Traficante brasileiro transforma cela em suíte de luxo no Paraguai

Vista da cela do narcotraficante brasileiro Jarvis Chimenes Pavão, na prisão de Tacumbu, em Assunção, no dia 28 de julho de 2016 (afp_tickers)

Três quartos, televisão de plasma e até uma biblioteca com a coleção em DVD da série sobre o colombiano Pablo Escobar. O narcotraficante brasileiro Jarvis Chimenes Pavão vivia em meio ao luxo na prisão Tacumbú, em Assunção, uma das mais lotadas do Paraguai.

A descoberta de uma bomba de explosivos plásticos no muro da penitenciária na noite de terça-feira não só revelou que o artefato seria usado supostamente para uma fuga cinematográfica, mas que Chimenes Pavão vivia desde 2009 em uma cela com todas as comodidades e protegido pela cumplicidade comprada de altos funcionários.

Três suítes, uma cama confortável, coberta de edredons, e inclusive uma biblioteca onde, em meio a várias obras, se destaca a série completa sobre “Pablo Escobar”, serviram de albergue luxuoso ao brasileiro, condenado por lavagem de dinheiro e procurado no Brasil por narcotráfico, observou a AFP em visita guiada de autoridades judiciárias.

“Vamos demolir a cela de Chimenes Pavão e vamos tomar medidas contra os diretores que permitiram os privilégios para este condenado”, disse o novo ministro da Justiça, Ever Martínez, que assumiu na quinta-feira passada ante a destituição por este escândalo da ministra Carla Bacigalupo.

O próprio presidente paraguaio, Horacio Cartes, se encarregou de demitir a ministra.

Dentro da prisão de Tacumbú muitos presos lamentaram que seu célebre colega, morador da “cela VIP”, como a conheciam, tinha sido transferido após revelados os privilégios sobre sua prisão.

“Não sei o que será de nós sem ele”, disse um dos prisioneiros que não quis se identificar ao afirmar que Chimenes Pavão era generoso e dava dinheiro para arrumar a quadra de futebol e a capela da prisão, além de pagar por sua segurança dentro da cadeia.

Josieux, um brasileiro preso, admitiu que dentro da prisão “vive-se na miséria” fora do pavilhão de Chimenes Pavão. Em Tacumbú existem 3.500 internos, o dobro de sua capacidade.

Todos sabiam

A advogada do traficante, Laura Acasuso, afirmou que vários ministros da Justiça e ex-diretores de Tacumbú estavam a par dos privilégios de Chimenes Pavão e de outros presos de destaque.

“Seis ou sete ministros da Justiça e seis ou sete diretores conhecem suas contribuições”, assegurou Acasuso.

Antonio González, um dos presos do pavilhão de Pavão, admitiu que o condenado era “o homem mais querido da prisão”.

Considerado como um dos traficantes mais perigosos da região e herdeiro do, outrora poderoso, Fernandinho Beira-Mar, que está em uma prisão de segurança máxima no Brasil, Chimenes Pavão foi acusado como suposto autor intelectual do crime, em junho, de um conhecido empresário, Jorge Rafaat, na fronteira com o Brasil.

“Ele (Chimenes Pavão) nunca disse que era santo, mas cumpriu a punição que foi imposta pela justiça e colaborava com dinheiro que gera licitamente através de suas empresas”, defendeu Acasuso.

Segundo a advogada, o traficante “tem 1.200 pessoas que emprega em suas empresas”. Acasuso entrou junto com os jornalistas durante o reconhecimento de sua suíte de luxo na prisão.

A advogada revelou que Chimenes Pavão, entre outras contribuições, ajudou na construção de dormitórios para os diretores, banheiro privado para os funcionários, melhorias na biblioteca, no salão de visitas e até na alimentação diária de 80 internos, incluindo o salário dos cozinheiros.

Também afirmou que o traficante continuava fazendo doações da prisão e financiando obras para bairros pobres em diferentes partes do Paraguai.

Segundo os especialistas anti-drogas do Paraguai, a fronteira seca nordeste – onde Pavão baseava sua fortaleza – é a ponte do tráfico de cocaína e maconha com destino a São Paulo e Rio de Janeiro.

Um “rei” na miséria

Como em muitas prisões da América Latina, em Tacumbú existem presos que, por causa da grande quantidade de pessoas, dormem no chão, passam fome, frio e os motins são a ordem do dia. Mas Chimenes Pavão pagava por sua segurança.

Segundo revelaram alguns presos, cuidar dele era um privilégio, tanto para os reclusos selecionados para fazê-lo, como para os guardas penitenciários.

Um ex-preso, o engenheiro Osvaldo Arias, assegurou, em declarações à televisão, que o pavilhão VIP do brasileiro era consentido mediante pagamento de 5.000 dólares, mais uma cota semanal de 600 dólares.

Esses pagamentos davam direito a visitas em qualquer horário de namoradas, familiares e amigos, além do uso de celulares e toda a tecnologia da internet.

No inferno externo ao pavilhão dos privilegiados estão os reclusos que, sem colchões, “dormem em cima de jornais ou papelões”, denunciou a juíza Ana María Llanes, que participou da visita com a imprensa.

Em junho “dois presos morreram de fome e de frio”, disse um preso brasileiro que se identificou como Josieu. Outros seis internos faleceram por causa de um incêndio.

“É uma vergonha o que fazem com ele”, disse outro preso, um economista condenado pelo roubo de um transportador. “Isso tem um fundo político”, protestou. (AFP)

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