“Não há razão para deixar de vir às Olimpíadas por causa do zika”

O ministro Leonardo Picciani, em seu gabinete. Roberto Castro (Min. Esporte)

Novo ministro dos Esportes, Leonardo Picciani, admite falhas na despoluição da Baía da Guanabara, mas aposta no sucesso dos Jogos no Brasil.

O fluxo de políticos no gabinete de Leonardo Picciani no Ministério dos Esportes é semelhante ao que havia na sala da liderança do PMDB na Câmara dos Deputados que ele ocupava até o último dia 11 de maio. Desde que assumiu o ministério, o peemedebista do Rio de Janeiro decidiu que qualquer deputado que quisesse visitá-lo não precisava agendar o encontro, bastava chegar e ser anunciado por uma de suas secretárias. Em um prazo de quase duas horas, passaram pela sua sala três deputados federais (um deles o líder do Governo, André Moura) e uma comitiva de políticos fluminenses. “Minha agenda fica bagunçada por causa disso, mas me comprometi em receber meus colegas”, diz o deputado licenciado ao pedir desculpas pelo atraso de uma hora e meia na entrevista.

Pergunta. Até dias atrás você estava na liderança do PMDB na Câmara, em uma função diferente da de agora. Em que você está se debruçando mais no ministério?

Resposta. A prioridade nossa são as Olimpíadas e as Paraolimpíadas. Não é a única prioridade, estamos começando a fazer uma avaliação dos programas do ministério para aperfeiçoá-los, redefini-los e decidir pela criação de novos programas pós Jogos Olímpicos. O importante é termos duas prioridades muito nítidas, que é a manutenção dos programas de altos rendimentos e outra é ampliar os investimentos na área social do esporte, como fator de inclusão social, de lazer e educacional.

P. Em questão de estrutura, o que falta para os Jogos Olímpicos?

R. Os equipamentos estão quase todos prontos. As medidas que ficaram a cargo do ministério, inclusive na compra de materiais e equipamentos já está feito. Estaremos recebendo nas datas previstas esse material.

P. Inclusive os geradores de energia elétrica que tinham registrado problemas?

R. Sim. Também. Já depositamos o valor de 290 milhões de reais para a contratação de energia temporária. Temos um saldo desses 290 milhões que não foram gastos integralmente, entre 15 milhões e 20 milhões de reais que podem servir para estruturar essas novas demandas que surgirem. Todos os geradores foram contratados, fizemos reforço de carga no Engenhão e em outras instalações. Falta muito pouco a terminar, a estrutura de tênis e do velódromo é o que faltam ainda.

P. Ao velódromo não falta muito?

R. Saiu muito do cronograma, mas já está com mais de 90% concluído, já será entregue ao comitê.

P. O Ricardo Leyser, que foi secretário executivo e assumiu o ministério interinamente, foi um dos poucos profissionais que acompanharam a preparação dos Jogos desde o princípio. Você optou por retirá-lo do ministério. Por qual razão?

R. Ele recebeu um convite do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), vai assessorar a prefeitura na conclusão desse projeto olímpico, de modo que ele permanece com relação conosco. Optamos pela manutenção da maioria do corpo técnico do ministério. No corpo técnico que vinha trabalhando, os consultores que vinham atuando no acompanhamento do projeto olímpico, não houve nenhuma mudança. Apenas nos cargos de confiança em algumas secretarias, onde entendemos que sejam cargos de relação mais direta com o ministro, optamos por mudar por uma razão: é necessário o projeto olímpico, mas também é necessário pensar o futuro. A equipe já trabalha na conclusão do projeto olímpico, que vai muito bem e será um sucesso, preparando também o pós-olimpíada. Temos obrigação de cuidar do legado.

P. Como será esse cuidado com o legado olímpico?

R. Criei na minha primeira semana de trabalho uma equipe interministerial para formular propostas e caminhos para a destinação do legado. Temos também de cuidar do plano nacional de desporto, que precisa ser feito. Estamos fazendo um estudo para saber o que fazer com o legado dos jogos. A prefeitura também tem um estudo específico sobre isso. Vamos criar uma interação entre nossas propostas, tomando medidas em conjunto para a otimização do legado. Teremos parcerias com Forças Armadas, tem a rede de treinamento feita com outros Estados, do qual precisamos encontrar a melhor destinação. Essas são preocupações fundamentais.

