Erundina: “Não vamos pagar a dívida pública com mais sofrimento para o povo”

A ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina, em seu escritório em São Paulo. (Fernando Cavalcanti)

Aos 81 anos, deputada tenta chegar à prefeitura de São Paulo pela segunda vez.

Aos 81 anos a deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) gargalha quando ouve a reportagem do EL PAÍS falar sobre as semelhanças entre ela e o político de esquerda norte-americano Bernie Sanders. “Ele é uma pessoa já com certa idade, um homem corajoso que coloca teses que se contrapõem à dominação capitalista neoliberal”, afirma. Satisfeita com a comparação, a parlamentar traça um paralelo entre sua pré-candidatura à Prefeitura de São Paulo nas eleições deste ano e outros movimentos políticos: ela cita os partidos de esquerda Podemos (Espanha) e o Syriza (Grécia) como modelos de quem “está em busca soluções criativas”. Apesar de octogenária, a deputada se diz “rejuvenescida, por que a juventude está se reconhecendo nas propostas que estamos trazendo”.

Assistente social, Erundina se tornou em 1989 a primeira mulher (e petista) a chefiar a Prefeitura de São Paulo. Ela deixou o PT em 1998 e se filiou ao PSB, e em março de 2016, ingressou no PSOL. À medida que começa novamente a caminhada rumo ao Executivo municipal este ano, as lembranças do 1º de janeiro de 1989 vêm à tona. “No meu primeiro dia de prefeita tive que lidar com uma enchente grave na cidade, com deslizamentos e mortos: calcei uma bota, capa, e fui para a periferia da zona norte, uma das mais afetadas”, lembra. “Aquele dia eu tomei consciência do tamanho do problema. E teve gente que disse que a culpa era do meu Governo, no primeiro dia!”.

Pergunta. Estas serão as primeiras eleições sem doação de empresas. Isso é bom para o PSOL?

Resposta. O PSOL e eu nunca dependemos de financiamento de empresas. O preço dessas doações é caro, compromete os compromissos. O fim do financiamento empresarial nos favorece porque os outros partidos vão ter que tirar do bolso para viabilizar suas riquíssimas campanhas eleitorais. Nossas campanhas são pobres, baseadas em voluntariado. É gente interessada em repensar a cidade e projetá-la para o futuro. Sabemos fazer campanha corpo a corpo, abordando as pessoas, percorrendo a cidade e discutindo seus problemas e soluções.

P. Uma lei aprovada na Câmara em 2015 exige mínimo de nove deputados para que um partido seja convidado a participar de debates e seu partido tem seis. Essa forma de fazer campanha pode compensar uma eventual ausência sua nos debates da TV?

R. Já entramos com representação junto à Procuradoria Geral da República, queremos uma decisão a respeito de uma lei que pode até ter a foto do PSOL. É uma lei anti-PSOL. Nosso partido tem seis deputados, precisaria ter nove para ter acesso ao debate com os candidatos. Vamos ao STF nos próximos dias, e ao mesmo tempo temos uma campanha de rua, na Internet, para que essa restrição seja derrubada. Isso não é democrático, é discriminatório. Se no limite não formos atendidos apesar desse esforço, já avisamos as TVs: na mesma hora em que o debate ocorrer, na frente da emissora, nós vamos fazer um debate público com a população. Eles tem medo do que? Do PSOL, do discurso do PSOL.

P. O PSOL pretende se coligar com algum partido nessas eleições?

R. Isso não está descartado, mas não temos pressa nessa questão. Não faremos concessões de princípios, não queremos forças políticas que não tem nada a ver conosco só para ter um segundo a mais no programa de TV.

[Marta Suplicy] Não me amedronta. Não é minha principal competidora

P. Que partidos seriam esses? PCO e PSTU?

R. Não necessariamente. Tem outros partidos nesse campo [da esquerda]. Não descartamos alianças e compromissos programáticos. Já estamos produzindo um programa com ampla participação da sociedade, que será referência de uma eventual aliança com quem quer que seja.

P. Caso não vá para o 2º turno, quem apoiaria?

R. Essa pergunta não passa pela minha cabeça. Estarei no segundo turno. Pode escrever. A pergunta é quem estará comigo.

P. Durante seu Governo em 1989 você chegou a encampar a bandeira da tarifa zero nos transportes. Ainda acredita que isso é viável?

R. Eu defenderia novamente essa bandeira, atualizando e adequando aos novos tempos. Depois de 27 anos a cidade tem outra dinâmica, a questão da mobilidade apresenta contornos próprios nos dias de hoje. Com certeza a complexidade é mais grave. Em 1989 a proposta não se viabilizou não é porque não tinha méritos, é porque eu não tinha condições políticas para aprovar. Eu tinha minoria na Câmara. Mas a questão é tão pertinente que sobreviveu todos estes anos pelas mãos da juventude.

P. Mas de qualquer forma o PSOL continuará sem maioria na Câmara para governar. Você espera apoio do PT caso vença?

R. Não só do PT. Mas de todos os vereadores que gostem da cidade e que avaliem que nossa proposta, gestada com a população, mereça o apoio deles.

P. Como pretende lidar com o Movimento Passe Livre?

O PSOL e eu nunca dependemos de financiamento de empresas. O preço dessas doações é caro, compromete os compromissos

R. Não queremos cooptá-los ou incorporá-los. Não é bom nem para partido, nem para Governo nem para movimento social que eles se misturem. Eles precisam manter sua identidade, autonomia e independência crítica, principalmente com relação ao Governo. Estamos inclusive com agenda marcada com eles já. Certamente vamos beber na fonte de quem tem a dizer sobre a cidade nos dias de hoje.

