Sócias na crise

(OPAIS)

Uma nova forma de sobrevivência surge nos armazéns de venda a grosso de Luanda, motivada pelos altos preços dos produtos alimentares. Trata-se de senhoras que se associam em grupos de duas ou três, à porta dos armazéns, para partilharem as despesas.

Desesperadas e, nalguns casos, revoltadas com o constante aumento dos preços dos produtos da cesta básica, centenas de donas de casa perfilam-se diariamente nos armazéns de Luanda com o propósito de comprarem alimentos para os seus lares. Para colmatar a desvalorização do Kwanza e diversificar a dieta alimentar diária, elas encontraram como solução o estabelecimento de parcerias momentâneas: juntam-se em grupos de duas a três pessoas, normalmente, para adquirirem produtos de primeira necessidade como o arroz, massa, óleo e açúcar.

Na manhã de Sábado, a nossa equipa de reportagem percorreu alguns dos armazéns situados na Avenida Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, no bairro Golf 2, com o objectivo de constatar “in loco” como se processa o fenómeno que tende a espalhar- se pelo país. “Sócia, sócia, sócia…”, gritava Imaculada João, à entrada de um dos armazéns de venda de frescos, com o propósito de atrair para si as pessoas que acabavam de chegar e pretendiam estabelecer tal parceria.

Contou que o que a leva a fazer sociedade com pessoas que nem sequer conhece é a subida dos preços. “Todos os dias, os preços dos produtos alimentares sobem e a pessoa nunca sabe o que comprar quando chega ao armazém. Daqui a pouco ninguém vai comer mais”, frisou. Realçou que o peixe sardinha, que era substituído pela coxa ou frango, voltou a ser um dos principais complementos alimentares.

Para melhor ilustrar o que se está a passar, explicou que a caixa de frango chega a custar 12 mil Kwanzas, em função do preço ao quilo. Já a caixa de peixe carapau grosso subiu de 11 mil para 24 mil Kwanzas pela mesma razão. A caixa de dez quilogramas de corvina está a 23 mil Kwanzas, enquanto, por outro lado, o saco de arroz e a caixa de óleo estão no valor de 10 mil Kwanzas, quando há bem pouco tempo rondavam os três mil Kwanzas. “Então a única solução é fazer “sociedade” com duas ou três pessoas, porque não é uma questão de escolha, mas sim, a solução.

Em minha casa a sardinha é usada até como bife”, disse. Salientou que essa foi a solução encontrada para conseguir pagar as propinas das escolas dos seus filhos e sem pôr em causa a alimentação. “O pão subiu para cada um a 100 kwanzas. Nós queremos que os preços baixem, senão vamos morrer. Agora somos obrigados a fazer sociedade, caso contrário acabamos por não comprar nada”, desabafou num tom de desespero. Celestina Zongo Fernando, por seu turno, contou que só começou a procurar sócias quando o preço da comida ficou mais caro. “Só consigo comprar agora o saco de arroz de 25 quilos se me fizer sócia de três pessoas e a caixa de frango com duas pessoas.

Juntamos o dinheiro por igual e repartimos do mesmo modo, a fim de que cada uma leve alguma coisa para casa”, explicou. Entre elas estava a uma senhora que se apresentou simplesmente como Bebucha, que foi ao armazém comprar produtos para revender no mercado paralelo. Na qualidade de frequentadora assídua do local, confirmou que os preços praticados estão relativamente mais altos nos últimos meses, em consequência da crise que se vive no país. “Actualmente as coisas estão a subir e as pessoas não têm possibilidade de comprar uma caixa de peixe de 24 mil Kwanzas.

Então, a solução é juntar duas a três pessoas para depois dividir por igual ou as pessoas comprarem nas nossas mãos, a retalho”, disse. Para a Bebucha, a crise ressente- se não só no seio dos clientes das grandes superfícies comerciais como também nos revendedores do mercado informal. O que os tem obrigado a uma autêntica ginástica para calcular a margem do lucro, sob pena de ficarem no prejuízo. Reiterou a posição das suas colegas, afirmando que a caixa de frango que chegou a custar 1500 Kwanzas passou a 10 mil kwanzas, isto sem falar dos preços dos frescos a subir todos os dias.

Sobreviver por meio de cortes

Além das sócias, o fenómeno de cortadores de carne ou peixe ganhou maior dimensão nos últimos tempos. Indivíduos de diferentes idades disputam a atenção das integrantes das duplas ou triplas de sócias que se juntam à entrada de cada um dos armazéns com o intuito de repartir o produto recém-adquirido. Entre eles, até o jovem Domingos Malomba, 24 anos, que exerce essa actividade há dois anos, disse que nunca viu tantas pessoas a fazerem-se sócias de alimentos como neste ano.

“Esse trabalho depende muito da clientela do armazém porque há dias em que não conseguimos facturar e há outros em que consigo arrecadar entre três a quatro mil Kwanzas”, explicou. Salientou que há mais clientes no final do mês, por ser a época em que as pessoas reforçam as suas dispensas de casa. Além dos riscos de se ferirem em caso de uma falha no manuseio do objecto cortante, eles são obrigados a pagar o aluguer de um espaço seguro para repartirem os produtos porque, caso recorram a locais inapropriados, assumem a obrigação de as devolver se forem confiscados pelos fiscais.

“Os fiscais aparecem aqui várias vezes e recebem as coisas das senhoras. Nesses casos somos forçados a devolver”. Contou ainda que, por vezes, no momento da divisão, algumas das sócias acabam por entrar em conflito e cabe a eles, como cortadores, tentar apaziguar os ânimos e repartem a carne ou peixe ao meio para que cada uma delas leve uma metade. Lamentou o facto de algumas pessoas reclamarem por cobrarem 250 Kwanzas por cada caixa. “Vivo com as minhas irmãs e tem sido por este meio que ajudo a custear as despesas de casa. Tem sido pouco, mas ainda dá para pagar a renda”, disse.

Outro cortador ouvido por OPAÍS é André Paulo que, contrariamente ao seu colega, já tem uma bancada para esse fim. Disse que sempre fez este trabalho para sobreviver. “A época que mais facturamos é no final de cada mês e entre os dias 05 e 10, depois disso a procura diminui. Diariamente consigo fazer três a quatro mil e no fim do mês chego a ter uma reserva de cinco mil Kwanzas, em função das minhas despesas diárias”, disse o jovem. Justificou que as pessoas agora fazem-se “sócias” porque todos dias os frescos sobem de preço. “Hoje, independentemente da caixa a ser cortada e dividida, cobramos entre 200 a 300 Kwanzas e não aumentamos o preço como ocorre nos armazéns”, concluiu. (OPAIS)

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