Novo livro desmonta mito do colonialismo português sem racismo.

(DW)

“Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo” apresenta a visão e sentimento dos africanos em relação ao racismo durante o colonização. O livro é da jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques.

O livro que será lançado sábado (11.06.), em Lisboa, também se debruça sobre as cicatrizes da discriminação racial que ainda permanecem nas relações com os cinco países africanos de língua portuguesa.

Joana Gorjão Henriques realizou mais de cem entrevistas em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. E a partir de testemunhos diferenciados que recolheu levanta a polémica, sem fazer qualquer espécie de julgamento, sobre a questão do racismo durante a colonização portuguesa.

Está tudo nas cinco reportagens que deram origem à obra “Racismo em Português – o lado esquecido do colonialismo”. A autora revela que “um dos motivos pelos quais este trabalho foi feito era tentar desmontar a ideia de que Portugal, como potência colonial, não tinha sido racista.”

Joana Gorjão Henriques recorda que esta “foi uma ideia veiculada durante muitos anos e preconizada pelo antropólgo brasileiro Gilberto Freire – que deu origem à teoria do luso-tropicalismo e que está encrustrada nas nossas sociedades inclusivamente também em alguns países que foram colonizados.” No final ela pretendia o seguinte: “Tentar perceber até que ponto esta ideologia tinha vincado.”

Até que ponto o racismo afeta ex-colónias?

O lado africano da história colonial é pouco salientado no plano jornalístico. Os relatos na primeira pessoa ou as análises reportam a violência do sistema colonial português e o facto deste ter seguido uma política de apagão de África nas próprias colónias.

Esta ideologia, acrescenta a jornalista portuguesa, perdurou durante muito tempo por todos os cinco territórios africanos. Entre muitos exemplos, Joana Henriques salienta o caso da Guiné, onde era necessário ter a caderneta do indígena, exigida pelo regime colonial: “Tinham que ter essa caderneta assinada para poder entrar em Bissau. Há uma zona em Bissau que se chama a “Chapa de Bissau”, a partir da qual era preciso fazer uma espécie de uma barreira.”

E também havia, a determinada altura, um muro e um apito “em que as pessoas, a partir de uma determinada hora do dia, os chamados indígenas, tinham que sair da cidade. Há o relato em Angola, em Moçambique, de apartheid, separação, em que brancos e negros estavam em espaços separados.”

Joana Gorjão Henriques socorre-se de um exemplo: “O próprio Presidente [moçambicano, Joaquim] Chissano conta vários episódios relacionados com isso. A questão por exemplo de haver o cinema para brancos e o cinema para africanos, onde passavam, enfim, as “cowboyadas” como ele diz.”

A autora do livro editado pela Tinta da China tratou de ouvir as narrativas que perduram em cada país e identificar cicatrizes que ainda permanecem. Quarenta anos depois das independências das ex-colónias portuguesas, ela questiona até que ponto o racismo afeta ainda hoje as relações sociais, políticas e económicas nesses países.

Racismo inconsciente em Portugal

A abordagem da temática conta no debate deste sábado com a participação da jurista guineense, Romualda Fernandes: “Ainda é um problema para debate, o que me leva a focar um bocado na questão do próprio conceito do racismo, o seu significado, sobretudo nesta conjuntura, mesmo quando se reporta a relacionamento de poder e de dominação entre pessoas, no caso, ambas negras.”

Na perspetiva de Romualda Fernandes, Portugal até é um dos países europeus elogiado no que toca ao cumprimento das leis contra o racismo direto ou explícito: “Nós quando fazemos as reportagens e os relatórios sobre a aplicação, dos últimos relatórios que até fiz por incrível que pareça, Portugal até foi alvo de elogio.”

Mas a jurista coloca uma questão: “Uma coisa é o que está na lei e sobre este aspeto Portugal tem adaptado a sua legislação a esta matéria e outra coisa é a própria dinâmica social que faz com que em determinados sítios de representatividade não se vê população de origem negra e Portugal já tem negros desde o início da sua história.”

Ainda que simbolicamente, acrescenta, o país já deu sinais de abertura, o que incentivará a população portuguesa de origem africana a se posicionar em defesa dos seus direitos cívicos e de representatividade.

Joana Gorjão Henriques considera que “há toda uma ideologia que marcou e ainda marca a sociedade portuguesa, que faz com que muitos portugueses sejam racistas inconscientemente”. Segundo a autora: “Tal passa por uma discriminação na forma como olhamos os africanos. Às vezes são comportamentos automáticos, inconscientes, para os quais nós fomos programados. “Face ao fenómeno, Joana Gorjão diz que será necessário haver uma “descolonização das mentes” de forma profunda.

O projeto do livro resulta de uma parceria entre o jornal “Público” e a Fundação Francisco Manuel dos Santos. (DW)

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