Matala transforma água em “tesouro”

Cilos para armazenamento de milho (Foto: Pedro Parente)

O conceito de diversificação da economia encontra respaldo no município da Matala, província da Huíla, onde os agricultores e camponeses cientes do actual momento do país transformam a água em “tesouro”.

O empenho e dinamismo com que desbravam hectar por hectar os enormes campos agrícolas que constituem o Perímetro Irrigado da Matala, com uma larga extensão de 10.732 hectares (6.831 são aráveis e 3.901 destinados à pecuária), não deixam dúvidas a qualquer transeunte de que aqui se assiste, literalmente, a uma verdadeira revolução agrícola.

Os campos adjudicados ao Perímetro Irrigado da Matala, que dista da cidade do Lubango, província da Huíla, a 180 quilómetros, têm uma produção estimada, para este ano, em mais de 70 mil toneladas de diversos produtos.

Das culturas feitas, os de eleição são o milho e batata-rena, estando na segunda linha de produção o alho, a cebola e hortícolas.

O Presidente do Conselho de Administração da Sociedade de Desenvolvimento da Matala (Sodemat), gestora do Perímetro Irrigado, Cipriano Ndulumba, explicou à Angop que desta gama diversificada de culturas o milho tem sido a que se aconselha ao produtor, uma vez que é praticado quase em regime de sequeiro e também a batata-rena, devido ao seu alto rendimento por unidade de superfície.

Daí que na maior parte da extensão da área se produz o milho. Nesta época de cacimbo, é que se pratica em grande escala as diversas culturas, com destaque para as hortícolas, como a couve, o repolho, alface, pimento e, embora com menos expressão e em regime experimental, a uva.

Comparativamente aos anos anteriores, a produção de 2014 cifrou-se em 33.981 toneladas e em 2015 os dados estatísticos fixaram-se em 52.430 toneladas.

Para justificar este aumento de produção, de ano para ano, o PCA da Sodemat atribuiu tal feito a um grande trabalho que a equipa técnica de extensão rural tem estado a fazer no que ao aconselhamento dos produtores diz respeito.

A propósito, os 518 agricultores que labutam em diversos campos de produção do perímetro estão organizados em sete cooperativas agrícolas, a saber: 1º de Maio, 1º de Dezembro, Rainha Njinga, Comandante Cowboy, Baixo Cunene, 11 de Novembro e cooperativa agrícola de serviço de ex-militares e veteranos da pátria “Agostinho Materno”.

A sociedade gestora, por intermédio das estruturas financeiras, nomeadamente o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), colocou uma brigada de mecanização agrícola para conceder apoio a cada uma delas, evitando a dependência de terceiros para a realização plena da sua actividade.

Para melhor acompanhamento por parte das equipas de extensão agrícola, o perímetro foi dividido em 18 sectores produtivos, que recebem assistência técnica, abastecimento técnico-material, ou seja, insumos agrícolas, como sementes, adubos e alguns pesticidas que dão suporte à própria actividade a nível do perímetro, cuja vala de irrigação, à jusante do rio Cunene, tem perto de 43 quilómetros de extensão.

A produção saída dos campos agrícolas da Matala é encaminhada, principalmente, para os diversos mercados locais, da cidade do Lubango, ao mesmo tempo que muitos clientes vão ao local adquirir tais produtos, cujos preços são estabelecidos pelos próprios agricultores.

Por exemplo, um balde de alho pode ser adquirido a três mil kwanzas e um saco de 150 quilos a cem mil Kwanzas.

Infraestruturas de apoio à produção

Tendo em conta a sua grande extensão e o nível de produção que se obtém neste espaço, foram também concebidas infraestruturas de apoio à produção, nomeadamente as câmaras de frio, cilos e fábrica de concentrado de tomate.

A primeira infraestrutura dá suporte à conservação de todos os frescos, sendo que nesta primeira etapa a grande opção dos produtores é a batata-rena e hortícolas.

A partir de Agosto os camponeses começam a fazer as colheitas e, como estratégia para puderem vender a um bom preço, colocam o excedente nestas câmaras para, em Dezembro, em que há maior procura da batata-rena, venderem-na a um bom preço.

O resto mantém em conservação para que possa ser utilizada como semente na época agrícola seguinte.

As três câmaras internas de conservação têm capacidade de armazenamento de 600 toneladas cada uma, o que perfazem 1.800 toneladas, para além de duas na parte exterior, com capacidade de 200 toneladas cada uma, o que dá um global de duas mil e trezentas toneladas.

Os cilos, que são três, com capacidade para armazenar quatro toneladas de milho cada, é uma estrutura que serve de apoio ao produtor, no caso de haver grandes excedentes e permitir escolher os mercados nos momentos em que também os preços favoreçam os custos de produção, obtidos a nível das próprias parcelas.

A terceira infraestrutura, que neste momento se encontra em obras, é muito antiga. Data dos anos 1960, transforma o tomate em concentrado.

O seu equipamento foi substituído no decurso dos anos, em função das novas tecnologias introduzidas a nível do mercado internacional.

Nesta altura, a entidade gestora, a Sodemat, aguarda por “momentos bons” para poder negociar com financiadores a aquisição dos equipamentos em falta para a sua conclusão.

Jovens lideram mão-de-obra no perímetro

Os jovens constituem a maior parte dos seis mil trabalhadores directos envolvidos em toda a extensão do Perímetro Irrigado da Matala. Setenta porcento deles, ou seja, 4.200, são mulheres.

Há uma certa tradição na passagem de testemunho. De acordo com declarações de alguns agricultores à Angop, os jovens cujos pais trabalham no perímetro, ao longo da sua vida vão aprendendo com eles e hoje muitos deles estão a assumir a direcção destas parcelas.

Tendo em conta que um destes agricultores pode ser um chefe de família (para esta zona agro-pastoril uma família pode ser composta por oito pessoas) muitas delas de forma indirecta trabalham também no perímetro, para além de quitandeiras que são as principais clientes dos produtores.

“Os jovens cujos pais são agricultores só não trabalham no campo ou porque não querem, ou porque têm outro nível de formação”, explicou o agricultor Matias Capelongo, de 19 anos de idade. (ANGOP)

por Gaspar Francisco

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA