Atletismo: Rio2016 abriu horizontes aos angolanos – Carlos Rosa

Carlos Rosa- Presidente da Federação Angolana de Atletismo (Foto: Lucas Neto)

O presidente da Federação Angolana de Atletismo, Carlos Rosa, reiterou que o propósito da presença nos Jogos Rio2016 foi proporcionar aos jovens um ambiente a fim de começar a prepará-los para a próxima edição dos Jogos Olímpicos.

Explicou que a escolha da dupla foi o culminar de um processo em que foi orientada a área técnica da Federação nacional para seleccionar os dois candidatos no âmbito da Universalidade dos Jogos com o beneplácito da FIAA.

Este procedimento deveu-se – prosseguiu – ao facto de o atletismo, por não ter obtido os mínimos; e, face a situação económica actual, ter ficado fora dos apoios do Ministério da Juventude e Desportos.

De uma lista de nove potenciais candidatos, sendo cinco masculinos e quatro femininos, com histórico de cada um deles e perspectivas de evolução em função da faixa etária, “numa visão futurística, a opção foi para os mais jovens, tendo em vista os Jogos do Japão”, explicou.

O objectivo no Rio2016, segundo a federação, foi “a abertura do horizonte a este nível”, proporcionar conhecimento efectivo do que é a participação neste evento e o convívio com atletas de top.

“Foi um sonho realizado talvez fora do período perspectrivado por eles próprios. Mas demos a oportunidade a estes jovens, já que pensamos que temos de continuar a investir no factor humano e acreditamos que é nessa juventude que se vai ter de apostar”, argumentou Carlos Rosa.

No país há um potencial “muito grande”, segundo o responsável. “Infelizmente, estamos com grandes problemas de infra-estruturas”.

E recordou que o próprio presidente da confederação africana quer que o centro de alto rendimento para os países de expressão portuguesa, presentemente a funcionar no Senegal, se instale em Angola. Porém, não há condições no país para tal.

“Não temos condições, não temos uma pista digna desse nome; e isso vai dificultando um pouco”.

No entanto, anunciou a intenção de, em conjunto com o Comité Olímpico Angolano, organizar em Outubro uma visita ao país da entidade máxima do atletismo africano para a implementação do projecto Olimpafrica de Viana.

Hermenegildo Leite, 16 anos, foi 20º entre 22 concorrentes na classificação final da prova dos 100 metros dos Jogos do Rio2016, com o tempo de 11.56 s, obtido nas preliminares em que acabou em 7º e último lugar da sua série.

Liliana Neto, 19 anos, correu a mesma distância no sector feminino, tendo ocupado também a 20ª posição, entre 24 corredores. O seu tempo foi 13.58 s, que lhe valeu a 7ª e penúltima posição da sua série preliminar que teve oito concorrentes.

Qualquer destes tempos ficou aquém dos seus melhores registos ainda deste ano. O rapaz, que estuda na Namíbia e medalhado nos Jogos da CPLP em Cabo Verde, já cronometrou 10.95 s, enquanto a menina, que milita no Benfica de Lisboa (Portugal), teve o seu melhor em 12.75.

Sobre os resultados obtidos o presidente da FAA disse que numa avaliação feita com os próprios atletas, foi constatado que estavam à espera de melhorar as suas marcas, mas reconheceu o grau de dificuldades a que estiveram.

“Temos de reconhecer que numa competição a este nível, onde há atletas com muito mais rodagem e experientes é normal que não tenham conseguido melhorar as suas marcas. Mas foi uma boa experiência para eles”.

Para a federação, o importante é que eles continuem a competições regulares. Daí que estão já confirmados para os Jogos da Regiao 5 da União Africana em Luanda no mês de Dezembro.

Carlos Rosa disse que não era do conhecimento da federação que a Liliana Neto estava a recuperar de uma lesão, conforme argumentou a atleta para justificar a sua prestação aquém do perspectivando nos Jogos Olímpicos.

De acordo com responsável, a comissão médica da Missão Olímpica fez uma ressonância magnética e não identificou nada. Ficou descartada qualquer lesão. Assegurou que se a federação tivesse conhecimento de que a atleta estava lesionada, não a teria convocado.

“Reconheço que a atleta é jovem. O importante é continuar a acreditar nestes jovens. Criar oportunidades para que possam participar em mais provas. Só assim é que, efectivamente, podem melhorar as suas marcas”.

Portugal e a evolução dos atletas angolanos

Na sequência, Carlos Rosa mostrou-se preocupado com a evolução dos atletas angolanos em Portugal, face ao que considerou a primazia dada pelos técnicos aos locais, o que tem afectado o rendimento, por exemplo, de Liliana Neto.

“Agora também reconheço que os atletas angolanos em Portugal não têm margem de evolução. Temos de ser realistas, a preocupação dos técnicos portugueses é a prioridade aos atletas nacionais”, alertou.

“E temos de reconhecer que qualquer atleta africano hoje na Europa, se tiver potencial, torna-se europeu, não quer saber de África. A própria preocupação dos treinadores é criar condições para os atletas locais”.

Revelou que em conversa com uma responsável do SL Benfica presente na delegação portuguesa aos Jogos Rio2016, Ana Oliveira, manifestou a preocupação no sentido de a Liliana Neto competir mais.

Defendeu que se tem de dar oportunidade da atleta competir mais. Porque, conforme argumentou Carlos Rosa, “pode estar a treinar, mas se tiver duas competições ao ano, não tem margem de progressão”.

E adiante apresentou o que pensa ser a realidade dos atletas angolanos residentes no país lusófono europeu.

“Se tiverem marcas que a federação portuguesa e clubes verifiquem que tem possibilidades de representar Portugal, são aliciados para se tornarem portugueses, não tendo, não há essa preocupação.”

Como possível solução, apontou o investimento na formação de técnicos e criação de infraestruturas para a modalidade.

“Nós temos de decidir. Infelizmente, estamos com um défice muito grande de técnicos aqui. Temos falta de condições para que o atletismo possa evoluir. Porque o atletismo não é só correr; é preciso acompanhamento médico, fisioterapeuta, alimentação, etc.”

Crescimento com Efeito Bolt

De uma maneira geral, o atletismo registou no Rio2016 registos interessantes, na apreciação do presidente da Federação angolana da modalidade. Carlos Rosa ressaltou o facto de terem sido quebrados vários recordes.

Ressaltou também o facto de a FIAA ter criado vários centros de desenvolvimento pelo mundo, propiciou que surgissem campeões e atletas competitivos de países “impensáveis”.

Além disso, destacou o que chamou “efeito Bolt”, que criou “um movimento muito grande a nível das Caraíbas”.

Entretanto, resumiu tudo na necessidade dar atenção ao factor humano. Não apenas na formação de treinadores, mas também dos atletas, que têm de conciliar a prática desportiva com a formação académica, disse.

“Está reconhecido que o atleta que não tem ‘brian (cérebro)’ não vai a lado nenhum. Temos de continuar a trabalhar nesse sentido de aumentar o nível académico dos nossos atletas na perspectiva de, pelo menos, melhorar também depois o conhecimento deles e a percepção em relação ao processo de treinamento. (Angop)

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