Brasil x Alemanha, uma pequena vingança nacional

O brasileiro só pensa no 7 a 1. (M. M. EFE)

Graças aos 7 a 1, os brasileiros vêem a final dos Jogos Olímpicos como uma segunda Copa do Mundo.

Acabou a luz em casa no meio do seu banho quentinho, quando você está com o cabelo cheio de champô? Golo da Alemanha! O Brasil está em crise económica e o aumento que você pediu ao seu chefe não vai sair? Cada dia um 7 a 1 diferente. Aquele fatídico jogo no Mineirão aconteceu em 8 de Julho de 2014, mas transcendeu o futebol. Entrou permanentemente na vida dos brasileiros, que relembram a tragédia em expressões diárias sempre que querem, de alguma maneira, se referir à palavra derrota. É muito mais pelo apelo emocional, portanto, que no próximo sábado, na final do futebol masculino na Olimpíada contra os alemães, a selecção de Neymar tem a oportunidade de dar ao país uma pequena, porém significativa, vingança nacional.

A lembrança do 7 a 1 é tão pulsante ainda no país que existe um site que continua contabilizando os golos daquela partida. “E se o jogo Brasil x Alemanha ainda estivesse rolando?”, diz a mensagem na capa do brasilalemanhaeterno.com. A resposta é surreal, mas precisa: a Alemanha estaria vencendo, no momento em que este texto é escrito, por 92.626 a 12.350. No sábado, a selecção brasileira precisa de um placar muito menor do que este: é só marcar apenas um golo e não sofrer nenhum para aliviar um pouco o peso que a maior derrota da história do desporto nacional tem sobre a vida de 200 milhões de pessoas.

Dentro de campo, porém, não haverá desforra. Apenas dois jogadores que fizeram parte da história do 7 a 1 estarão em acção na final olímpica, e nenhum deles participou daquele jogo. Do lado alemão, o defesa Matthias Ginter, então com 20 anos, estava no banco de reservas. No Brasil, Neymar, machucado, ficou fora da semifinal. Os treinadores também não são os mesmos, tampouco as equipes. Os alemães não dão a mesma importância que os brasileiros para a disputa do futebol na Olimpíada. Tanto é que jogam o torneio com um time basicamente sub-23, com atletas que pouco apareceram no time principal. Estão na final depois de vencerem a Nigéria na semifinal e de conseguirem o maior placar desses Jogos, o 10 a 0 sobre a fraca selecção de Fiji.

Graças ao 7 a 1, os brasileiros vêem os Jogos Olímpicos como uma segunda Copa do Mundo. A conquista da inédita medalha de ouro é apenas pano de fundo para um título que pode representar um recomeço para a selecção. Após a Olimpíada, o técnico Tite, o melhor do país, fará sua estreia no comando do time principal depois de tempos difíceis com Dunga, que acabou demitido. Tite abriu mão de assumir a equipe olímpica e deixou o cargo para Rogério Micale, que convocou para os Jogos o que o Brasil tem de melhor. Entre eles, Neymar, capitão do time e referência para os mais jovens, e nomes conhecidos no futebol mundial, como o defesa central Marquinhos, do PSG, e Gabriel Jesus, comprado recentemente pelo Manchester City, de Guardiola.

O duelo pela medalha de ouro colocará frente a frente o melhor ataque da Olimpíada, da Alemanha, com 21 golos marcados, e a melhor defesa, do Brasil, que ainda não foi vazada. O palco do jogo, o Maracanã, é o estádio onde os alemães conquistaram a Copa do Mundo de 2014, vencendo a Argentina na final. É também o lugar em que os brasileiros sofreram a segunda pior derrota da história, o 2 a 1 para o Uruguai na final da Copa de 1950, que ficou conhecida como Maracanazzo. Ou seja, no sábado a selecção olímpica pode exorcizar dois fantasmas de uma vez só. Ou deixar as coisas ainda piores. (EL PAIS)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA