Benguela sem “o pão nosso de cada dia”

(Foto: D.R.)

O Núcleo dos Industriais Panificadores e Pasteleiros de Benguela reuniu-se Quarta- feira, 20 de Julho, com entidades estatais afectas ao seu sector de produção, para encontrar soluções de reversão à subida desmedida do preço das matérias- primas para o fabrico de pão.

bolosGabriel Tchimungo, responsável do Núcleo dos Industriais Panificadores e Pasteleiros de Benguela, que congrega 24 padarias e instituída em Março de 2014, garante que uma das preocupações fundamentais dos membros da associação é o preço da farinha de trigo. Antes da crise, o preço do saco de 50 Kg variava de 4.800 a 5.200 kwanzas, porém neste momento nos armazéns é comercializado a 16 mil Kwanzas, mas não existe.

“Nas praças, as senhoras estão a comercializar a 26.000 kwanzas”, explicou o responsável, realçando que, fazendo uma análise comparativa, uma caixa de 10 Kg de fermento passou de 3.000 ou 4.000 para 28.000 kwanzas. A caixa com 9.6Kg de melhorante para pão, que rondava os 12.000, está a ser vendida a 60.000 kwanzas. Já 20 litros de óleo passaram de 2.500 para 18.000 kwanzas e, actualmente, no Lobito, apenas um armazém vende essa gordura vegetal.

Preocupado com o rumo que os empresários do ramo estão obrigados a seguir, o presidente do núcleo afirmou que “80% das padarias estão prestes a fechar se as coisas continuarem assim”. Uma situação que aumentaria a taxa de desemprego na província.

Em Benguela, o pão pequeno, de 80g, custa hoje entre 40 a 50 kwanzas. Aos valores supracitados, somando-se os custos de produção, em que o combústivel também está incluido, os panificadores defendem que, para conseguirem o retorno lucrativo de outrora, teriam que comercializar o pão a 100 kwanzas por unidade. Por esse motivo, a procura pelo produto tem vindo a cair, em contraste com o preço, que sobe em flecha.

Triste com o cenário, o cidadão Victorino José deplorou que “Angola, com capacidade para cultivar trigo, o saco de farinha custa 26.000 kwanzas?! O país está mesmo a mergulhar na água.” Aflito, o cidadão acrescentou que em sua casa o pão já não existe à mesa do pequeno-almoço. Um pouco por cada recanto, as pequenas pasteleiras que faziam bolos em casa para vender, têm perdido a sua fonte única ou alternativa de rendimento. A “Angoalissar”, tida como líder local no fornecimento de farinha, é acusada pelos fabricantes de pão

por supostamente praticar vendas desleais, preterindo os panificadores e preferindo os comerciantes do mercado informal, a quem vendem o produto mais caro. Segundo revelou o panificador Damião Francisco, quando os padeiros se dirigem à “Angoalissar”, dizem-lhes que não há farinha, contudo, alegadamente, o mercado informal é abastecido diariamente, entre às 5 horas e as 7 horas da manhã por camiões da referida empresa. Para Damião, “a fiscalização no nosso país não funciona.”

Maria da Graça, panificadora, incriminou os fornecedores dizendo que “quando entendem fecham a farinha nos seus armazéns para escassear. No dia seguinte, o preço já é outro.” Triste, a senhora lamenta que “para os nossos filhos, se não houver pão há fome em casa, mesmo que haja massa ou arroz. Por isso é que se diz o pão nosso de cada dia.”

O presidente da Câmara do Comércio e Indústria em Benguela, Carlos Vasconcelos, prometeu aos produtores de pão que vai reunirse com os importadores de farinha, para averiguar os canais de distribuição praticados, pois pensa que “80% dessa farinha deveria ser destinada aos panificadores e o restante aos estabelecimentos comerciais em geral.”

Elites” também estão a ser afectadas

paoEm tempos de crise está tudo mais caro, todavia, para o pão integral e os bolos, a produção é considerada excepcionalmente dispendiosa, pois os ingredientes necessários são variados e numerosos. Apesar de serem, por norma, considerados produtos destinados aos “abastados”, com a subida dos preços e a escassez de matéria-prima as vendas também emagreceram.

A farinha integral está cada vez mais rara, sendo que o saco de 25 Kg, antes comprado a 10.000 kwanzas, em Fevereiro, o único armazém no município de Benguela que comercializava esse tipo de farinha, praticava o preço de 25.000 kwanzas e acabou por encerrar as portas nesse mesmo mês. Para as padarias que também são pastelarias, os custos de fabrico dos bolos, que são mais elevados e o produto tem menos saída, são agora encaminhados à produção de pão, em busca de lucro maior e mais rápido possível.

A “Pastelaria Áurea do Lobito, Lda”, parece gozar ainda de sorte maior. De acordo com João Fernandes, gerente, “a demanda permanece constante”. “Nós é que diminuímos a produção para 60%, e não estamos a corresponder à procura”, explicou o gerente, admitindo que “bolos como “chila” e os que têm recheio de chantilly, bem como pães com frutas cristalizadas e cereais, deixaram de ser confeccionados devido à escassez dos ingredientes”. O gerente declarou ainda que, para assegurar o fabrico, têm fornecedores esporádicos que trazem ovos e margarina do Cunene e de Luanda. (opais)

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