Por que o Reino Unido deu bye-bye à União Europeia

(DR)

Para entender a situação presente e futura:

“O primeiro-ministro David Cameron, que liderou a campanha derrotada para convencer os votantes a permanecerem na UE, disse publicamente que a saída não acontecerá imediatamente, e que pretende renunciar dentro de três meses e deixar para o sucessor a decisão de “disparar o artigo 50″ do tratado que criou a UE, Tratado de Lisboa, e que determina que qualquer estado-membro tem dois anos, depois de declarado o desejo de desligar-se, para negociar os termos da saída” (“British Exit From EU Not Inevitable, Despite Referendum” [Saída dos britânicos da UE não é inevitável, apesar do plebiscito], Robert Mackey, The Intercept, 24/6/2016. Epígrafe aqui acrescentada pelos tradutores).

Então, o que começou como chantagem feita por David Cameron e válvula de escape para o descontentamento dos britânicos, a ser usado como alavanca para negociar com Bruxelas e arrancar mais alguns favores, entrou em metástase e se converteu em um espantoso terramoto político que tem tudo a ver com uma desintegração da União Europeia.

Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, fazendo pose de “historiador”, alertou que Brexit “pode ser o começo da destruição não só da União Europeia, mas da civilização política ocidental na sua totalidade.”

O Brexit provou que o problema era a imigração e a economia (embora o establishment britânico neoliberal jamais tenha dado atenção). Mas pode-se apostar em dinheiro sério em que o sistema da União Europeia em Bruxelas nada aprenderá dessa terapia de choque – e não se auto-reformará. Haverá racionalizações de que afinal de contas o Reino Unido classicamente sempre reclamou demais, sempre se opunha a tudo e vivia exigindo privilégios extras nas negociações com a UE. Quanto à “civilização política ocidental”, o que acabará – e, sim, é grande evento – é o relacionamento transatlântico especial entre EUA e UE com a Grã-Bretanha lá enfiada como um Cavalo de Tróia dos norte-americanos.

Assim sendo, é claro que tudo vai monumental-mente além de uma simples disputa entre um Cameron inapelavel, incapaz de cálculo estratégico que preste, que agora caiu sobre a própria espada, e o temerariamente ambicioso bobo da corte Boris Johnson – um Donald Trump com melhore vocabulário e hábitos discursivos.

Como seria de prever, a Escócia votou “Fica” [ing. Remain] e pode fazer outro referendo – e separar-se do Reino Unido – antes de se deixar expulsar pelos votos dos trabalhadores ingleses brancos. O Sinn Fein já quer ter voto na Irlanda unida. Dinamarca, Holanda e até Polónia e Hungria quererão status especial dentro da União Europeia, porque senão… Por toda a Europa a direita movimenta-se. Marine Le Pen quer um referendo francês. Geert Wilders quer um referendo holandês. Quanto à vasta maioria dos britânicos com menos de 25 anos, que votaram “Fica”, talvez considerem viagem só de ida, não para o continente, mas ainda mais adiante.

Mostre-me o povo

O historiador anglo-francês Robert Tombs observou que, quando europeus falam sobre história, referem-se ao Império Romano, à Renascença e ao Século das Luzes. Passam pela Grã-Bretanha como se nem existisse, de certo modo. Em troca, há britânicos que ainda vêem a Europa como entidade da qual se deve guardar distância segura.

Acrescente-se ao problema que não se trata de uma “Europa de povos”. Bruxelas absolutamente detesta a opinião pública europeia, e o sistema mostra resistência férrea a qualquer reforma. Nesse projecto actual de União Europeia, que visa afinal ser uma federação modelada segundo os EUA, a Grã-Bretanha não se encaixa. Pode-se dizer que aí está uma das razões chaves por trás do Brexit – que por sua vez já desuniu o reino e pode eventualmente reduzi-lo a pequeno entreposto comercial na beirada da Europa.

Sem “povo europeu”, o sistema de Bruxelas só conseguiu articular-se como uma burocracia kafkiana, não eleita. Além do mais, os representantes dessa Europa sem povo em Bruxelas realmente defendem o que consideram que seja o interesse nacional deles, não o interesse ‘europeu’.

Mas Brexit não significa que a Grã-Bretanha ficará livre do que dite a Comissão Europeia (CE). A CE sim, propõe a política, mas nada pode seguir adiante sem decisões do Parlamento Europeu e do Conselho de Ministros, que reúnem representantes de todos os governos eleitos dos estados membros.

Pode-se argumentar que um “Fica”, no melhor dos casos, teria levado a algum exame de consciência em Bruxelas, e a um sinal de alerta, que talvez se traduzisse em política monetária mais flexível; em impulso para conter os imigrantes atrás das fronteiras africanas; e mais abertura em direcção à Rússia. O Reino Unido permaneceria numa Europa que daria mais peso a países fora da euro-zona, e a Alemanha concentrar-se-ia nas 19 nações membros da euro-zona.

O “Fica” teria levado a Grã-Bretanha a aumentar o próprio peso político económico em Bruxelas, e a Alemanha se abriria mais para algum crescimento moderado (em vez da ‘austeridade’). Mesmo que sempre se pudesse argumentar que a Grã-Bretanha rejeitaria a noção de um futuro ministro do Tesouro da euro-zona, de um FBI europeu e de um ministro europeu do Interior – de fato, toda a noção de uma completa união monetária e económica.

Já são águas passadas. Além do mais, não se pode esquecer o poderoso drama do mercado único.

