Para americano, virada conservadora de Temer reduz apoio ao impeachment

James N. Green, da Brown University, é especializado na história do Brasil. (Arquivo pessoal/ Facebook)

Seguem a todo o vapor as negociações políticas para a apreciação definitiva dos senadores sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Neste período intermediário, o presidente interino, Michel Temer, corre contra o tempo para provar que pode governar melhor do que a antecessora. A RFI convida o professor James N. Green, historiador especializado em Brasil na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, para comentar a situação no país.

Ele avalia que, na medida em que as investigações contra a corrupção avançam, mais nomes do governo Temer poderão cair, e considera que a virada conservadora do peemedebista tem feito muitos brasileiros mudar de opinião sobre o impeachment.

Crítico à postura americana durante a atual crise no Brasil, Brown considera que os Estados Unidos “estão, mais uma vez, endossando um golpe” no país. O professor ainda se mostrou surpreso com o silêncio do governo brasileiro sobre o ataque contra uma boate gay, ocorrido em Orlando, no fim de semana. “É muito infeliz que o governo brasileiro não tenha sabido reconhecer esse fenômeno como um atentado que representa a homofobia”, analisa. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

RFI: A administração de Michel Temer completou um mês. Que balanço o senhor faz do governo?
James N. Green: O governo de Michel Temer se mostra muito fraco. Ele é um governo que, desde o primeiro momento, não mostrou uma identificação com o povo, com um grupo de ministros brancos e masculinos e uma insensibilidade das vontades populares. Neste sentido, vejo uma fraqueza na sua administração, no primeiro mês.

Nestas primeiras semanas, uma série de escândalos abalaram o governo, dois ministros caíram. O senhor acha que, se o impeachment passar, Temer terá sustentação para governar até as próximas eleições, a princípio em 2018?
É difícil imaginar que, caso o impeachment passe, Temer vá conseguir manter um apoio popular e manter o seu governo durante dois anos, em parte porque tantos dos seus ministros estão envolvidos em acusações de corrupção. Eu acho que é só uma questão de tempo até outros caírem também.

Também vimos nomes do governo Temer e caciques do PMDB se articulando para frear a operação Lava Jato. O combate à corrupção está ameaçado?
Eu acho que a campanha e a tentativa de combater a corrupção estão totalmente ameaçadas, porque o PMDB parece estar totalmente envolvido em vários esquemas de repasses de dinheiro da Petrobras para políticos. Está bastante evidente que tanto Temer quanto seus grandes apoiadores, pessoas que ele indicou para os ministérios mais importantes, estão fazendo de tudo para frear a operação Lava Jato. Isso ficou evidente com as gravações do Romero Jucá, que revelou uma intenção direta de usar o impeachment para desviar a atenção popular para que a Lava Jato não dê certo.

O governo foi criticado por não ter mulheres, não ter negros, ter fechado o Ministério da Cultura. É uma virada conservadora maior do que se esperava?
O governo Temer, ao compor o seu governo interino, sem nenhuma mulher, nenhum negro ou negra, representa, definitivamente, uma onda conservadora no país, em que o governo vai se preocupar mais em favorecer setores econômicos e sociais que, nos últimos anos, foram desfavorecidos pelos governos de Lula e Dilma. Fica evidente que Temer não tem noção da importância simbólica de ter mulheres, negros e negras no governo, quando ele fez essas indicações. É uma insensibilidade total à realidade brasileira, uma vez que as mulheres são a maioria da população e as pessoas afrodescendentes, ou não-brancas, também são a maioria da população. Realmente, estamos vivendo uma onda conservadora no país muito maior do que todo mundo esperava.

