Mercado negro é a única solução para muitos venezuelanos

(Reuters)

Fonte de riqueza para uns, ilegal, muito criticado mas também muito procurado, o “mercado negro” tem ganho espaço junto dos venezuelanos, como instrumento para ultrapassar a falta de bens no país.

Neste mercado, que o Governo venezuelano tem procurado combater intensamente, é possível conseguir, a preços que nalguns casos chegam a ser até oito vezes mais que o valor de venda afixado pelas autoridades, produtos escassos e muito procurados como farinha de milho, leite em pó, açúcar, margarina, óleo, arroz, massa ou até o papel higiénico.

Trata-se de um mercado que envolve toneladas de produtos físicos mas que funciona praticamente de maneira virtual, baseado em contactos telefónicos ou leilões online.

“Não sou ‘bachaquera’ (vendedora informal que açambarca produtos) mas com frequência consigo alguns produtos que ofereço a terceiras pessoas, porque os meus vizinhos têm e precisam de ter dinheiro para comprar outras coisas”, começou por explicar uma empregada de escritório à Agência Lusa.

Verónica Caraballo, 40 anos, viaja todos os dias no Metropolitano de Caracas, desde um bairro do oeste até ao centro da capital, e consigo leva, quase sempre, alguns produtos muito desejados que entrega a companheiros de trabalho e conhecidos.

“A nossa rotina mudou, antes, nos intervalos do trabalho, falávamos de artistas, do cinema, das telenovelas, de coisas que acontecem às pessoas. Agora, usamos o telefone para ver quem tem alguns produtos, ou quem tem um contacto de alguém que possa os conseguir”, explicou, precisando que este tipo de conversas passou a ser comum na empresa.

No bairro ‘chavista’ onde vive, há dificuldades mas “ainda se vão conseguindo coizinhas” que os seus amigos e companheiros não têm, mas já lhe disseram que no populoso bairro de “Petare consegue-se de tudo e até há pessoas que se atrevem a vender nas ruas”.

“Mas, para mim, é perigoso ir até lá, porque é preciso levar dinheiro em ‘efetivo’ para poder pagar. É como estar a provocar, meter-se na boca dos criminosos que sabem quem é da zona e quem não”, disse.

Por outro lado a portuguesa Ermelinda Freitas, 60 anos, tem tido a “sorte” de que, quando sai de carro, encontra sempre alguém vendendo alguma das coisas que precisam.

“Há algum tempo atrás ninguém tinha ovos e eu consegui um senhor, num domingo, numa rua, vendendo e comprei-lhe um cartão de 30 ovos. Claro é um produto que não se pode comprar muito porque se estraga e foi muito mais caro, mas há que sacrificar umas coisas para conseguir outras”, explicou.

O neto, explicou, tem um restaurante e não tinha ovos nem arroz, recorda.

Principalmente aos sábados e aos domingos o luso-descendente Mário Gonçalves, 25 anos, tem algum tempo disponível para “ir às compras”. Levanta-se bem cedo, dá uma volta e pelas 06:30 horas da manhã já sabe qual a fila que vai frequentar, á espera de produtos correntes.

“Domingo, estive num supermercado e estavam vendendo duas caixas de Corn Flakes (flocos de cereais) por pessoa. Eu comprei, mesmo sendo uma coisa que não gosto muito, porque alguém precisará e assim terei o que trocar por outra coisa. Já fiz o mesmo com aveia, açúcar e até com latas de atum que agora já se conseguem facilmente porque estão tão caras que custa comprar”, frisou.

A crise na Venezuela tem tido reflexos duros para a população, que se depara com a falta de bens correntes e uma inflação de 200 por cento.

A crise dos preços do petróleo bloqueou a economia do país, acentuando a crise social e política, com a oposição a exigir a saída do Presidente, Nicolas Maduro, do poder. (Jornal de Negocios)

por Lusa

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