Empreendedorismo: Parece que não basta querer ser…

AGOSTINHO CHITATA Director do Jornal Economia & Finanças (Foto: D.R.)

Claramente, mais do que nunca a percepção é de que em questão de negócios parece que tudo vale. As empresas e as famílias, nós, individualmente, precisamos de ganhar dinheiro para nos mantermos vivos.

As empresas não querem ir à falência e tornam-se, pelo facto, cada vez mais exigentes para com os funcionários. A produtividade e a eficiência laborais geram rendimentos. E é desta renda que se suprem as dificuldades e que se mantém toda a máquina a funcionar.

A crise parece ter despertado o interesse das pessoas para as coisas boas da vida e a vida não tem de melhor se não o trabalho. Este cria receitas e das receitas fazem-se os salários. A lógica da vida parece ser isto mesmo: ganhar e ganhar e construir a felicidade.

Como diz o provérbio, “O dinheiro não traz felicidade mas ajuda a sofrer em Paris”. Obviamente que o dinheiro tem de ser ganho com dignidade, com trabalho e não por via de métodos perversos. O provérbio fala de Paris mas poderia ser Luanda.

Falando da capital angolana, hoje por hoje, não que era diferente, mas percebe-se a compenetração das pessoas ao trabalho, para a importância de ganhar a vida. Parcece existir mais criatividade, mais entrega à coisa mais bela da vida: o trabalho.

Hoje por hoje, a questão que domina a vida começa a ser o empreendedorismo. Liga-se a Tv e confronta-se com vários assuntos à volta do empreendedorismo, as rádios e os jornais idem. Os conselhos são múltiplos. “Seja empreendedor. Venda algo. É de pequeno que se vai longe!”. Enfim, uma infinidade de pareceres.

Mas bastam os incentivos para lá se chegar? Há quem defenda que não, justificando que a componente vocação é determinante. Entre nós, quantos estão vocacionados? Disse em tempo alguém e referindo-se a uma outra pessoa, a fulana “tem um faro tal para negócio que só de olhar para um campo com capim transforma-o em dinheiro”. A ser verdade, isto é vocação, inclinação, criatividade e sentido de oportunidade tornado material.

Quantos conseguem?, eis a questão. Também existem aqueles que vão à Tv e às rádios “desincentivar” o empreendedorismo. Se calhar são os mais cépticos ou realistas. Argumentam que nem todo o mundo foi feito para criar negócios e ganhar dinheiro. Uns teimosamente tentam e, obviamente, se dão mal.

Aproveitamos para contar a história de alguém que terá desistido ao desafio de tornar-se empreendedor/empresário. Foi ao Guiché Único do Empreendedor. No exercício de trata papelada aqui, deixa dinheiro acolá, reconhece isto ou aquilo, lá constituiu a sua empresa. A ideia era montar um pequeno negócio.

Mas acabou por se dar mal. Foi enquadrado no grupo A, quando deveria ser no B. Um erro, no caso. A quem imputar? Neste imbróglio, decidiu fazer a alteração do grupo e suspender o NIF. Foi tributado. Mais de 20 mil kwanzas. O desfecho, ou o despacho, foi de cessação da actividade, posição contrária à causa do pedido.

Como se pode ver deste exemplo, este cidadão, motivado pelo desafio do empreendedorismo, acabou desiludido. Teve de pagar, de ser tributado, para se afastar de qualquer consequência resultante de eventual incumprimentos ou mora solvendi. O desejo morreu à nascenca.

Se calhar, volta a insistir, se calhar, não. Como ironizam muitos, quem sabe!, “através da crise” volte a arregaçar as mangas e retornar à rota empreendedora. O sucesso tem destas coisas. Quando resolve falhar, falha. Sem apelo, nem agravo.E em matéria de negócios, o insucesso repugna.

Obviamente, há quem mesmo se dê bem e nesta altura de crise acaba por se manter na (sua) zona de conforto. Há a história de quem começa por vender pastilhas e chega a viaturas.

Há quem começa em viaturas e depois nem dinheiro para uma pastilha tem. São várias as cores e tons que se encanastram na rota do empreendedorismo. Entretanto, esta do músico, “angolano inventa, é a fome”, remete-nos a uma outra situação curiosa.

Ultimamente, nas primeiras horas da manhã, provavelmente terá mesmo começado na rotunda do Calemba 2 (Luanda), cruzam na extensão da via “cavalheiros e cavalheiras”, como dizia a Professora Maria do Carmo Medina, a servirem café quentinho aos apreciadores. O equipamento é adequado à venda na rua.

Mas o negócio parece rentável porque já se nota na Baixa luandense. A capital cresceu. Deixa-se muito cedo a casa. Com sono ainda. Alguém, empreendedor, terá pensado: “Que tal um ‘cafeteiro ambulante’ para afugentar o sono” dos automobilistas e viandantes? Alguém, com certeza, organizou um grupo de jovens, gerou ocupação e, ao fim da manhã, conta dinheiro.

A nossa matéria de capa, como pode constatar é sobre os citrinos. Ancorado ao tema semanal do JE, sugerimos esta frase sobre o empreendedorismo de Bill Gates: “O bom empreendedor não faz do limão uma limonada, e sim, uma grande plantação de limoeiros”. Ou, como defende Tony Hsieh, “Corra atrás da visão, não do dinheiro. O dinheiro será uma consequência”. Diria o outro, “Isto é Matemática”. Diriamos nós: “Isto é luta pela sobrevivência”. Ou vamos definir como empreendedorismo? Se calhar… (jornaldeeconomia)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA