Cerimônia vai trazer ‘Brasil de verdade’ mas com esperança, diz italiano por trás de abertura

Image caption Segundo Marco Balich, crise obrigou reformulação do roteiro; 'gambiarra' brasileira será um dos pontos altos. (Getty Images)

Depois de comandar 19 cerimônias de aberturas de grandes eventos esportivos, o italiano Marco Balich acreditava já ter acumulado experiência suficiente na função. Mas a crise que tomou conta do Brasil nos últimos dois anos exigiu uma mudança de planejamento para os Jogos do Rio de Janeiro.

“Quando começamos a produzir essa cerimônia, o Brasil vivia um momento completamente diferente, estava decolando com os Brics. Depois, veio a crise na política e na economia e tivemos que repensar tudo”, contou ele em entrevista à BBC Brasil.

Do alto de um prédio em Ipanema, com vista para a praia, o produtor executivo da abertura dos Jogos Olímpicos garante que o evento mostrará “o Brasil de verdade”.

“Não podemos esconder os problemas. O Brasil é o que é, com as favelas, com as diferenças sociais, com violência, corrupção, zika e tudo mais. Então não vamos fingir que o Brasil é o país perfeito. Vamos retratar exatamente o que é”, afirmou ele.

Ainda não se sabe, contudo, se Balich conseguirá cumprir seu objetivo.

Rumores que circularam na imprensa nos últimos dias sugerem que uma das cenas programadas para a abertura seria substituída. Nela, a modelo Gisele Bündchen, representando a Garota de Ipanema, protegeria um menino perseguido por policiais.

A cerimônia de abertura da Olimpíada será realizada nesta sexta-feira, a partir das 20h (horário de Brasília), e deve ser assistida por 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo.

Mensagem política

Mais do que “apresentar o Brasil para o mundo”, a cerimônia de abertura dos Jogos do Rio será única, segundo Balich, porque será a primeira a entregar uma “mensagem política muito forte”.

“Nós vamos fazer a declaração mais profunda sobre mudanças climáticas e sustentabilidade”, disse.

Um dos momentos que marcará o espetáculo, de acordo com Balich, será a entrada de cada um dos 12 mil atletas com suas delegações carregando uma semente que será plantada para virar árvore na chamada “Floresta dos Atletas”, no Parque Radical, uma das instalações olímpicas em Deodoro.

“O primeiro pilar da cerimônia será a mensagem sobre sustentabilidade e aquecimento global. O Brasil tem o último ‘jardim’ do mundo, então nós temos que proteger esse jardim. Será esse o nosso recado: nós precisamos proteger o planeta”, afirma Balich.

O italiano acredita que a mensagem que vai ficar da cerimônia no Rio é de “esperança”.

“Será algo como ‘não tenha medo do futuro, tenha esperança nele'”, diz.

Favela

Balich disse que reconhecer que “as classes sociais são muito divididas no Brasil”, mas que todos os lados estarão representados.

“Nós, inclusive, trabalhamos nas favelas, boa parte das fantasias que as pessoas vão usar foram feitas na favela, então estamos profundamente engajados em fazer a cultura deles sobressair”, assinalou.

“Nós vamos falar sobre a bossa nova, mas falaremos também sobre como são os ritmos hoje, com o hip hop, o funk da favela ─ que é um belo estilo de música. Falaremos de um novo jeito de criar uma identidade artística vinda das camadas mais pobres da sociedade”, acrescentou.

A cerimônia também focará sobre o que vê como característica marcante do brasileiro: a gentileza.

“O segundo pilar da cerimônia será sobre a gentileza. Todo mundo conhece os brasileiros por isso. É um povo muito amigável, muito sorridente, e nós vamos trazer isso para o Maracanã.”

Gambiarra

O terceiro e último pilar adiantado por Balich sobre a festa de abertura é que ela homenageará o que chamou de “gambiarra”, ou o famoso “jeitinho brasileiro”.

“Essa é uma palavra muito engraçada, difícil de traduzir. Gambiarra não é exatamente o jeito certo, mas é o jeito que funciona”, explicou.

“É quando acha um jeito para consertar algo, que pode não ser o jeito mais correto, mas você conserta”, acrescentou.

(A cerimônia) Vai fazer os brasileiros refletirem sobre onde estão e para onde estão indo

Apesar de ter um orçamento limitado ─ o valor oficial ainda não foi divulgado, estima-se que a abertura desta noite no Maracanã custará metade do que custou a de Londres em 2012 -, os organizadores asseguram que os brasileiros “sentirão orgulho do país” com o evento.

“Vai fazer os brasileiros refletirem sobre onde estão e para onde estão indo”, observou.

“Nossa cerimônia terá aquele ar grandioso da de Pequim, não será poderosa em termos de alta tecnologia como a de Londres, mas será cheia de paixão e humanidade.” (BBC)

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