Erdogan: “Revolta é presente de Deus para limparmos nosso Exército”

Muitos turcos apoiam autoritário Erdogan – também em Berlim (DPA)

Presidente conservador faz “limpa” imediata nas Forças Armadas e no Judiciário, após golpe frustrado, prendendo e destituindo mais de 5 mil militares e juízes. Saldo dos choques é de 160 mortos e mais de 1.100 feridos.

Na noite deste sábado (16/07), milhares de cidadãos turcos tomaram as ruas e praças de Ancara, atendendo o apelo de líderes políticos – entre eles o presidente, o primeiro-ministro e o ministro do Interior – para mais uma vez “defender a democracia”, um dia após o golpe de Estado frustrado.

A última – bem sucedida – tentativa de golpe comparável na Turquia conta mais de 30 anos. Os choques da véspera deixaram um saldo de 161 mortos, inclusive numerosos civis, assim como 1.140 feridos. Auto-denominando-se “Conselho da Paz”, facções das Forças Armadas tentaram tomar o poder no país.

Até serem dominados, os golpistas ocuparam o aeroporto internacional Atatürk; fecharam uma ponte sobre o Estreito do Bósforo, em Istambul; enviaram tanques e helicópteros de combate e para controlar os principais nós rodoviários; além de lançarem bombas no Parlamento em Ancara, durante uma sessão, e ocuparem a TV estatal TNT, de onde transmitiram um comunicado declarando toque de recolher e lei marcial por todo o território.

“Eles bombardearam os locais de onde eu saíra”

No momento da tentativa de golpe, o presidente Recep Tayyip Erdogan passava férias na cidade de Marmaris, na costa sudoeste da Turquia. O controvertido político islâmico contou que os conspiradores teriam tentado atacá-lo em seu retiro: “Eles bombardearam os locais de onde eu havia partido, assim que eu fui embora. Eles provavelmente pensavam que eu ainda estava lá.”

Acusando os conspiradores de tentarem assassiná-lo, o chefe de Estado lançou uma devassa das Forças Armadas turcas. “Eles vão pagar um preço alto por isso. Esse levante é um presente de Deus, porque será o motivo para limparmos o nosso Exército”, prometeu.

Declarando a situação sob controle, fontes governamentais informaram que haviam sido detidos 2.839 golpistas, desde soldados rasos a oficiais de alta patente, incluindo aqueles que formaram a “espinha dorsal” da rebelião. A emissora turca NTV noticiou que também se realizara uma “limpa” do Judiciário, com 2.745 juízes afastados do cargo.

De acordo com o ministro do Exterior Mevlüt Cavusoglu, estariam envolvidos no golpe soldados da base aérea Incirlik, utilizada pelos Estados Unidos para lançar ofensivas contra alvos da organização jihadista “Estado Islâmico” (EI) na Síria. Assim, a base teve suas actividades suspensas neste sábado, com corte de energia e circulação restrita.

Çavusoglu adiantou que a Turquia retomará as missões com a coligação internacional anti-EI liderada pelos EUA assim que estiverem concluídas as operações anti-golpe. Após interrupção de várias horas, a companhia aérea nacional Turkish Airlines retomou seus voos, com alguns cancelamentos.

Erdogan quer extradição de adversário Gülen

Em conexão de vídeo exibida às câmaras no smartphone de um repórter da CNN turca, o chefe de Estado se dirigiu à nação neste sábado: segundo ele, “a estrutura paralela” estaria por trás da tentativa.

Esse é o código de Erdogan para se referir aos adeptos de Fethullah Gülen. O clérigo islâmico moderado, que vive em exílio auto-imposto nos Estados Unidos, é o principal adversário do líder conservador, depois de tê-lo apoiado, inicialmente. Desde então, ele tem sido repetidamente acusado de tentar fomentar um levante nas forças militares, mídia e judiciário da Turquia.

Em comunicado, entretanto, Gülen condenou a tentativa de golpe e se eximiu de qualquer participação. “Como alguém que sofreu sob múltiplos golpes militares durante as últimas cinco décadas, é especialmente ofensivo ser acusado de ter qualquer ligação com tal tentativa. Eu rechaço categoricamente essas acusações”, rebateu. Não obstante, Erdogan promete que pedirá sua extradição.

Odiado e amado por muitos

Há muito o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), de Erdogan, mantém relações tensas com as Forças Armadas, as quais têm um histórico de golpes armados em defesa do secularismo. No entanto, a última vez em que os militares tomaram o poder efectivamente foi em 1980.

A visão conservadora-religiosa do presidente para o futuro da Turquia igualmente desagrada a muitos cidadãos comuns, que se ressentem de seu autoritarismo. Suas investidas contra a liberdade de imprensa e expressão têm despertado numerosos protestos internacionais.

Ainda assim, Erdogan igualmente suscita a admiração e lealdade de milhões de turcos. A ele atribuem-se uma melhoria do padrão de vida e o restabelecimento da ordem numa economia tradicionalmente abalada por crises sucessivas. No primeiro trimestre de 2016, a Turquia alcançou um crescimento económico de 4,8% em relação ao ano anterior. (DW)

AV/rtr,ap,afp,dpa

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