Pagavam-lhe para violar raparigas menores. E só agora Eric foi detido

(Mark Mainz/Getty Images)

Em Nsanje, no Malawi, há famílias que pagam a homens para fazerem sexo com as suas filhas. A razão? Querem que estas entrem na puberdade. Eric Anavi é um desses violadores. E tem VIH.

Eric Aniva nasceu em Nsanje, tem quarenta anos, é casado com duas mulheres, pai de cinco filhos e está infetado com VIH. Eric ganha a vida a fazer sexo desprotegido com raparigas menores, num ritual que assinala a passagem para a adolescência. Já teve relações sexuais com mais de 104 mulheres.

A BBC Radio fez uma reportagem intitulada “Roubar a Inocência no Malawi“, sobre as “hienas” (assim se intitulam homens como Eric) neste país africano.

Um grupo de mulheres canta e dança em torno de quatro raparigas embrulhadas em panos de algodão branco. Assim começa a reportagem da BBC. E é este o início de um ritual de passagem que assinala o fim da infância destas quatro raparigas e a entrada na adolescência, o atingir da puberdade.

Nsanje é uma aldeia no sul da República do Malawi, um país no sudeste do continente africano que faz fronteira com a Zâmbia, Tanzânia e Moçambique. O país tem mais de 17 milhões de habitantes. No Malawi, 10,3% da população vive infetada com o VIH.

Em Nsanje, numa comunidade com casas de barro e telhados de palha vive Eric Aniva. “Eu sou o Eric Aniva, vivo nesta aldeia e ganho a vida como ‘hiena’. Até agora já dormi com mais de 104 mulheres”, apresenta-se o homem, visivelmente feliz.

Nesta e em muitas outras comunidades do Malawi, “hiena” é um título honorífico dado a um homem que tem um papel fundamental numa tradição de vários anos. Os “hiena” são responsáveis pela “limpeza” (ou “purificação”) de raparigas adolescentes depois de estas terem a sua primeira menstruação. A purificação é feita por um homem “puro” e da confiança da tribo, que faz sexo com as raparigas.

As adolescentes que a BBC descreve no início da reportagem passaram pela experiência de estar com uma “hiena”. “Não podia fazer mais nada” afirma uma das quatro raparigas. “Tinha de fazê-lo pelos meus pais”.

Mas não são apenas as crianças que devem passar por este processo. Segundo a tradição, também as viúvas devem passar por este processo, ainda antes de poderem enterrar os maridos.

As crianças que passam por este ritual são, muitas vezes, levadas pelos pais. E os serviços prestados pela “hiena” são pagos. “Cada ‘hiena’ recebe entre três e seis euros” por cada “limpeza”, informa Eric. “As pessoas acreditam que, se não fizeres isto, pode acontecer algo terrível. Por isso, na nossa sociedade é normal ‘limpar’ a aldeia”.
A “purificação” malawiana na primeira pessoa

A BBC tentou conversar com três raparigas que tinham passado pelo ritual, para tentar perceber a razão de tantas jovens se sujeitarem a esta prática.

Maria e Yunes aceitaram conversar. Cada uma tinha um filho ao colo e afirmavam ter 18 anos, mas o repórter diz que pareciam “ter menos dois ou três anos”, suspeitando que lhes tivessem pedido para ocultar a verdadeira idade, de forma a proteger as suas famílias.

A jovem Maria, “com um olhar corajoso”, confessa que não sabia em que consistia o ritual quando lhe disseram que a sua iniciação estaria para breve: “Fiquei muito entusiasmada quando me disseram que tinha de ir a uma cerimónia de iniciação, porque queria saber como tinha de agir enquanto adolescente”. Durante a cerimónia, a jovem recebeu conselhos e depois foi-lhe trazido um homem. Esse homem estava lá para fazer sexo com ela.

Quando questionada sobre por que razão aceitou fazer sexo com o homem, Maria explicou que o fazia pela família e que não “podia fazer mais nada” senão aceitar. “Tive de o fazer pelo bem dos meus pais, para que eles não sofram.” Desde logo explicaram-lhe que, se não mantivesse relações sexuais com o homem, “os membros da sua família podiam ser atacados por várias doenças, até morrer”.

Tive de o fazer pelo bem dos meus pais, para que eles não sofressem.”

Yunes confessou que não queria dormir com o homem, mas que, também ela, teve de o fazer pelo bem da família. Depois de ter sido “purificada”, a jovem diz que ficou zangada com os pais por a terem obrigado a fazer aquilo. Os pais responderam: “Todas as raparigas têm de fazer aquilo que a cultura quer que elas façam”.

“No princípio, fazia isto de forma voluntária” explica Eric Aniva, “e as pessoas perceberam que era a melhor pessoa para ser a ‘hiena’”. Eric conta ainda que começaram a contratá-lo e que começou “a conseguir ganhar a vida” a “purificar” raparigas.

Eric exibe um certo orgulho no seu trabalho: “Quando a rapariga vem”, depois da primeira menstruação, “é escoltada pelos pais, que trazem comida para eu me alimentar. Quando acabo de comer, ela deita-se. Eu demoro o meu tempo. E, quando sei que está na hora de fazer sexo, eu ‘entro’ e faço sexo”. Tudo isto é feito com o consentimento dos pais.