Uma pesquisa recente indicou que 62% dos brasileiros aprovam a saída da presidente Dilma Rousseff. Por mais controverso que tenha sido o processo, a aprovação popular referenda o impeachment?
Para mim, muitas pesquisas refletem um momento, uma consciência imediata das pessoas. Então, se é verdade que, neste momento, 62% das pessoas aprovam a saída da presidenta Dilma Rousseff do governo, isso reflete, em parte, os problemas econômicos e as campanhas que a mídia está fazendo para desacreditar a presidenta aos olhos da população. Há um descontentamento muito grande. Mas isso não quer dizer que o procedimento de impeachment seja correto e nem que a população tenha uma clareza total sobre a situação. A mídia está, realmente, criando um clima muito negativo para a presidenta, distorcendo a realidade, as notícias. Portanto, sim, neste momento a maioria da população está a favor – mas, muitas vezes, a maioria da população apoia uma coisa que está incorreta. Eu conheço muitas pessoas que estavam contra o governo Dilma e a favor da ideia do impeachment, mas ficaram surpreendidas com as medidas de Temer, e agora estão questionando a ideia do impeachment, favorecendo uma votação contrária à saída definitiva de Dilma. As pessoas ficaram muito chocadas quando houve a votação na Câmara dos Deputados, pela violência dos discursos das pessoas querendo derrubar o governo, além de demonstrarem uma imaturidade e pouco interesse nas questões importantes do dia.

Quais as chances de a presidente Dilma Rousseff reverter o impeachment? Qual a sua avaliação sobre a postura e a articulação política da presidente durante este período de afastamento?
Eu acho que ainda é muito cedo para saber se ela vai conseguir reverter o impeachment. Faltam as defesas, o debate na mídia, na opinião pública. Há a possibilidade de novas revelações, que podem reverter essa situação. Vários senadores parecem assustados com o novo governo e estão repensando a sua votação. Outros senadores sentiram a necessidade de votar a favor do procedimento, mas não necessariamente a favor do impeachment. Portanto, eu acho que a situação pode ser revertida. A presidente tem mostrado uma atitude muito sensata, na minha opinião. Ela está muito calma, conversando com as pessoas e tentando explicar a situação para o público e mobilizando a opinião pública ao seu favor.

O senhor criticou a posição dos Estados Unidos nessa crise no Brasil e disse que o governo americano corre o risco de repetir o erro de 1964, quando ficou ao lado da ditadura militar. Que postura o senhor esperaria da gestão Obama?
Eu achei muito infeliz o governo americano, através do embaixador interino na OEA, ter dito que o processo de impeachment tem sido democraticamente implementado. Em 1964, o presidente Johnson reconheceu o governo interino de 2 de abril. O presidente João Goulart ainda estava no país, não havia abandonado a presidência, apesar de o Congresso declarar que sim. Ou seja, os americanos endossaram o golpe militar, como parece que o governo de Obama está endossando esse novo golpe que está acontecendo no Brasil, neste momento. Infelizmente, isso prejudica as possibilidades para um retorno à democracia, reforça as manobras das forças pró-impeachment e vai criar uma situação em que, mais uma vez, os americanos vão ser vistos como pessoas que não apoiam a democracia, e sim forças anti-democráticas. Eu acho que seria melhor o governo ficar silencioso do que se declarar a favor do processo do impeachment. Isso pode influenciar as pessoas e é como se estivesse dando sinal verde para a oposição se fortalecer contra Dilma.

O senhor também é um reconhecido estudioso da homofobia, e nós conversamos logo depois do atentado em Orlando, contra uma boate gay. No Brasil, o ataque também gerou polêmicas políticas, desta vez sobre a homofobia. Como o senhor vê essa grande polarização encontrada no Brasil também em temas humanos, que ultrapassam a política e a economia, que são o foco da crise?
Uma das coisas que mais me chamaram a atenção, quando li os jornais brasileiros depois do ataque, foi o fato de que o governo brasileiro não fez uma declaração sobre o fato de que o atentado em Orlando, Flórida, foi um atentado que representa a homofobia. Essa violência só pode ser explicada desta maneira, e é muito infeliz que o governo brasileiro não tenha sabido reconhecer esse fenômeno.

É a primeira vez que o terrorismo internacional visa os homossexuais?
Infelizmente, para mim esse atentado reflete uma polarização cultural e social que existe nos Estados Unidos. É uma reação de setores do Partido Republicano e setores que apoiam o Partido Republicano contra os avanços LGBT nos Estados Unidos ao longo dos anos. Reforça a noção do ódio, de intolerância, do direito a atacar gays, lésbicas e transexuais nos Estados Unidos. Infelizmente, tantos setores da política norte-americana, tanto quanto brasileiros, não querem enfrentar a realidade da homofobia, não querem lutar contra esse tipo de discriminação e marginalização e, pelo contrário, eles querem aprovar medidas que vão incentivar a intolerância sobre a sexualidade. Isso é muito preocupante, para mim.  (RFI)

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