França-Portugal: os caminhos cruzados que se descruzam em Saint Denis

(Mais Futebol)

Raphäel Guerreiro terá pela frente jogador que nasceu no mesmo local, e a apenas 10 quilómetros do Stade de France.

Após o final do França-Alemanha de Marselha, a TF1 falou com Lilian Thuran, o jogador com mais internacionalizações pelos Bleus (142). Ao antigo central foi pedido que antecipasse o embate do próximo domingo no Stade de France e este fê-lo de uma forma curiosa: «Gostaria que o jogo só se decidisse no fim, para a França, claro. Gosto muito de portugueses, joguei nos Portugais de Fontainebleu.» Em 1981, um dos melhores defesas de todos os tempos começava a dar os primeiros toques na bola num emblema com ligações a Portugal.

Fondé en 1971, le Club Sportif et Culturel des Portugais de Fontainebleau, installé dans un écrin de verdure sur les hauts de Montigny, cultive depuis plus de 40 ans, succès sportifs, traditions Portugaises et convivialité qui en fait un club de foot pas comme les autres. Ouvert à tous, il n’est pas indispensable d’être lusophone, la motivation du club et de l’association n’étant pas de cumuler les inscriptions ou licences mais de faire perdurer les installations, l’esprit et l’héritage des fondateurs», pode ler-se no site oficial do clube amador.

Em Saint Denis, dia 10, vão descruzar-se destinos cruzados, dos quais Thuran é apenas um exemplo antigo. Três jogadores da Seleção portuguesa, que aspira ao primeiro título sénior da história, têm ligações profundas ao país que agora defrontam. Raphäel Guerreiro, Anthony Lopes e Adrien Silva nasceram em terras gaulesas, e, no caso do lateral, os elos são mais evidentes uma vez que se exprime ainda apenas em francês.

Na equipa de Didier Deschamps, o caso mais marcante é o de Antoine Griezmann, que tem um avô português, antigo futebolista do Paços de Ferreira. Mas Evra é filho de mãe cabo-verdiana, antiga colónia lusa, Matuidi jogou no Créteil Lusitanos – em 2002, Armand Lopes, que já tinha sido presidente durante 30 anos dos Lusitanos de Saint-Maur, na vizinha Saint-Maur-des-Fossés, criado e apoiado pela comunidade portuguesa, assumiu a direção do US Créteil e mudou-lhe o nome para US Créteil Lusitanos, apesar dos protestos dos adeptos dos dois emblemas – e os seus pais andaram fugidos por Angola e Zaire. Tem dois irmãos, um chamado Manuel e o outro Júnior.

Há em França quem se pergunte onde estariam estes três internacionais portugueses se tivessem ficado fiéis ao país onde nasceram. Será que entrariam no lote de Deschamps?

Raphäel Guerreiro nasce a 22 de dezembro de 1993 em Le Blanc-Mesnil, uma comuna do departamento Seine-Saint-Denis, a apenas 10 quilómetros do Stade de France. Quatro anos antes, precisamente na mesma localidade, via a luz do dia pela primeira vez Moussa Sissoko, que terá pela frente o lateral-esquerdo, uma vez que tem sido utilizado por Deschamps como médio direito. Guerreiro começa a jogar futebol no Blanc-Mesnil Sport Football. Está três anos depois no Instituto de Formação de Clarefontaine, seguindo-se Caen, Lorient e, após o Euro, o Borussia Dortmund. Já o atual médio do Newcastle inicia o seu percurso no vizinho Aulnay-sous-Bois, tendo passado pelo Red Star 93 e Toulouse ainda como jovem.

É enorme para mim, porque nasci em França e uso as cores de Portugal durante o Euro. Estou muito feliz, tal como a minha família. De resto, só penso em estar concentrado no relvado. Hoje estive concentrado.» (Raphael Guerreiro, após jogo com a Islândia)

O que seria de Raphël Guerreiro se não tivesse escolhido a nacionalidade portuguesa? Filho de pai português e mãe francesa tornar-se-ia muito provável rival de Evra na luta por um lugar titular nos Bleus. E com o início mais fraco do futebolista da Juventus no torneio quem sabe se agora não poderia estar a defrontar Portugal em vez de defender as quinas.

Anthony Lopes nasce em Givors nos arredores de Lyon. Com a partida de Hugo Lloris (sim, o titular da seleção francesa) em 2012, torna-se o número dois do L’OL. No final da temporada, o titular Rémy Vercoutre lesiona-se com gravidade, e ele quem assume, ainda muito novo, a defesa das redes de Les Gones. Expressa-se em português, fê-lo em conferência de imprensa, uma das primeiras em Marcoussis, embora sinta algumas dificuldades. Considerado um dos melhores guarda-redes da Ligue 1 nas últimas épocas poderia muito bem estar entre os 23 de Deschamps, embora Lloris seja um número 1 bastante sólido.

Chateado se a França ganhar? Não, não tenho por que ficar chateado. No entanto, é claro que vamos fazer para ganhar o Europeu, e se a França ganhar vou ficar triste porque não ganhámos. Apenas isso. Comecei nos Sub-17 na Seleção Nacional, para mim foi uma decisão fácil, sempre quis jogar pelo meu país. Nasci em França, mas o meu país foi sempre Portugal. Foi uma decisão que tomei sozinho, foi uma decisão do coração, estou muito contente por estar aqui na Seleção. Jogar um campeonato desta dimensão em França tem um sentimento muito especial para mim. Conheço o país, a língua, estou aqui há muitos anos.» (Anthony Lopes, durante a primeira conferência de Portugal em Marcoussis)

Angoulême, no sudoeste de França, é o local de nascimento de Adrien Silva, filho de pai luso e mãe gaulesa. Chega com 13 anos ao Sporting, depois de ter passado dois no Bordéus. Dos três é o único que estudou e jogou em Portugal, falando, como é óbvio, corretamente a língua. É impossível o que seria de Adrien se não tivesse vindo para Portugal e decidido pela seleção das quinas. Só Deschamps poderia responder a essa pergunta, e seria preciso que o quisesse.

Tenho muita família e amigos lá, e vão estar muitos presentes nos estádios em que jogarmos.» (Adrien, antes da partida para o Europeu)

Há uma ligação óbvia dos jogadores franceses a Portugal. Eliaquim Mangala jogou em Portugal. Curiosamente, tal como Griezmann nunca integrou um plantel sénior no seu país. O central terminou a sua formação na Bélgica no Standard de Liège e daí saiu para o Dragão, já o avançado, recusado em muitos clubes de topo franceses pela sua baixa estatura, saiu ainda júnior para a Real Sociedad, de Espanha. A atual estrela do Atletico Madrid é neto do português Amaro da Cavada, jogador da história do Paços de Ferreira.

São estes os caminhos que se descruzam em Saint Denis, no domingo, na grande final do Euro 2016. O mundo, por vezes, mostra-se mesmo muito pequeno. (Mais Futebol)

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