Este ritual evoluiu a partir da crença de que as crianças são frias ao nascerem, como os mortos, e que apenas quando chegam à puberdade é que atingem o calor da idade adulta. E para as raparigas esse calor tem de ser insuflado através de sexo. Mas, antigamente, esse “trabalho” era dado a um possível futuro marido.

Quando questionado sobre se faz sexo com todas as raparigas que lhe trazem, Eric afirma que é impossível e que tem de “fazer uma escolha”. As outras “hienas” de Nsanje ficam com as crianças rejeitadas por Eric.

“Estas raparigas nunca mostram medo. Elas têm prazer em que eu seja a ‘hiena’. Elas têm até orgulho e dizem às outras pessoas: ‘Este tipo é um verdadeiro homem, ele sabe dar prazer a uma mulher’”

Quando sei que está na hora de eu fazer sexo, eu ‘entro’ e faço sexo.”

Fagisi, Chrissie e Phelia são as anciãs da aldeia que organizam os rituais para as raparigas. A sua missão é fazer com que “nenhuma pessoa da aldeia fique infetada”. São elas as responsáveis por escolher um homem puro, sossegado, simpático e que não conheça muitas mulheres.

As anciãs nada veem de errado nesta prática, embora afirmem que não gostaram quando tiveram de passar pela iniciação, quando eram mais novas.

Quando lhe perguntam se muitas raparigas engravidam depois de estarem com as ‘hienas’, as anciãs riem-se. “Estás a dizer que uma pessoa pode engravidar por dormir com um homem uma vez”, questionaram as mulheres entre gargalhadas de incredulidade.

A mulher de Eric, Fanny, conheceu o marido durante a “purificação” que fez depois de ter ficado viúva do primeiro marido.

Fanny confessa que não quer deixar a filha — que ainda tem menos de dois anos — ir a uma ‘hiena’ quando crescer e que gostava que “a tradição terminasse”. “Acho que é muito triste para nós, como mulheres. Ainda hoje odeio o que aconteceu.” Fanny diz que só casou com Eric “porque são coisas que acontecem”.
Ritual não permite o uso de preservativo

“O ritual prevê a impossibilidade de usar preservativos” e pode ajudar a propagar doenças, explica Eric, que confessa que, quando lhe fizeram o teste, acusou positivo para VIH.

Quando lhe perguntaram se não se preocupava em passar o vírus, o malawiano respondeu que se tornou um embaixador da Goodwill e que “promove uma campanha” para sensibilizar os habitantes do Malawi sobre o VIH. No entanto, continua a cumprir o ritual porque, diz, é “um homem pobre” e precisa de dinheiro. No entanto, já não faz sexo tantas vezes quanto antes e pretende parar “gradualmente”.

Quando eu fui testado, descobriram que tinha VIH.”

untitled_infographic-1untitled_infographicQuando foi questionado sobre se divulgava aos pais a informação de que estava infetado, explicou que “não”, porque tem medo que estes não lhe queiram oferecer as filhas. “Eu só quero fazer sexo.”

Uma chefe tribal malauiana, Theresa Kachindamoto, luta contra esta tradição, recrutando o apoio de outros chefes um pouco por todo o país. Theresa afirma que estes rituais são uma “desvirtualização” da cultura do Malawi. Em alguns distritos do país, metade das mulheres são mães ainda antes de completarem 18 anos.

As suas posições já fizeram com que recebesse ameaças de morte, mas Theresa parece não se importar, desde que consiga fazer com que as pessoas do seu país sejam educadas. “Acredito que eles” podem mudar, afirmou a chefe tribal.
A “hiena” Eric foi detida por ordem do presidente

Depois da reportagem da BBC ter saído, a indignação não tardou a surgiu, não só no Malawi, mas um pouco por todo o mundo. Tanto que presidente daquele país africano, Peter Mutharika, ordenou uma investigação ao ritual de “purificação” malawiano, o que culminou na detenção pela polícia de Eric Aniva, a “hiena” entrevistada pela BBC.

“Se queremos promover valores culturais positivos, se queremos promover a socialização das nossas crianças, não podemos aceitar estas práticas culturais no nosso país. E o presidente não aceitará”, disse o porta-voz da presidência do Malawi, Mgeme Kalilani.

Quanto à detenção de Eric Aniva, o porta-voz explica que este está a ser “investigado por ter exposto raparigas menores ao HIV”, tendo muitas delas contraído o vírus nas relações sexuais desprotegidas que mantiveram com a “hiena”.

Mas também os pais das menores violadas estão a ser investigados pela polícia. “Todas as pessoas envolvidas nesta prática devem ser culpabilizadas por expor as suas crianças e mulheres a este detestável mal”, explicou Mgeme Kalilani. E concluiu: “Estas horríveis práticas, que são culpa de apenas algumas pessoas, denigrem a imagem do Malawi internacionalmente e envergonham-nos a todos.” (OBSERVADOR)

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