Oliveira Gonçalves:”Depois de 2006 avisei que só teríamos condições de volta ao mundial em 2026”

Oliveira Gonçalves, o timoneiro que levou o futebol angolano nas lides planetárias. (Foto: D.R.)

Antigo seleccionador nacional de futebol em honras e actual vice-presidente do Santos Futebol Clube de Angola, Luís de Oliveira Gonçalves afirma, em entrevista exclusiva a O PAÍS, que está pronto para liderar um projecto que vise levar Angola ao mundial de futebol em 2026. O técnico revela que avisou Justino Fernandes e pares que Angola não tinha condições para estar no mundial de 2010, só em 2026.

Para o seu eventual regresso aos Palancas Negras, Oliveira Gonçalves diz que só estaria disponível se houvesse um projecto consistente e inteira liberdade para trabalhar. Acompanhe a entrevista do único técnico que qualificou os Palancas Negras para um mundial de futebol.

gonsalvesLuís de Oliveira Gonçalves já foi seleccionador nacional e agora é vice-presidente do Santos Futebol Clube de Angola, como está o projecto Santos?

O projecto vai bem. E digo vai bem porque estamos a trabalhar para reaparecermos dentro de quatro anos com uma equipa sénior de futebol. Agora estamos apostados na criação de infra-estruturas, que era um dos nossos principais problemas, pois o Santos de Angola nunca teve campo próprio para treinos. Neste momento estamos a construir os campos e o centro de estágio.

Aonde concretamente?

No distrito do Zango, município de Viana, onde estamos igualmente a construir um centro de formação para os jovens. Essas condições que estamos a criar vão permitir o reaparecimento do Santos de forma sustentada. Por outro lado, o presidente do clube está a criar condições financeiras que nos permitam viver de forma desafogada. Na última Assembleia-Geral do clube, definimos o ano 2020 para o regresso ao Girabola. Portanto, este ano temos uma equipa de juvenis, no próximo ano arrancamos com uma equipa de juniores e em 2018 começamos com a equipa sénior no provincial de Luanda.

Recentemente havia reclamações de jogadores da extinta equipa de seniores porque faltavam pagamentos. Como ficou a situação?

Felizmente não temos dívida nenhuma. Saldamos todas as dívidas com os atletas no ano passado. Aqueles que tinham de receber viaturas, casa e dinheiro viram esses compromissos honrados. Neste momento estamos a pagar dívidas com terceiros, fundamentalmente os nossos fornecedores. O nosso objectivo é entrar em 2017 sem dívidas. Mais de 80% da dívida foi liquidada.

Falemos agora do futebol nacional. Há cada vez mais jovens na faixa dos 18 aos 23 anos a jogarem no Girabola, o que isso pode representar para as equipas e, consequentemente, para o futebol nacional no futuro?

luisHá de facto muitos jovens no Girabola e é bom. Mas devo dizer que no passado já tivemos mais. Lembro- me que havia jovens com 17 anos e já estavam na primeira divisão, isso em 1992, quando fomos pela primeira vez aos jogos da CPLP, em Portugal. Desta selecção saíram muitos jovens que foram representar as suas equipas seniores. Este facto concorreu para o sucesso que tivemos, começando pela participação no CAN- 1997, no Botswana, em sub-17. Em 1999, no Gana, em sub-20; e em 2001 estivemos na Etiópia, onde vencemos o CAN. No mesmo ano participamos no primeiro mundial para o futebol nacional, na Argentina, com os sub-20. E em 2006 apuramos os seniores para o mundial.

Portanto, o facto de muitos jovens estarem a jogar nas suas equipas principais deu-lhes rodagem competitiva que culminou com o sucesso. Daí para cá houve uma redução do número de jovens que militam na primeira divisão e têm idade para jogar nos sub-17. Agora temos por aí 30 ou pouco mais com idade de sub-20, é bom, mas precisamos de mais. Importa referir que muitos jovens têm lugar nas suas equipas porque temos menos estrangeiros no Girabola. Desse ponto de vista a conjuntura económica jogou a favor do futebol nacional.

