertou que estes podem constituir igualmente um perigo. Tal como esclareceu, o cloro usado para desinfecção da água é altamente cancerígeno e pode prejudicar o organismo, causando doenças letais, se mal aplicado.

Água engarrafada sim, mas com cuidado

Dilma Costa e Silva esclareceu ainda que, para quem foge da água fornecida pela rede pública, devido à excessiva turvação, a água engarrafada pode sim ser uma alternativa, mas a sua viabilidade depende das suas características físico-químicas estáveis. Segundo a engenheira, é preciso, antes de consumi-la, aferir, através do rótulo, sobre a qualidade da água nas questões que se prendem com a quantidade dos minerais, sódio, cloreto, vanádio, sulfato, bário, nitrato, zinco, lítio e o PH.

“Nem toda a água engarrafada é mineral ou natural. Por exemplo, a água natural é retirada da fonte sem sofrer nenhum tipo de modificação. Em alguns casos é apenas desinfectada e engarrafada. Já a água mineral é uma solução de pelo menos 500 mg de minerais dissolvidos por litro de água ou mistura com várias espécies químicas”, explicou.

De acordo ainda com Dilma Costa e Silva, para além de representar um custo para muitos agregados, a água engarrafada pode constituir um eminente perigo devido ao seu processo de fabricação que é do desconhecimento da maioria da população. “Há muitas marcas de água no mercado.

E muitas delas são produzida localmente. Será que todas elas têm merecido o acompanhamento e a fiscalização das entidades competentes? São estas questões que os cidadãos devem fazer antes de a consumirem. Se por um lado evitam a água da EPAL devido à turvação, por outro podem estar a comprar doenças”, atestou.

EPAL refuta as acusações

A Empresa pública de águas de Luanda (EPAL), na voz de Isabel Felizardo, chefe de departamento de controlo de qualidade, fez saber que a empresa tem cumprido com todos os requisitos estabelecidos pelas normas internacionais no processo de tratamento do precioso líquido. Segundo a técnica, de uma forma geral, a potabilidade da água da EPAL está garantida porque a empresa tem trabalhado sempre dentro dos limites exigidos pela organização mundial da saúde.

De acordo com Isabel Felizardo, actualmente, o nível de turvação da água a saída das Estações da EPAL é inferior a 1 NTU (unidade nefelometrica de turvação), quando os limites máximos exigidos pela OMS é de 5 NTU. Em termos de cloro residual livre, as normas internacionais prevêem um teor nunca superior a 0,5 miligramas por litros.

Conforme explicação da especialista, a EPAL está a bombear água tratada das suas estações de tratamento com um teor de cloro residual livre igual a 1 mg/L para permitir que os centros de distribuição recebam água com um teor de 0,5 mg/L.

A água, segundo Isabel Felizardo, é tratada a nível das estações de tratamento situadas nos diferentes pontos de Luanda. Diariamente, mais de 450 milhões de litros de água são tratados num processo que envolve uma série de produtos químicos como o cloro gasoso e ainda o sulfato de alumínio que é usado para a coagulação e floculação.

As taxas de tratamento destes reagentes, de acordo com a fonte, variam em função do volume e a natureza da água bruta que a estação estiver a receber. “Depois de todo o processo de tratamento, as estações enviam a água para os centros de distribuição. E estes, por sua vez, fazemna chegar à população através da rede de distribuição.

Em cada estação existe um laboratório do processo que monitora as etapas de tratamento por forma a garantir a qualidade da água à saída das estações”, explicou a responsável, tendo sublinhado que a empresa tem um laboratório central que fiscaliza a qualidade da água nas estações.

Sobre as constantes queixas dos consumidores que reclamam da péssima qualidade da água devido ao excessivo nível de turvação, Isabel Felizardo explicou que este problema tem a ver com a vandalização de algumas condutas. Em muitas zonas de Luanda, referiu, as condutas da EPAL são vandalizadas por garimpeiros e outros cidadãos para benefícios individuais.

Estas acções permitem a entrada de substâncias que posteriormente interferem na qualidade do precioso líquido. “Se a água estiver a sair com cor é porque ela sofreu alguma alteração derivada do vandalismo. O ideal é que se faça mesmo uso de desinfetantes apropriados, como a lixivia, para sanar a água”, finalizou. (opais)

Por: Domingos Bento

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