P. Como o Governo tem lidado com o anúncio de alguns atletas, como o jogador de basquete espanhol Pau Gasol, que anunciaram que não sabem se participarão das Olimpíadas no Brasil por conta do zika vírus?

R. A dengue, a zika e a chikungunya existem em mais de 50 países pelo mundo. O Brasil, que identificou a relação do zika vírus com a microcefalia, tem investido muito no combate ao aedes aegypti, que é o mosquito transmissor dessas doenças. Apesar da declaração do Pau Gasol, entidades internacionais já emitiram comunicados contra o cancelamento dos jogos. Não há nenhuma recomendação para que as pessoas não venham ao Brasil. Evidente que a opinião pessoal é de cada um, mas no nosso caso, temos de tratar com as posições de Governo. Se não me engano, a posição do Governo espanhol é de um respaldo pelo combate ao zika vírus. Há uma mobilização da sociedade brasileira, que foi chamada a combater os criadouros do mosquito e tem respondido muito bem a essas campanhas. E temos também um fator estatístico de que agosto é, historicamente, o mês em que há a menor incidência dos casos de dengue e zika no Rio de Janeiro porque estamos no período de inverno. É o período em que se diminuem as chuvas e a temperatura, quebrando o ciclo de reprodução do mosquito. Portanto, é uma queda abrupta do número de casos.

P. Vocês estão contando com o inverno para combate o zika, então?

R. Não é isso. Estamos contando com todas as providências que foram e continuam sendo tomadas para a prevenção e o combate ao mosquito. As medidas sanitárias são diversas. O Ministério da Saúde contratou mais de 2.000 profissionais no Rio de Janeiro para ajudar nesse controle sanitário. Há uma estrutura própria, montada para os Jogos. Há um acréscimo de mais 146 novas ambulâncias UTIs. Confiamos nas medidas que foram tomadas. Evidentemente não podemos ignorar a estatística.

P. E a poluição da Baía da Guanabara? Há delegações que já ameaçam não mandar equipes com o risco de adoecerem por conta da poluição. Como o Governo tem lidado com isso?

R. É preciso esclarecer que a área onde ocorrerão as competições olímpicas não tem problema de poluição. Há estudos do Governo do Estado do Rio que demonstram isso por meio de dados técnicos. Havia um compromisso de despoluição da Baía da Guanabara de 80%. Não foi atingido esse número.

P. Está em quanto?

R. Um pouco acima de 50%, mas é importante frisar que ela estava 14% despoluída e agora supera os 50%. É um processo de evolução. E a despoluição da baía não é um processo que deve ser feito apenas para os jogos Olímpicos, mas deve ser feita em benefício de toda a população do Rio e do Brasil, para os turistas e isso será feito. É um passivo ambiental de décadas, fruto de um crescimento desordenado da cidade, que demanda tempo para ser solucionado. Houve uma evolução significativa e infelizmente não se atingiu o índice que se esperava.

P. O Governo fala muito em legado dos Jogos, mas parece que se esquece que o Brasil já está dois anos em recessão e pode chegar ao terceiro. Diante dessa crise como o Governo deve agir para aproveitar economicamente as Olimpíadas?

R. Tenho certeza que as medidas que estão sendo tomadas na economia trarão a retomada da confiança e da credibilidade, teremos um ano de 2017 com um cenário de recuperação. Temos essa confiança na equipe econômica liderada pelo ministro Henrique Meirelles. Evidentemente, estamos planejando a manutenção de alguns programas e estruturas mesmo com a crise. Já planejamos usar alguns recursos para um período de até um ano após a conclusão dos jogos. Isso foi feito pensando em qualquer instabilidade. Desde já nos debruçamos sobre o planejamento do legado.

P. Você foi um dos principais defensores da manutenção da presidenta Dilma Rousseff no cargo. Mas logo após o afastamento dela, tornou-se ministro. Não se sentiu constrangido em assumir um ministério de Temer levando em conta sua posição anterior?

