Presidente do Deutsche Bank diz que capital para bancos portugueses virá sobretudo de Espanha ou PALOP

(Foto; D.R.)

O presidente do Deutsche Bank Portugal disse que a baixa rentabilidade dos bancos portugueses dificulta a atracção de capital, quando é tão necessário, e que esse virá sobretudo de países com interesses estratégicos, como Espanha ou Angola.

Bernardo Meyrelles de Souto fez hoje uma intervenção sobre o sector financeiro no almoço-debate organizado hoje pelo International Club of Portugal, em Lisboa, tendo explicado os desafios com que se defrontam os bancos, sobretudo os portugueses, numa altura em que precisam de atrair capital estrangeiro para se reforçarem.

No entanto, disse, há muitos factores que penalizam os resultados dos bancos, afastando os investidores, que vêem neste sector muitos riscos e pouco retorno.

“A actual pressão na rentabilidade reduz muito os potenciais interessados em tomar parte do capital de bancos em Portugal. Ficamos muito confinados a quem possa ter em Portugal uma visão estratégica, sobretudo [investidores] espanhóis e das ex-colónias”, afirmou o gestor bancário.

Um dos problemas do sector bancário em que o presidente do Deutsche Bank  mais se focou foi nas baixas taxas de juro, algumas que negoceiam mesmo em terreno negativo, considerando que isso é “como que um cancro para o sistema financeiro”, uma vez que com esses níveis de taxas de juro tão baixas se está a “eliminar 60% do que eram as receitas do sistema financeiro”.

O gestor referia-se à margem financeira, ou seja, à diferença entre o custo cobrado pelos bancos nos empréstimos e a remuneração nos depósitos.

Quanto aos outros 40% de receitas dos bancos, Meyrelles de Souto lembrou que tradicionalmente vêm de operações financeiras nos mercados e que, com os investidores mais receosos, também essa parte está a ser penalizada.

Ao mesmo tempo, acrescentou, nos últimos anos adensaram-se as exigências regulatórias, com custos “brutais” para os bancos, a que se somam as provisões que tiveram de ser feitas.

“Menos receitas, mais provisões, mais custos. O resultado só pode ser uma enorme diminuição de resultados”, afirmou.

É este cenário de bancos pouco rentáveis, diz o gestor, que faz com que “os investidores não estejam estão interessados em tomar posições de capital [significativas] na banca”, isto quando “o regulador e supervisor quer precisamente que os bancos vão buscar mais capital”.

Meyrelles de Souto pediu ao nível político que tenha atenção ao sistema bancário e impeçam que seja mais penalizado, quando é tão necessário à economia, mas considerou também que é difícil isso vir a acontecer porque a “banca é um alvo fácil”.

Bernardo Meyrelles de Souto defendeu ainda que, no futuro, irá haver um reposicionamento dos bancos em três eixos: geografia, escolhendo se querem ser globais, regionais ou locais; se querem ser bancos universais ou trabalhar com monoproduto; e se querem trabalhar com todos os clientes ou apostar em segmentos.

“Vai ser cada vez mais difícil, até pelas exigências de capital, um banco ser tudo como até hoje. Têm de seleccionar muito mais onde querem estar e como”, antecipou.

O Deutsche Bank Portugal é uma sucursal do banco alemão, tendo cerca de 400 trabalhadores no mercado português. Em 2015, gerou lucros de cerca de 15 milhões de euros, disse hoje o seu presidente.

Ainda nesta intervenção, o presidente da sucursal em Portugal do banco alemão reiterou por diversas vezes a necessidade de Portugal “fazer todos os esforços” para atrair capital externo, defendendo que qualquer Governo – seja de que partido for – devia ter como prioridade isso e favorecer fiscal e administrativamente esse dinheiro estrangeiro.

“A melhor forma de ter uma agenda de crescimento e social é atrair capital, porque este país não tem”, disse.

Questionado pelos jornalistas, à margem da intervenção, sobre aqueles que consideram que é negativo uma banca dominada por capital estrangeiro, até porque está a recolher poupança dos portugueses que poderá não se canalizar em favor dos interesses da economia portuguesa, Meyrelles de Souto não concordou com essa visão e disse que no caso do Deutche Bank o rácio de transformação de depósitos em crédito é de 180%, pelo que empresta mais do que recebe de aforradores.

O gestor não deu ainda importância ao facto de decisões de crédito, no caso de bancos estrangeiros, não serem tomadas em Portugal, defendendo que o que não pode acontecer é serem financiados projectos que não sejam capazes de amortizar o empréstimo recebido.

Já sobre o aumento e alargamento da Contribuição sobre o Sector Bancário, que impõe desde 01 de Janeiro a cobrança do imposto a todos os bancos que operam em Portugal e, não apenas, aos sediados no país, o que irá abranger instituições como o Deutsche Bank, Bernardo Meyrelles de Souto disse que o seu banco ainda está a estudar o assunto, mas que a sucursal já paga uma taxa semelhante na Alemanha.

“Nós, neste momento, contribuímos para sistema alemão e uma instituição não pode estar a contribuir para dois sistemas, isso é a lei europeia”, afirmou.

O agravamento desta contribuição, lançada em 2011 pelo Governo de José Sócrates, foi feita este ano, tendo o Executivo o objectivo de conseguir mais 50 milhões de euros em receita.(jornadenegocios)

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