CPLP/20 anos: Comunidade lusófona está aquém das expetativas

(PAULO NOVAIS/LUSA)

Investigadores contactados pela Lusa a propósito dos 20 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa consideram que a organização está aquém das expetativas e defendem que vá mais longe.

Investigadores contactados pela Lusa a propósito dos 20 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa consideram que a organização está aquém das expetativas e defendem que vá mais longe, mas divergem no sentido do progresso.

“A CPLP é um instrumento de valor acrescentado para os Estados-membros, de outro modo há muito teria deixado de existir. Por outro lado, está muito aquém do que seria possível e desejável”, defendeu o diretor do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS).

Em declarações à Lusa a propósito do 20.º aniversário da CPLP, que se assinala no domingo, Paulo Gorjão disse que a organização lusófona deveria ir mais longe no plano político, de concertação diplomática ou na cooperação em outras organizações internacionais.

Exemplificou com a inexistência de “qualquer concertação diplomática no sentido de coordenar as candidaturas dos Estados-membros ao Conselho de Segurança” da ONU.

“Há períodos em que não há Estados-membros da CPLP no Conselho de Segurança e há outros em que há mais do que um. Faria todo o sentido articular (…) para que houvesse sempre que possível um Estado-membro no Conselho de Segurança”, defendeu.

Para o analista, a organização tem falta de recursos financeiros, mas sobretudo de uma estratégia “que saia do papel e que se traduza em algo de substantivo”, algo que não acredita que esteja para breve.

“Tenho muitas dúvidas de que a próxima secretária-executiva tenha condições para o fazer”, confessou, justificando o seu ceticismo com o facto de o futuro da CPLP depender de o Brasil “assumir uma posição preponderante”, algo que nunca aconteceu e dificilmente acontecerá em breve devido à situação política do país.

O problema, disse Paulo Gorjão, é que “nem todos os Estados-membros querem exatamente a mesma coisa da CPLP (…) e isso acaba por dar à organização um sub-rendimento”.

Também Alexandra Dias, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (UNL), assinalou as diferentes expetativas que os Estados-membros têm face à CPLP como um entrave ao crescimento da organização.

Num estudo recente que realizou e apresentou no ano passado no Institute of Commonwealth Studies, a professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL concluiu que os principais problemas da CPLP são a inexistência de uma visão estratégica e a divergência das expetativas dos nove Estados-membros.

Um orçamento “algo errático”, que em 2014 estava na ordem dos 2,5 milhões de euros, também não contribui para o êxito da organização lusófona, acrescentou Alexandra Dias, que se manifestou expectante quanto à nova visão estratégica para a CPLP, que deverá ser apresentada na próxima cimeira.

“Agora vamos ver quais serão os domínios com prioridade, será a vertente económica, a dimensão social, cultural… Tudo aponta para que será a dimensão económica”, afirmou a investigadora, sublinhando que nesse caso “o empenhamento dos Estados-membros noutras dimensões, como a política, também terá de acompanhar”.

A aposta da CPLP na vertente económica é a principal crítica do investigador Fernando Jorge Cardoso, do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.

Para este analista, o principal problema da organização lusófona é terem-se criado expetativas irreais, particularmente na sociedade civil e no tecido empresarial, de que a CPLP poderia levar a um aumento dos fluxos de relações comerciais, de investimento, de relações empresariais.

“A CPLP não pode ser, não tem condições nem vocação, nem existe motivação e realidade que permita que a CPLP seja uma comunidade de natureza económica”, disse à Lusa, recordando que cada um dos Estados-membros está integrado em comunidades regionais que têm agendas próprias, como a União Europeia ou o Mercosul.

Opinião contrária tem Feliciano Barreiras Duarte, docente universitário e autor de livros sobre a CPLP, para quem a comunidade “tem de ser uma organização muito vocacionada para as áreas económicas”.

“Essa é a grande mais-valia que a CPLP tem de ter nos próximos anos. Se assim não for, alguns dos países que fazem parte da CPLP acabarão por se desinteressar ainda mais dela. Porque fazem parte de outras organizações de caráter mais económico”, disse o ex-ministro e atual deputado do PSD.

Exemplificou com o potencial a nível energético: “As reservas que existem nos países da CPLP todos juntos são das maiores que o mundo tem”.

E lamentou que a organização tenha vindo a ser “prejudicada por alguns políticos, à esquerda e à direita”, que têm como objetivo “portugalizar a CPLP”.

“Acham que a CPLP tem de ser em 2016 o que era há 20 anos: Uma organização só da língua e, se possível, dos direitos humanos. Esse mundo já não existe”, afirmou Barreiras Duarte.

Para este político português, as sociedades civis dos Estados-membros da CPLP precisam de desenvolvimento económico e social: “Quanto mais forem desenvolvidas a nível económico e social, melhores condições terão para, dentro do seu ritmo de crescimento, terem Estados de direito robustos onde os direitos humanos são respeitados”. (OBSERVADOR)

por Lusa

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