R. Não houve nenhum constrangimento porque o impeachment não foi um processo de eleição indireta onde a presidente disputou o cargo com o vice-presidente. Foi um processo de impedimento que pesava sobre a presidente em que eu tinha a minha opinião jurídica do processo, que foi o voto que manifestei. Fui voto vencido e uma das principais regras do Parlamento é o respeito das decisões colegiadas. Eu respeitei a decisão da maioria. E como não era uma eleição indireta meu voto não significou nenhum tipo de rejeição ou de não apoio ao vice-presidente. Eu tinha uma interpretação jurídica sobre o impeachment que nada tem a ver com o vice-presidente. Uma vez que o impeachment teve como consequência o afastamento da presidente pelo Senado, a situação real que nós temos é o vice assumir o comando do país. Ele é presidente do meu partido, com quem tenho longa convivência. Fui presidido por ele na Câmara dos Deputados e no diretório do partido, portanto, me sinto no dever, assim como todos do PMDB, obrigado a trabalhar pelo sucesso dessa tarefa do presidente Michel Temer. O sucesso dele representa o sucesso do país. Separo essa questão com muita nitidez.

P. Falando em partido, como o PMDB, que já quebrou o Rio de Janeiro, pode garantir que não fará o mesmo com o Brasil?

R. O processo de esvaziamento econômico do Rio decorre da situação do país em geral. É importante lembrar que quando o PMDB assumiu o Governo do Rio pegou uma situação absolutamente caótica deixada pela governadora Rosinha [Garotinho] em que não se pagavam os servidores, havia atraso de pagamentos a fornecedores.

P. Mas o PMDB governa o Rio desde 2007.

R. Sim, mas os governos do Sergio Cabral e do [Luiz Fernando] Pezão conseguiram manter, sobretudo nos primeiros oito anos, um Estado crescendo muito acima da média nacional. O Rio de Janeiro tem uma economia muito dependente da indústria do petróleo e vivemos uma crise mundial nesse setor. O Rio de Janeiro precisa buscar novas matrizes econômicas, e as Olimpíadas são uma oportunidade para isso, a indústria do turismo também, que precisa ser mais desenvolvida. O Rio enfrenta o mesmo nível de dificuldade que enfrenta o país e ambos precisam superar isso.

P. De que maneira?

R. Com a retomada do crescimento. E isso só será possível com confiança e a volta da credibilidade e é nisso que esperamos que o presidente Temer tenha sucesso. Particularmente acredito que as medidas que ele tem tomado e com a equipe econômica que ele escolheu são capazes de cumprir essa missão.

P. O Eduardo Paes disse recentemente que o PMDB não tem um nome para as eleições presidenciais de 2018. O senhor enxerga dessa maneira também?

R. Acho que o momento não é de pensar em eleição. Um dos fatores que levou ao agravamento da crise é porque não tivemos, entre aspas, o fim das eleições [de 2014]. A luta política prosseguiu mesmo depois das eleições. Não é hora de pensar nisso. O PMDB não está preocupado em ter candidato neste momento. Evidentemente que quando chegar o momento, próximo às eleições de 2018, o PMDB vai buscar ter um candidato. Nossa preocupação agora é dar apoio ao presidente Temer para reverter esse quadro de crise econômica e instabilidade.

P. Quando as Olimpíadas se iniciarem em 5 de agosto é possível que o processo de impeachment não tenha sido concluído no Senado. Consegue ver essa cena de Dilma e Temer dividindo o mesmo espaço na tribuna de autoridades na abertura dos jogos?

R. As instituições brasileiras estão funcionando absolutamente bem e nossas leis definem as regras para esse tipo de situação. O que tiver de ocorrer será regido pelo que manda a Constituição, dentro da institucionalidade.

P. Se o Senado inocentar a presidenta afastada do crime de responsabilidade, como fica a sua situação pessoal?

R. Não tenho uma avaliação sobre essa hipótese. É uma matéria que está a cargo do Senado e creio que ele deve fazê-la da maneira mais rápida que puder, mas dentro da legalidade, sem atropelos, sem açodamento. Não devemos ter nenhuma preocupação quanto a antecipação desse cenário.

P. Você defende a cassação do deputado federal Eduardo Cunha?

R. Não voto nessa matéria porque estou licenciado do mandato. Mas creio que a Câmara precisa decidir rapidamente. Tem de levar a plenário e tomar a decisão ou de inocentá-lo ou de cassá-lo. Como estou afastado do mandato, eu emitir uma opinião pessoal não me sentiria confortável nem é o mais apropriado a se fazer.

P. Se livrou de uma, hein, ministro…

R. (Risos). É, eu me livrei. (EL PAIS)

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