Diversificação: Diversificação ainda distante

O economista Jânio Ambrósio. (Foto: D.R.)

A diversificação é, para os economistas, uma urgência, com a aposta na produtividade, na redução das importações, no reforço das empresas, na criação de emprego e na diversificação das fontes de receitas fiscais e de divisas.

Os desafios da diversificação da economia angolana estiveram recentemente em debate na Universidade Católica de Angola, onde os economistas, empresários e intervenientes no encontro defenderam que a diversificação ainda se encontra distante da realidade actual do país.

Para Alano Sicato, economista e professor universitário, a diversificação de que se fala constantemente não tem causado os efeitos desejados, ao contrário verifica-se uma grande carência em diferentes fontes de renda que impede o país de garantir, a longo-prazo, um crescimento económico sustentável.

O economista e professor Jânio Ambrósio, alerta que o desejo imediato pela diversificação pode levar o país a praticar outros lapsos como é o caso de investimentos em sectores que não são prioritários. “É um processo longo e deve ser muito bem aplicado. Apostar na exportação de um único produto ou único sector para substituir o sector petrolífero não é a receita certa”, defende.

Jânio Ambrósio explica que esta estratégia seria útil se existisse uma correlação inversa entre os preços destes produtos. A título de exemplo explica se nos especializássemos na exportação de peixe, compensaria ou minimizaria o efeito da queda do preço de petróleo se os preços do peixe evoluíssem positivamente, supondo que o volume de receitas geradas pelo sector alternativo tivesse dimensão significativa de forma a compensar a perda no sector petrolífero.

Para Jânio Ambrósio, estratégias imediatas limitam-se a ampliar o número de variáveis de risco além do preço do petróleo, sendo que para a resolução definitiva do problema exige-se antes a auto-sustentabilidade que se pauta pela produção suficiente que responda às necessidades internas.

Por outro lado, sublinha que a prioridade deve ser posta nos sectores chaves, como a “agro-pecuária e educação”, para que, posteriormente, o efeito se propague às demais áreas de negócios.

No encontro defendeu – se a necessidade de reajustes nos objectivos de médio-longo prazo, uma vez que o plano nacional de desenvolvimento de 2013-17 está muito desajustado da actual realidade económica.

Apreensivos com os problemas actuais da economia angolana, no encontro os intervenientes recordam que o país ainda vive os dilemas identificados após 2002, assentes na elevada concentração de receitas públicas, exportação de quase um único produto e um vasto sector da economia informal.

MERCADO INFORMAL O EMPECILHO DA DIVERSIFICAÇÃO

O papel do mercado informal também foi debatido. Para Alano Sicato é um dos maiores desafios que a economia do país enfrenta. O professor universitário assinala que a extensão do mercado informal tem absorvido uma parte considerável da força-de-trabalho disponível no país, ocupando-a com actividades económicas muito precárias e que agregam muito pouco valor à economia.

“Se, por um lado, o mercado informal tem sido uma fonte de sustento digno de muitas famílias, por outro, tem criado inúmeras distorções económicas ao país, o que merece uma atenção especial na estratégia da diversificação económica”, defende o professor.

Durante o debate os intervenientes concordaram que os investimentos devem sair de Luanda e deslocar-se para o interior, onde consideram existir a cultura de trabalhar a terra. “Devemos revolucionar a nossa cultura de trabalho, trabalho é produtividade, é inovação e é geração de riqueza. Não se pode desistir da diversificação ainda que seja um processo longo”, frisou.

Quanto aos sectores prioritários para investimentos, o economista Jânio Ambrósio menciona que o processo dever ter início pela resolução das nossas necessidades básicas como é o caso da alimentação. O economista defende que o sector da agropecuária é a aposta lógica devido à sua importância e à sua capacidade de absorção de força de trabalho.

Alano Sicato defende que países como Angola, que andam à procura do caminho para o desenvolvimento económico devem investir mais no sector social, como a saúde e educação, essencialmente por terem potencial de reduzir as assimetrias económicas e sociais no longo prazo, considerando, todavia, o desafio da diversificação económica que constitui o principal objecto do financiamento do FMI.

‘PRECISAMOS DE NOS ORGANIZAR’

Jânio Ambrósio, economista e professor universitário, considera que, no limite, a diversificação deverá gerar uma economia auto-sustentável e realça ter sido positiva a anterior experiência com o Fundo Monetário Internacional.

janio ambrosioQue avaliação faz da situação macroeconómica actual do país?

A situação é desafiante. A diminuição do influxo de dólares tem colocado em cheque a economia, que deverá fazer mais e melhor para superar as limitações impostas pelo actual contexto.

Até que ponto o apoio do FMI pode garantir vantagens e desvantagens para a diversificação da economia e a estabilidade da economia angolana?