Mesmo que não joguem, é importante que estejam na equipa sénior, pois a qualidade dos treinos é maior. É importante que as equipas trabalhem muito na formação. E em África, por onde andei, durante os 17 anos que estive nas selecções nacionais, as equipas de futebol estão sempre a realizar jogos através de competições quadrangulares não inscritas na CAF. Além disso, vão muitas vezes à Europa a fim de realizar amistosos. Nós também podemos fazer isso, desde que estejamos bem organizados.

É fundamental para juntar o grupo e aumentar resistência competitiva…

Exactamente! É sobretudo importante a nível de selecções, pois os jovens têm tido paragens muito longas. Felizmente agora os sub 20 conseguiram jogar. O mesmo tem de acontecer aos sub 17. Há provas na Cosafa que, no passado, não perdíamos nenhuma delas. Não havia os jogos da SADC e nós tirávamos o maior proveito dos jogos da Taça Cosafa. Aliás, foi através desta competição que demos rodagem competitiva ao Manucho Gonçalves, antes de integrar a selecção principal. Portanto, essas paragens têm prejudicado o futebol. É preciso igualmente fazer-se um bom trabalho na base.

O 1º de Agosto já tem feito este trabalho…

É um trabalho excelente o que o 1º de Agosto está a fazer. Com técnicos nacionais ou estrangeiros, é importante que o trabalho seja feito com pessoas bem preparadas para que os jovens depois não tenham uma formação deficiente. Importa referir que, além do 1º de Agosto, o Petro de Luanda e o Interclube têm trabalhado bem na formação de talentos para o futebol. No Interclube está o professor Vecelin Vesco, um técnico muito competente com quem trabalhei e aprendi muito. É um parceiro do futebol angolano.

A Academia de Futebol de Angola (AFA) e o jovem Chando Rasgado têm feito igualmente um trabalho assinalável. Aliás, já existem jogadores da AFA nas selecções jovens. Há outras pessoas anónimas a fazerem um trabalho assinalável. Precisamos agora de filtrar e dar contacto internacional aos jogadores. É preciso igualmente juntarmos os jovens, de forma periódica, mesmo sem competição. Deste modo, daríamos experiência aos jogadores para que quando chegasse a competição não fossem eliminados logo na primeira fase.

O regresso às selecções nacionais também deve ser uma prioridade?

Tínhamos um projecto nesse sentido. Estávamos a constituir as direcções técnicas, começando por Cabinda, Benguela e Namibe. Eram três direcções técnicas que, na ausência de apoio dos governos provinciais, era a Federação de Futebol que suportava alguns custos. Nesse projecto que concebemos e que está na federação, com certeza, o nosso plano era trabalhar, numa primeira fase com selecções jovens e realizar torneios inter-provinciais, para que o jogador quando chegasse à selecção nacional tivesse já alguma experiência.

É preciso que alguém faça um trabalho de apoio ao seleccionador, pois ele não pode fazer tudo. No passado trabalhámos assim. Contámos inclusive com o apoio de amigos que nos indicavam nomes e vinham jogadores doutras províncias para a selecção nacional. Precisamos de trabalhar jogadores que possam dar outra qualidade ao nosso campeonato, mas ele tem evoluído de ano para ano. O que queremos é que as nossas equipas se organizem e planifiquem as suas actividades de maneira a representarem de forma condigna o nosso país nas competições organizadas pela CAF, passando das eliminatórias para as fases de grupo. Isso vai permitir que os nossos jogadores tenham visibilidade e rodagem competitiva.

Faltam cinco anos para a fase final do campeonato do mundo de 2022, nos Emiratos Árabes Unidos. Que caminhos Angola deve seguir para marcar presença nesta mostra do futebol no mundo?

