A perigosa influência da ideologia do Estado Islâmico em indivíduos perturbados

(AFP)

A chacina na boate de Orlando, o massacre na cidade de Nice: esses atentados são reivindicados ou atribuídos ao Estado Islâmico, mas os perfis de seus executores ilustram a força da propaganda mortífera do grupo extremista sobre personalidades perturbadas e sem engajamento ideológico evidente.

Omar Mateen, um americano de origem afegã que matou 49 pessoas em 12 de Junho em uma boate gay na Florida antes de ser morto pela polícia, era violento, homofóbico, radical, e… Aparentemente um homossexual reprimido, segundo testemunhas.

Mohamed Lahouaiej Boulhel, um tunisino que atropelou e matou 84 pessoas com seu caminhão na noite de 14 de Julho em Nice, na Riviera Francesa, ainda é um mistério para os investigadores.

“Um indivíduo distante de quaisquer considerações religiosas, não praticante, comia carne de porco, consumia álcool, usava drogas e tinha uma vida sexual desenfreada”, mas que havia demonstrado “um interesse recente no movimento jihadista radical”, segundo afirmou o procurador de Paris.

O homem também era conhecido por seus acessos de violência, especialmente com sua esposa e filhos.

Em um artigo publicado nesta terça-feira pelo jornal francês Libération, o historiador Olivier Christin evoca esses “massacres que combinam crenças religiosas, hostilidade às intervenções internacionais na Síria e no Iraque, anti-semitismo, mas também frustrações pessoais, ódio de si mesmo e desejo de suicídio”.

“A causa do EI acolhe todo o tipo de raiva e frustração”, resume ele, que vê “uma ruptura radical na história do terrorismo religioso e político, que por muito tempo conferiu um lugar central às questões de organização e formulação doutrinária” .

‘Ideologia fanática e mortífera’

O grupo Estado Islâmico compreendeu a vantagem que poderia tirar de seus apelos incessantes para que seus partidários passem à acção contra os “infiéis”, disse recentemente à AFP o psicólogo Patrick Amoyel, que trabalha com o fenómeno da radicalização.

“Eles sabem que quanto mais espaço ocuparem na mídia, mais eles vão se fazer ouvir entre as populações mais sensíveis à radicalização ou pessoas psicopatas”, explicou.

“É esta ideologia fanática e mortífera que pode levar algumas pessoas a agir, sem ter que viajar à Síria e sem a necessidade de receber instruções específicas”, ressaltou na segunda-feira o procurador de Paris, referindo-se ao novo desafio representado por este novo “terrorismo local”.

A propaganda da organização extremista, que repercute ao infinito em vídeos postados na internet, encenando cuidadosamente cenas de decapitações, tortura, chamados repetidas ao assassinato é mais eficaz quando alcança “personalidades perturbadas ou indivíduos fascinados pela ultra-violência”, observa Molins.

“Aqueles que odeiam seus colegas ou desprezam os homossexuais em razão de suas próprias inseguranças podem revestir suas acções com a bandeira sangrenta do Estado Islâmico”, escreveu na revista Time William McCants, pesquisador do centro de reflexão Brookings Institution.

Contudo, continua sendo uma tarefa difícil separar crenças ideológicas e motivações pessoais e inconscientes, reconhece o pesquisador, citando assassinos “que não pertencem realmente ao EI, sem ligação orgânica com eles, mas que possuem como ponto em comum o assassinato”.

Segundo o especialista em psiquiatria francês Daniel Zagury, em casos de actos extremistas, os doentes mentais são pouco numerosos, cerca de 10% dos casos.

“Os demais são pequenos delinquentes, que tiveram uma primeira vida de drogas, tráfico, etc, e que se agarram a uma segunda vida que apaga a primeira no Islão radical; e aqueles que representam o maior perigo, os sujeitos estritamente normais que passaram por um engajamento ideológico sem passado criminoso, eventualmente com estudos, muito determinados”. (AFP)

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