O brexit e o efeito dominó: se eles podem nós também podemos

Eleitor britânico veste uma réplica da camisola que Thatcher usou na campanha no referendo de 1975 (REUTERS/Neil Hall)

Marine Le Pen garante que convocará referendo se for eleita presidente. Em Itália, Beppe Grillo também quer uma votação. Turquia pondera referendar processo de adesão

O risco de contágio é real. O Reino Unido é uma espécie de paciente zero e o vírus pode espalhar-se a outros países. Depois de os britânicos terem sido chamados a referendar a sua permanência na União Europeia (UE), vários responsáveis políticos de outros Estados membros manifestaram o desejo de convocar votações semelhantes.

Não é novidade que Marine Le Pen olha para a UE de lado e gostaria de ver a França fora de uma união que considera “decadente”. A questão é que a conservadora e líder dos eurocéticos franceses da Frente Nacional ganhou um novo ímpeto com a realização do referendo no Reino Unido. Na terça-feira, numa entrevista à estação TF1, Le Pen voltou a garantir que, caso seja eleita presidente francesa nas eleições do próximo ano, não tardará seis meses a chamar os franceses às urnas para referendar a ligação do país à União Europeia.

As sondagens mostram que a líder da Frente Nacional poderá ganhar a primeira volta das presidenciais, mas que, em princípio, deverá ser derrotada na votação decisiva contra o segundo classificado. No entanto, ainda falta um ano e até lá muita água vai ainda correr debaixo da Europa. Por outro lado – mesmo tendo em conta que nem os socialistas franceses nem Os Republicanos de Nicolas Sarkozy são anti-Europa -, não é impossível que possa verificar-se em França algo semelhante ao que se passou no Reino Unido.

David Cameron, apesar de defender o bremain, viu-se obrigado a convocar o referendo para agradar à ala mais eurocética do Partido Conservador e travar o crescimento dos independentistas do Ukip. E se os adversários de Marine Le Pen, para retirar força à Frente Nacional, tiverem a mesma tentação e fizerem uma jogada “cameroniana”?

Uma sondagem do Pew Research Centre, divulgada no início de junho, mostra que apenas 38% dos franceses têm uma visão favorável da UE – valor que representa uma queda de 17 pontos percentuais face a um barómetro semelhante realizado em 2015.

“Eu votaria a favor do brexit e França, porque está no euro e assinou o acordo de Schengen, tem muito mais razões para sair do que o Reino Unido. Qualquer que seja o resultado do referendo britânico ele é a prova de que a UE está decadente e a abrir brechas por todos os lados”, afirmou Marine Le Pen.

Em 2005, quando os franceses foram chamados a referendar a Constituição Europeia, 55% dos eleitores disseram que “Não” e feriram de morte o documento.

Itália quer duas moedas

Também em Itália já se sentem os primeiros sintomas do contágio “brexitiano”. Depois do sucesso nas eleições municipais, com a conquista das autarquias de Roma e Turim, o eurocético Movimento 5 Estrelas, fundado pelo humorista Beppe Grillo, já fez saber que quer convocar um referendo sobre a moeda única – o partido defende a criação de um euro para os países mais ricos e outro para os países mais pobres – e sobre a ligação à União Europeia. “O simples facto de um país como o Reino Unido ponderar sair da UE é um sinal do falhanço da união”, sublinhou Beppe Grillo.

De acordo com a lei do país, se os italianos avançarem para um referendo, o resultado não será vinculativo. Ainda assim, se a votação fosse substancialmente anti-Europa, os partidos políticos ficariam muito pressionados para agir.

Na Holanda e na Dinamarca também se sente a tentação do adeus. Segundo as sondagens, os holandeses querem um referendo sobre a Europa e mostram-se muito divididos entre o “Sair” e o “Ficar”.

O líder do dinamarquês Partido do Povo, situado na extrema-direita do espetro político, não hesita ao dizer que o país deve seguir o exemplo do Reino Unido. “Se não conseguirmos negociar reformas com a União Europeia por que não deixar que os cidadãos decidam em referendo?”, questionou Kristian Thulesen Dahls.

De acordo com o Daily Express, a secretária de Estado sueca para o Emprego sublinhou que se os vizinhos dinamarqueses avançarem nesse sentido, o sentimento anti-Europa pode alastrar-se pela Escandinávia e forçar a possibilidade de um referendo na Suécia.

O caso turco

Se uns pensam em sair outros há que ponderam deixar de querer entrar, como a Turquia.

Agastado pelo discurso anti-muçulmano que tem vindo a crescer na Europa, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou na quarta-feira que o país poderá realizar um referendo para perguntar aos eleitores se desejam seguir em frente com o processo de adesão. “Podemos fazer o mesmo que os britânicos e perguntar ao povo se quer que a Turquia continue as negociações com a UE”, sublinhou Erdogan.

Durante a campanha no Reino Unido – na qual a imigração foi um dos temas mais quentes -, os defensores da saída agitaram muitas vezes o perigo da Turquia aderir à União Europeia, argumentando que isso poderia levar a uma espécie de invasão turca. Tentando esvaziar esse trunfo jogado pelos partidários do brexit, David Cameron – e também Sadiq Khan, muçulmano recém-eleito presidente da câmara de Londres – referiu várias vezes que “só lá para o ano 3000 é que a Turquia está pronta para aderir à UE”.

Os turcos fizeram o pedido de adesão em 1987 e as negociações formais arrancaram em 2005. Ainda assim, dos 35 capítulos que constituem o processo, foram abertos apenas 15 e só um deles se encontra concluído. Na próxima semana os líderes europeus irão decidir sobre a abertura do capítulo relativo às finanças. (DN)

por José Fialho Gouveia

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