Consumidores limitam-se a despesas de bens de consumo essenciais

Consumidores desdobram-se para contornar dificuldades financeiras (Foto: Pedro Parente/arquivo)

A maioria dos consumidores é unânime em afirmar que mudou hábitos de consumo, locais de compras, que reduziu despesas com alimentação, eliminou bens da lista de compras e que ficou apenas pela aquisição do “pão-nosso de cada dia“ por força da crise económica.

Os bens alimentares sobem quase todos os dias quer na rede formal quer no mercado informal, e a capacidade de compra mantém-se a mesma, disse à Angop a senhora Celmira Manuel, que trabalha numa empresa de restauração, em Luanda.

“Tive que passar a comprar 25 quilogramas de arroz para facilitar a minha vida. Antes comprava cinco quilos, durava e dava-me muito jeito, mas agora é desaconselhável porque os preços variam com constância. Hoje pode estar a um preço e amanhã outro, por isso é bom evitar surpresas desagradáveis”, contou ela.

Assim como Celmira, que na ocasião da entrevista estava a fazer compras numa loja retalhista do centro da cidade de Luanda, Dulce Santos também. Disse que a crise contrariou tudo.

Sempre gastou mil kwanzas (AKz) para comprar o pão diário para a família e era satisfatório, porém hoje, com o mesmo valor, compra poucos pães e não satisfaz a prole.

Na sua óptica, o momento exige um reajuste do salário para fazer face à alta de preços dos bens, de uma maneira geral, e particularmente da comida.

Por exemplo, antes da crise, explicou, com AKz 10 mil ía à loja e comprava um bocado de carne, peixe e mais algum produto. Hoje compro frutas e verduras e mais nada, falou com um tom de admiração.

Disse também que a realidade a obrigou a procurar por lojas e sítios que praticam preços que se adequam ao seu bolso. E o Shoprite foi um dos eleitos, afirmou a dona Celmira, funcionária pública.

“Estou a gastar um pouco mais de tempo para localizar mercados e lojas onde posso comprar mais e a preço razoável”, disse.

Os cidadãos abordados para falar das despesas em tempo de crise, maioritariamente, mulheres, revelaram ter muito domínio do assunto e de como lidar com a situação. O mesmo não se pode falar dos homens, que afirmaram ser uma matéria delegada às “patroas” – cônjuges.

O primeiro homem que falou à nossa reportagem assumiu que a situação está “dura”. É o tradutor Paulo Victor, que disse que as despesas com material escolar, transporte e alimentação têm sido um “devorador” do salário”.

Por sua vez, João Leda afirmou que não é um homem de ir às compras e que eventualmente entra num ou noutro supermercado para comprar alguma coisa.” Não faço mais do que isso”, disse, argumentando que quem tem ido às compras é habitualmente a esposa.

“Eu não estou em condições de falar disso porque é a “patroa” que se ocupa desta área, mas sei que em relação às despesas com a alimentação regista-se um agravamento dos preços e temos comprado menos com o mesmo dinheiro.

Mercado de beleza e cosméticos

Neste capítulo, pareceu à nossa reportagem que as senhoras atiraram a tolha ao tapete e que a crise ganhou o desafio, mas as declarações delas contrastavam com a boa aparência evidenciada.

Não duvidamos que a beleza feminina ficou muito afectada, por isso a senhora Marcelina Lucena disse que desde que começou a crise está cada vez mais simples.

E quando se lhe colocou a pergunta sobre beleza nessa fase, desatou-se aos risos, para a seguir dizer que agora trata do cabelo em casa e que estava com as unhas naturais.

Já a colega que a acompanhava, Euridce Maria, disse que a crise a afectou ao ponto de estar a cerca de sete meses sem comprar uma peça de roupa.

“A prioridade nessa altura é a alimentação e roupa para os filhos. Eu não sei o que é comprar roupas para mim, desde que começou o ano”, confessou, mas exibia um visual actualizado.

Na mesma ordem, Hilariante Manuel, outra interlocutora, contou que limitou-se ao cabelo natural e às tranças de linhas, por força da crise.

Afirmou que tudo subiu e que a primazia era a alimentação. “Não posso investir cinco mil kwanzas para lavar o cabelo no salão quando a bebé precisa de fraldas e de alimentos”, justificou.

Ainda sobre o assunto da beleza, Dulce Santos, funcionária pública, não fugiu a regra, e argumentou que tendo em conta a crise e o fraco poder de compra dos salários, em vez de ir ao cabeleireiro cuidar do cabelo em casas, assim como as unhas.

Efeitos positivos/negativos da crise

Sobre essa questão, Euridce Maria disse que a actual situação económica ensinou a conter gastos e a evitar a ostensão de bens.

Declarou que antes dessa fase de apertos, excedia-se nas despesas, mas que agora sabe lidar melhor com a situação.

“Aprendi muito com a crise, hoje gasto menos”, reconheceu.

Para Paulo Victor, a crise permitiu-lhe reflectir mais e gerir melhor o que ganha, mas impediu-lhe de concretizar projectos que já estavam em curso.

Ao passo que Stela Domingos, afirmou duramente que a crise só trouxe desgraças, porque tem o filho a estudar fora, a passar dificuldades e não consegue enviar dinheiro.

Poupar em tempo de crise

Assim como para cada enfermidade um antídoto, os interlocutores apresentaram algumas saídas para atenuar os efeitos perversos da crise.

Fazer horta em casa para evitar gastos em verduras e legumes e criar galináceos para aproveitar ovos e a carne são algumas saídas apresentadas por Dulce Santos.

Elaborar uma lista de despesas prioritárias antes de ir às compras e comprar somente o indispensável, por ordem de prioridade, constituem também soluções, disse o entrevistado, Miguel Cahango, jurista e tradutor.

Por sua vez, Beatriz Costa aconselhou os consumidores a absterem-se de comer em restaurantes e de gastar em lazer e convívios, se quiserem poupar.

De igual modo, exortou os concidadãos a cozinharem estritamente para a família a fim de evitar desperdícios.

Já o consumidor Jaime António, entende que reduzir passeios assim como não seguir a moda de comprar as coisas em função dos seus lançamentos ou de estar em voga ajuda a poupar em tempo de crise. (ANGOP)

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