Olha, em 2006, logo depois do apuramento para o mundial da Alemanha, comunicámos à direcção da Federação Angola de Futebol (FAF) que não teríamos condições de estar nos mundiais seguintes, em 2010, 2014 e 2018. Teríamos sim, condições de voltar ao mundial em 2022. Mesmo assim os responsáveis da FAF, naquela altura, insistiram que deveríamos estar no mundial-2010. E, na altura, lembrei-lhes que Portugal ficou de 1986-2006 sem participar num campeonato do mundo. Mesmo com um potencial de jogadores e um nível de organização considerável, Portugal ficara esse tempo todo sem marcar presença num mundial de futebol em honras.

E quais eram os seus argumentos?

Que não teríamos jogadores com qualidade suficiente para estarmos num mundial. É um longo período de preparação. Era preciso fazer aquele trabalho de continuidade no futebol jovem. Teríamos que ter uma grande movimentação de jovens, desde os sub-17 aos sub-20. Foi pensando já nessa possibilidade que pedimos à Fundação Eduardo dos Santos para organizar um torneio de futebol na categoria de sub-21. E depois seria noutros escalões. E no quarto ano culminávamos com os Jogos Olímpicos. Aliás, falhámos duas possibilidades de estarmos nos Jogos Olímpicos, primeiro por um golo, e depois por um ponto. Era um trabalho apurado que tinha que ser feito. Por exemplo, mesmo sem ter competição, nós mantínhamos os jogadores juntos pelo menos uma vez por mês.

E foi com base neste exercício que argumentámos que só em 2022 estaríamos em condições de ir ao mundial. Vamos ver se as coisas acontecem de forma espontânea, mas de forma planificada só será em 2022 ou 2026, enfim, nada é impossível. Neste processo é importante que os jogadores tenham competição, que possam jogar com atletas do seu escalão de outros países com maior rodagem competitiva. Trabalhar com selecções fortes é o ideal. E nós fizemos isso. Jogámos com a Argentina e com a Costa do Marfim, a quem vencemos, mesmo com toda a sua armada. Vencemos igualmente o Congo Democrático por 3-1, em Kinshasa. Não podemos ter medo de sermos goleados.

Se fosse chamado para liderar um processo para qualificar Angola ao mundial 2022, aceitava?

Vai depender muito de quem estiver à frente da FAF. É fundamental que trabalhemos com uma direcção que perceba aquilo que queremos e nos dê todo o apoio. Por outro lado, eu imprimo muita dinâmica e disciplina no meu trabalho, pelo que quem estiver a dirigir tem de acompanhar o movimento. Caso contrário começam os choques e depois vem o divórcio.

Mas, enquanto angolano a prioridade recai para a selecção nacional?

Evidentemente! Mas estaria agora mais disponível para abraçar um projecto ao nível do futebol jovem, pois é aí onde a minha participação seria fundamental, sobretudo nos sub-17 e sub-23, pois nunca fomos aos Jogos Olímpicos.

No entanto, esteve perto de regressar ao Palancas Negras quando Romeu Filémon assumiu o comando técnico. O que faltou para que o senhor regressasse?

Da minha parte não faltou nada, faltou é da parte da FAF que não se predispôs a trabalhar comigo. Quando fui chamado pelo actual presidente, Pedro Neto, era no sentido de substituir Gustavo Ferrin, quando faltavam dois jogos para o fim da prova. Na altura eu disse ao presidente que não percebi os motivos da minha chamada, pois, mesmo que vencêssemos os dois jogos não nos qualificávamos. Havia depois um espaço de três meses para que a selecção competisse, e eu entraria nesse espaço de tempo.

A partir daí faríamos um trabalho de prospecção. Eu tinha convidado o professor Romeu Filémon para trabalhar comigo. Mas, contra todas as expectativas, fui surpreendido por uma chamada do Filémon a comunicar que tinha sido contactado para orientar a selecção nacional. Pronto, logo percebi que a forma como abordei o projecto terá assustado o presidente da FAF. Hoje o treinador não tem a missão apenas de treinar, é, na prática, um gestor de recursos humanos. O treinador tem hoje um espaço mais alargado e me parece que ainda há dirigentes que não percebem isso.

