Moçambicanos sentem impactos da crise no bolso e na mesa

Prateleiras vazias: um cenário cada vez mais comum em Maputo (DW)

Em Maputo, há muitos cidadãos a sofrer devido à crise financeira resultante da dívida. Alguns não conseguem pagar as propinas dos filhos, outros não têm dinheiro para a renda. Há até mesmo quem durma sem se alimentar.

No maior mercado grossista de Moçambique, a norte da capital, por volta das oito horas da manhã, ainda com temperaturas baixas, homens, mulheres e crianças cruzam a Estrada Nacional para começar mais um dia de trabalho.

Vitória André, que vende refeições numa barraca, conta que desde o final do ano passado já só atende, em média, 10 clientes por dia. Há menos de um ano, eram 50. “Está a ser difícil, mas não há como. É só tentar a sorte”, diz. “O pão agora já subiu e para tê-lo é muito difícil. Se tiveres três filhos, tens de ter dinheiro para três pães”.

No mesmo mercado, encontramos Luísa Augusto a vender frangos. Com lábios ressequidos por causa do frio, lamenta que a sua qualidade de vida tenha baixado em menos de um ano.

“Desde o princípio deste ano, as coisas estão muito diferentes”, afirma, lembrando que antes conseguia comprar um saco de arroz de 25 quilos, uma barra de peixe, seis quilos de açúcar e cinco litros de óleo. “Mas agora não. Nem para comprar pão. Já não compro. Só cozinhamos arroz e tomamos um chá com salada. Ao jantar é mesma coisa”.

“A vida está péssima”

Júlia Jossefa, de 65 anos, vive no bairro da Costa do Sol, no litoral de Maputo, e também vive da venda de galinhas. Mas como o negócio está parado, o seu filho teve de deixar a faculdade.

“Agora estamos a lutar, a ver se ele consegue um emprego para podermos sobreviver,” diz. “A vida subiu. Aquilo que comprava por 500 [meticais], agora está a mil [meticais]. Não consigo arranjar nem um saquinho de arroz para casa. Tenho que comprar em latinhas e às vezes até dormimos sem comer. A vida está péssima”, lamenta Júlia Jossefa.

Joaquim Francisco, funcionário público, ainda consegue comer. Mas diz que a dívida pública e as políticas orçamentais estão a afetar o seu bolso. “Há dois ou três anos, conseguia ter uma agenda para suprir as minhas necessidades todas, comparativamente a esses últimos três anos. Agora estamos a viver de forma muito diferente”, conta.

Fazer contas à vida

Benjamim Matsimbe, trabalhador por conta própria, tem uma oficina no bairro pobre da Maxaquene, a quatro quilómetros do centro da capital. Com quatro filhos, agora refaz as contas das despesas mensais atuais.

“Realmente as coisas estão difíceis”, conta. “Todos meses tenho metas a cumprir, mas tenho que manter o arroz, porque não tem dívida para o estômago”.

O economista Roberto Tibana apela ao Governo para fazer um reajustamento fiscal, porque os próximos dias poderão ser ainda mais difíceis.”Se não for feito um ajustamento, haverá mais défice”, alerta, sublinhando que, nesse caso, “a situação económica vai piorar”. (DW)

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