A Grã-Bretanha não perderá apenas o livre acesso ao mercado único europeu de 500 milhões de pessoas; terá de renegociar todos e cada um dos tratados comerciais com o resto do mundo, uma vez que todos eles foram negociados pela/na União Europeia. O ministro da Economia da França e aspirante à presidência Emmanuel Macron já alertou que “se a Grã-Bretanha quer um tratado de acesso comercial ao mercado europeu, os britânicos têm de contribuir para o orçamento europeu, como fazem noruegueses e suíços. Se London não concorda com isso, nesse caso tem de ser saída total.” A Grã-Bretanha ficará excluída do mercado único – para o qual vão mais de 50% de suas exportações –, a menos que pague quase tudo que paga actualmente. Além disso e sobretudo, Londres terá ainda assim de aceitar a liberdade de movimentos, tipo imigração europeia.

A City ganhou um olho roxo

Brexit derrotou conjunto espantoso do que Zygmunt Bauman definiu como as elites globais da modernidade líquida: a City de Londres, o FMI, Wall Street, o Fed, o Banco Central Europeu [ing. European Central Bank (ECB)], grandes fundos de hedge/investimentos, todo o sistema interconectado do banking global.

Mais de 75% da City de Londres, como era de prever, votou “Fica”. Espantosos $2,7 triliões são negociados todos os dias na “milha quadrada”, que emprega quase 400 mil pessoas. E não é só a milha quadrada, porque a City agora inclui também Canary Wharf (quartel-general de vários grandes bancos) e Mayfair (local privilegiado de convivência dos fundos hedge).

A City de Londres – indiscutível capital financeira da Europa – também administra espantoso $1,65 triliões de fundos de clientes, riqueza, literalmente, de todos os cantos do planeta. Em Treasure Islands, Nicholas Shaxson diz que “empresas de serviços financeiros voaram em bandos para Londres, porque Londres as deixa fazer o que não podem fazer em casa.”

Desregulação sem limites combinada a influência sem igual sobre o sistema económico global é mistura tóxica. Nessa direcção, Brexit pode também ser interpretada como um voto contra a corrupção que invadiu a mais lucrativa indústria da Inglaterra.

As coisas mudarão. Dramaticamente. Não haverá mais “passporting” [“Passporting significa que um banco britânico pode prover serviços em toda a UE, a partir de sua sede na Grã-Bretanha. Importante, também significa que um banco suíço ou norte-americano pode fazer a mesma coisa de uma filial ou subsidiária estabelecida na Grã-Bretanha, pela qual os bancos podem vender produtos a todos os 28 membros da UE, com acesso, assim, a uma economia integrada de $19 triliões” (de Dlapiper, NTs)]. Basta ter quartel-general em Londres e alguns mini-escritórios satélites. Passporting entrará em fase de negociação feroz, assim como o que acontece nos pregões denominados em euro, de Londres.

Acompanhei o Brexit aqui de Hong Kong – a qual, há 19 anos, teve seu próprio Brexit, quando realmente deu bye bye ao Império Britânico para ligar-se à China. Pequim está preocupada, temendo que Brexit venha a se traduzir em fuga de capitais, “pressões de depreciação” sobre o yuan, e perturbações sobre a gestão da política monetária do Banco da China.

Brexit pode até afectar seriamente as relações China-UE, porque Pequim, em tese, pode vir a perder influência em Bruxelas, sem o apoio britânico. É crucial não esquecer que a Grã-Bretanha apoiou um pacto de investimento entre China e UE e um estudo conjunto da viabilidade de um acordo de livre comércio China-UE.

He Weiwen, co-director do Centro de Estudos China-EUAUE, sob a Associação Chinesa de Comércio Internacional, parte do Ministério do Comércio, disse claramente: “A União Europeia provavelmente adoptará abordagem mais proteccionista nos negócios com a China. Quanto a empresas chinesas que instalaram quartéis-generais ou filiais na Grã-Bretanha, é possível que já não gozem de acesso sem tarifas ao marcado europeu em geral, depois que a Grã-Bretanha deixar a União Europeia.”

Isso se aplica, por exemplo, às grandes chinesas de alta tecnologia, como Huawei e Tencent. Entre 2000 e 2015, a Grã-Bretanha era principal destino de investimento chinês directo, e o segundo maior parceiro comercial da China dentro da UE.

Mas também pode acabar por reverter em ganha-ganha para a China. Alemanha, França e Luxemburgo – todos competindo com Londres pelos sumarentos negócios offshore em yuan – aumentarão seu papel. Chen Long, economista do Banco de Dongguan, está confiante de que “o continente europeu, especialmente países da Europa Central e Oriental, se envolverão mais activamente nos programas chineses de “Um Cinturão, Uma Estrada” [também chamados “Novas Rotas da Seda” (NTs)].

A Grã-Bretanha, assim, viraria a nova Noruega? É possível. A Noruega deu-se muito bem depois de rejeitar a inclusão na União Europeia, em referendo de 1995. Será estrada longa e sinuosa, antes de o Artigo 50 ser invocado e lançar-se uma negociação de dois anos entre Reino Unido e União Europeia sobre território ainda não mapeado. Alistair Darling, ex-chanceler britânico do Exchequer, resumiu tudo: “Ninguém tem ideia do que signifique ‘Fora’.” (Oriente Midia)

por Pepe Escobar*/Sputnik

*Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. (Oriente Midia)

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