Quando é que sentiu que Angola podia estar no mundial da Alemanha?

Começo por lhe dizer que o presidente Justino pediu-me para que qualificássemos Angola para o CAN, pois estávamos ausentes havia três edições. No entanto, quando fizemos o projecto constava o apuramento para o mundial. Isso não nos foi pedido pela direcção da federação.

Está a dizer que o apuramento para o mundial foi uma ambição pessoal?

Foi sim uma ambição pessoal. Nós, equipa técnica e jogadores, sempre que fôssemos fazer um jogo tínhamos como objectivo o mundial. Tínhamos uma boa geração de jogadores, embora muitos deles não estivessem ao nível de outros das grandes equipas africanas. Mas tinham capacidade de vencer qualquer jogo em África. E esse nosso desejo aos poucos foi-se consolidando. Muitas selecções tinham a ideia de que fôssemos jogar à defesa e nós surpreendíamos.

Foi o que aconteceu, por exemplo, em Annaba, Argélia, quando jogamos com a equipa local, ante perto de 120 mil pessoas. Fizemos um dos melhores jogos da campanha e só não vencemos porque fomos prejudicados pelos árbitros. Preparámos o jogo de forma muito aberta, ao ponto de um jogador ter-me perguntado se não tinha medo de ser goleado, pelo que respondi: senão tens condições para jogar diz e não entras. Respondendo à sua pergunta, o empate com a Nigéria foi determinante para o nosso apuramento. Ganhámos outro impulso.

Depois dessa brilhante campanha recebeu convites para sair de Angola para treinar outra selecção?

Realmente recebi um convite de Marrocos, no CAN do Gana, em 2008, depois de termos feito um grande jogo com o Egipto, mas fomos eliminados nos quartos de final, em Kumasi. Não saí porque tinha contrato com a FAF e o presidente não deixou que eu saísse. No entanto, hoje penso que devia ter ido treinar Marrocos. Aqui, ao nível do país, não têm aparecido projectos bons, projectos sérios que combinem comigo. Faço parte da associação de treinadores da Europa, como observador, e estou sempre actualizado. Participo com regularidade em alguns simpósios, onde estive no ano passado, com treinadores de topo da Europa. Estou pronto para outros desafios, mas desde que sejam sérios!

Perfil.

Um homem do futebol

Chama-se Luís de Oliveira Gonçalves, é angolano, nasceu no Bairro Prenda, em Luanda, aos 15 de Março de 1957. Como desportista já esteve ligado ao Clube Desportivo Operários do Mota, Paviterra e Interclube de Angola, mas é nos Palancas Negras que se notabilizou. Como técnico de futebol, Luís de Oliveira Gonçalves levou a selecção de Angola ao mundial- 2006, na Alemanha. Oliveira Gonçalves jogou nas divisões inferiores de futebol pelo Club Sportivo Mota & Companhia, onde fazia de tudo, inclusive de motorista. Começou como treinador no Futebol Clube da Paviterra e rapidamente o seu valor foi reconhecido.

É assim que ingressou nos quadros da Federação Angolana de Futebol. Trata-se de um homem estudioso do futebol mundial cuja reputação subiu depois de ter vencido, em 2001, com a selecção sub-20, o primeiro e único CAN para o país, na Etiópia. No mesmo ano era igualmente técnico dos sub- 23, selecção que nunca conseguiu qualificar para os jogos olímpicos, mas, não por falta de qualidade, mas sim por causa dos jogos de bastidores. Em 2001, no mundial disputado na Argentina, Oliveira Gonçalves e pupilos deixaram boa impressão. Transitou com metade da equipa para os Palancas Negras, selecção principal, com a qual logrou o apuramento. Actualmente nas vestes de vice-presidente do Santos Futebol Clube de Angola, Oliveira Gonçalves assumiu a selecção de futebol após derrota dos Palancas por 3 x 1 diante do Tchad. (opais)

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