Em termos de montante muito pouco, comparativamente à actual necessidade da economia. O Extended Fund Facility tem como limite máximo de financiamento o correspondente a 435% da quota do país membro durante a vida útil do programa. Para o caso de Angola corresponderá a cerca 4,5 mil milhões de dólares.. Mas a possibilidade de reformas estruturantes na economia ao aderir a este plano de financiamento, poderá ser uma mais-valia e lançar as sementes para o desenvolvimento sustentável.

Concorda que este é o momento certo para Angola receber este apoio do FMI?

Acho que ninguém fica feliz por ter de depender de alguém, nesse caso de “apoios”. Contudo, a verdade é que melhorámos bastante com a intervenção do FMI, na altura através do programa Stand-by Arrangement (SBA), afinámos as nossas políticas orçamentais: reduzimos o défice público, controlámos o endividamento, etc. O sucesso das reformas com o SBA, geram expectativas positivas em relação ao EFF, programa mais longo e com reformas mais profundas.

Que tipos de entraves acredita que devem ser eliminados para que a diversificação em Angola seja real e prática?

O desejo imediato pela diversificação poderá ser lesivo e levar-nos a cometer outros e novos erros. Por exemplo, querer apostar na exportação de um único produto ou único sector para substituir o sector petrolífero, o que me parece uma troca da lebre pelo coelho ou seja, mais do mesmo. Esta estratégia seria útil enquanto, e se, existisse uma correlação inversa entre os preços destes produtos.

Exemplificando: se nos especializássemos na exportação de peixe, compensaria ou minimizaria o efeito da queda do preço de petróleo se os preços do peixe evoluíssem positivamente, supondo que o volume de receitas geradas pelo sector alternativo tivesse dimensão significativa de forma a compensar perda no sector petrolífero. Estas estratégias imediatas, limitam-se a ampliar o número de variáveis de risco além do preço do petróleo.

A resolução definitiva do problema exige antes a auto-sustentabilidade: temos de produzir o suficiente para nós. Sejam alimentos, vestuários, ferramentas, etc. Assim a exportação virá de forma natural como resultado dos excedentes. Antes precisamos de nos organizar, fazer apostas nos sectores chaves, em que destaco a “agro-pecuária e educação” e acredito que o efeito se propagaria para as demais.

Quais os principais desafios da diversificação da Economia?

Necessidade de reajustes nos objectivos de médio-longo prazo, uma vez que o Plano Nacional de Desenvolvimento de 2013-17 está muito desajustado à actual realidade económica.

As limitações em termos de infraestruturas necessárias para a expansão do sector privado. Estradas, caminhos de ferro, acesso à energia eléctrica e água para as indústrias. Melhoria do ambiente de negócios para incentivar o investimento estrangeiro.

Ganhar competitividade em relação a outras economias, que poderá ser alcançado com o reajuste da taxa de câmbio, actualmente sobrevalorizada. Há um “Lack of Know-how”. Devemos preparar melhor, e em maior volume, o angolano para o mercado laboral. Apesar da evolução positiva nesse sentido, necessitamos de mais quadros e melhores.

Há que reduzir o nível de intervenção do Estado na economia. Ou seja, não deve ser o Estado a criar um projecto agrícola, por exemplo, mas deve criar condições para que os privados assim o façam. Em casos extremos, pode o Estado através de parceria público-privadas intervir nos sectores de pouco interesse ao empreendedorismo privado.

Quais são os sectores que devem ser prioridades para o investimento?

Tudo começa pela resolução das nossas necessidades mais básicas, tudo começa pela alimentação! Devemos ser auto-sustentáveis. Ou seja, não é saudável ter de depender de um outro país para comer. A importação é algo natural, os países não têm como produzir todos bens, não possuem capacidade, nem condições e nem vantagens comparativas em produzir todos os bens que desejam/necessitam. A agro-pecuária parece-me uma aposta lógica, devido à sua importância e à sua capacidade de absorção de força de trabalho.

Este sector (sector primário) será o suporte das indústrias (sector secundário), sendo que normalmente este último ocupa um lugar de destaque nas exportações dos países: forte sector industrial, maior volume de exportações. Leva tempo, mas é a aposta certa.

O turismo também poderia ser o garante de divisas, mas e al xigiria um esforço de reajuste da estrutura da economia e talvez da cultura.

INTERVENÇÃO DO FMI PODE SER MUITO POSITIVA

Os economists que consultámos consideram que o apoio do FMI pode contribuir para que Angola melhore a sua situação económica.
“Melhorámos significativamente com a intervenção do FMI, na altura através do programa Stand-by Arrangement (SBA), afinámos as nossas políticas orçamentais e reduzimos o défice público, controlámos o endividamento, etc. O sucesso das reformas com o SBA, geram expectativas positivas em relação ao EFF, programa mais longo e com reformas mais profundas”, considera Jânio Ambrósio.
Alano Sicato, por seu turno, realça a importância do “envolvimento da classe empresarial e académica em todo este desafio. Particularmente, duvido que o FMI, em termos de ideias sobre o que deve ser feito em Angola para diversificar a economia, tenha soluções que não passem pelo envolvimento destas classes”, afirmou. (exameangola)

Por: Jorge Salvador

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