P. Como arrumar dinheiro para investir com o caixa do município no vermelho?

R. Esse é um problema que todos os municípios têm enfrentado, porque não tiveram vontade ou força política de enfrentar a questão da dívida pública. Não vamos pagar a dívida pública com mais sofrimento para o povo, com saúde pior na cidade, com creches e educação em piores condições. Vamos enfrentar politicamente este problema.

P. Aumentar os impostos pode ser uma solução?

R. Um Governo não pode se firmar apenas alegando que não tem dinheiro de um lado, e falar em aumentar imposto do outro. Isso é fácil, qualquer um faz. São Paulo tem um potencial econômico como nenhuma outra cidade, representa nada menos que 13% do PIB do país. Queremos ter voz no nível federal a respeito das políticas econômicas, previdenciárias e de preço em geral. Não é justo que a cidade só sofra o impacto das decisões do Banco Central e do Ministério da Fazenda. Queremos ter voz, nós, o povo de São Paulo. Não vamos simplesmente administrar os efeitos das políticas que eles definem centralizadamente e autoritariamente. Vamos viabilizar as políticas publicas intervindo e influenciando a política econômica nacional.

P. Como você avalia a gestão do atual prefeito?

Eu defenderia novamente essa bandeira [passe livre], atualizando e adequando aos novos tempos.

R. Todo Governo tem erros e acertos. Bobagem achar que só se erra, a não ser que seja tão ruim que não acerte nada. Ele teve erros e acertos, não quero me deter nesse ponto. Eu quero acertar mais do que ele, e quero acertar mais do que acertei há 27 anos.

P. A atual gestão teve alguns problemas com a Guarda Civil Metropolitana nas últimas semanas, com ações truculentas contra moradores de rua e intervenções armadas que terminaram em mortes. Qual sua opinião sobre estes fatos?

R. Pelo que eu li, a guarda matou 14 pessoas nos últimos meses, e ela não foi criada para ser Polícia Militar. Ela deveria estar em torno das escolas para evitar que o tráfico se aproximasse. Essa deve ser a tônica da GCM, ajudando na segurança das escolas, parques e praças publicas. Não é para estar de arma na mão perseguindo morador de rua e matando cidadão. Primeiro erro: está desviando de sua função constitucional.

P. Fala-se de uma batalha pela periferia de São Paulo nesta eleição e, nela, a senadora e pré-candidata pelo PMDB, Marta Suplicy,Marta Suplicy e o deputado Celso Russomanno (PRB), a julgar pelo Datafolha, saíram na frente. Qual o perfil do seu eleitor?

R. Eu preservo minha base nas periferias, sabe por quê? Porque meus mandados como deputada têm tido uma incidência muito direta sobre os movimentos sociais, são muito ligados a eles. Tenho presença e atuação fortemente ligadas às necessidades e problemas da população mais pobre, excluída e mais onerada pelas políticas econômicas. Meus mandados são a voz destes movimentos sociais nas questões mais importantes que eles defendem, seja democratização das comunicações, reforma política, auditoria da dívida pública, a questão da mulher, da criança e do adolescente. Fui junto com essa população na luta por direito à moradia, pelo direito a ligar luz e água nas favelas, que foi uma conquista, assim como o direito à tarifa social para essa população.

P. Marta Suplicy, é forte nas periferias, até hoje é identificada como sendo a mãe do Bilhete Único e dos CEUS. Você acha que vai disputar com ela esses votos?

R. Não gosto dessa história de mãe. O povo não precisa de mãe. O povo precisa de cidadania, de empoderamento para que ele busque soluções para seus problemas…

P. Mas de qualquer forma ela é forte nas periferias…

Um Governo não pode se firmar apenas alegando que não tem dinheiro de um lado, e falar em aumentar imposto do outro

R. Não sei o quanto. Mas não tem problema, ela não me amedronta. Não é minha principal competidora.

P. Quem é o rival a ser batido neste pleito?

R. Nenhum deles. A população me reconhece pelo que eu já demonstrei nessa cidade.

P. Em entrevista ao EL PAÍS a Marta falou que o voto dela favorável ao impeachment de Dilma Rousseff “não importava” para o eleitor da periferia. Você concorda?

R. O que pesa muito é o fato dela sair do PT justo na hora mais crítica do partido. Ela se fez na política através do PT. Ela foi senadora, deputada, ministra duas vezes de Governos do PT e, no momento crítico na vida da legenda ela a abandona. Esse traço dela ter traído, abandonado o barco quando ele faz água, isso pesa mais do que eventualmente o fato dela ter votado pelo impeachment. Mesmo junto ao eleitor dela na periferia. As comunidades periféricas que estiveram na origem do PT têm um apreço grande à fidelidade, àquilo que se construiu junto. E ela só saiu porque não estava sendo alçada a candidaturas mais altas no partido, não foram questões éticas como ela alegou. Até porque, sair do PT e ir para o PMDB … Quem estava na foto com ela no dia que ela se filiou: Eduardo Cunha, Michel Temer e Renan Calheiros. Me diz se essa é uma foto que sugere compromisso ético? Não sugere.

P. A senhora votou contra o impeachment e faz oposição ao Governo Interino de Michel Temer. Como foi ter o Temer como seu vice em 2004?

R. Foi tranquilo. Foi uma convivência positiva, nos tornamos amigos na época, sem dificuldade. Foi uma pessoa com quem convivi durante aquele período de forma positiva. (El Pais)

por Gil Alessi

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