Islândia vence e selecionador inglês demite-se – como aconteceu

Não é fácil pronunciar-lhe o nome, mas sempre é mais fácil "arranhar" Kolbeinn Sigthórsson do que Eyjafjallajökull. E o ponta-de-lança islandês salta quase tão alto quanto as cinzas do vulcão Eyjafj... pois, esse(ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP/Getty Images)

Falar de um (outro) “Brexit” é redutor para a Islândia. O apuramento para o Euro foi histórico. Estar nos “oitavos” idem. Mas esta vitória é como a erupção do Eyjafjallajökull: a Europa pára e teme.

Não foi fácil para o sueco Lars Lagerbäck fazer a convocatória islandesa para o Euro 2016. Ele dúvidas não tinha muitas; o Sigurdsson, o Gunnarsson, o “outro” Sigurdsson e o Sigthorsson não podiam faltar nem por nada. O “problema” para Lagerbäck é que não tinha muito por onde convocar.

A Islândia tem 332.529 habitantes. Desses, 165.529 são mulheres – e, portanto, não elegíveis (que me perdoem as feministas islandesas) para uma convocatória que se quer masculina. Entre homens, 40.546 tem menos de 18 anos e 82.313 mais de 35. Os primeiros são demasiado novos, os segundos “entradotes” demais. E nem todos são futebolistas, claro. Quem não é por certo futebolista é a população islandesa que sofre de obesidade: 22.136 habitantes ao todo. Assim, não é mesmo nada fácil, Lars. Mas vamos continuar a subtrair: 1.246 islandeses trabalham na indústria do turismo, fazendo maioritariamente de guias na observação de baleias. 314 são sismólogos e 164 vulcanólogos. 1,934 pastoreiam ovelhas. 1.464 tosquiam-nas. 23 são banqueiros – e estão na prisão, pois claro. 194 são cegos. 7.564 são doentes. 564 trabalham nos cuidados a esses doentes em hospitais, são polícias ou bombeiros. 8.781 estão em França, mas nas bancadas, como adeptos. Também em França e no Euro 2016 estão um médico, um fisioterapeuta, um massagista, um “aguadeiro”, sete dirigentes e um treinador. Este último, já se sabe, é sueco e não islandês.

Contas feitas — e brincadeira à parte –, “restam” 23 homens. E estão todos convocados por Lars Lagerbäck.

Quando o árbitro apita para o fim da partida e é preciso escrever depois uma crónica sobre o que nela se viu, o jornalista pensa quase sempre (pelo menos eu penso) num título primeiro. Ora, poucos dias depois do referendo britânico à saída da União Europeia, um referendo onde a maioria dos eleitores votou “Sair”, o título que primeiro me ocorreu foi “Brexit”. Um (outro) “Brexit”, não político, mas desportivo. O problema é que o País de Gales me “tramou” o título. E caso não tivesse sido a seleção galesa a tramar-me, seria a da Irlanda do Norte. Os galeses e os norte-irlandeses defrontaram-se nos oitavos-de-final do Euro, levando os primeiros a melhor. Assim, e pelo menos até aos “quartos”, não há “Brexit” coisa nenhuma. Agora, que a Inglaterra foi eliminada, lá isso foi…

Mas até começou a vencer. E quem só viu o jogo até aos quatro minutos e desligou a televisão depois, está surpreendido com o que acabei de escrever. É que começar com um penálti logo a abrir, mais a mais contra a Islândia (sem ofensa), é “meia” vitória. Uma vitória das “gordas”, quiçá. O penálti em si não tem discussão. Wayne Rooney desmarcou Raheem Sterling à entrada da área islandesa, o extremo do Manchester City (que é um “foguete”!) chegou primeiro à bola do que o central Ragnar Sigurdsson, entrou na área, e o guarda-redes Hannes Halldórsson derrubou-o quando Sterling se preparava para o driblar e chutar. Na marcação da grande penalidade, é o homem que fez passe “açucarado”, Rooney, quem se chega à frente. Atirou para a direita, Halldórsson também para lá foi, mas a potência do remate era tanta, que o pobre guarda-redes islandês nem na bola tocou de raspão com as luvas.

Não desliguei a televisão — mesmo que achasse que seriam favas contadas para os ingleses, não podia; afinal, há uma crónica para escrever. E logo a seguir, um minuto e uns pozinhos depois, a Islândia empatou. Ainda bem que não desliguei. Aron Gunnarsson fez um lançamento longo à direita — é a sua especialidade; já contra Portugal o tinha demonstrado –, ainda longe da área, mas colocou mesmo a bola lá dentro. O central Kári Árnason desvia-a primeiro de cabeça, saltando mais alto que Eric Dier, mas é o outro central (esse com o pé), Ragnar Sigurdsson, quem faz o desvio “fatal”, à boca da baliza, com Gary Cahill e Chris Smalling (os centrais ingleses) a vê-lo fazer. Joe Hart, o guarda-redes, não se moveu nem um passo. Para quê, se as marcações inglesas na área falharam todas?

A Inglaterra é superior tecnicamente. Muito superior. Tanto é, que a posse de bola inglesa ultrapassava durante a primeira (e largamente) os 60% — e os islandeses mal tocavam na “menina”. O problema (para a Inglaterra, entenda-se) é que sentiu o toque do primeiro golo da Islândia. A defesa estava a jogar sobre brasas e o meio-campo a dar muuuuuito espaço. Quando assim é, e mesmo tocando os islandeses pouco na bola, assim que tocavam saiam em contra-ataque, velocíssimos, e rematavam de todo o lado, perto ou longe da área. A Inglaterra também rematava, mas não acertava com a baliza — e quando acertava, Halldorsson defendia tudo. Ora, se os ingleses sentiram, como lhe disse, o primeiro golo, mais sentiriam o segundo. Foi aos 19′.

E foi Kolbeinn Sigthórsson a marcar o golo da reviravolta. Quanto a toques, só foram precisos três, todos de primeira e à entrada da área, para a Islândia marcar. O dez Gylfi Sigurdsson recebeu uma bola vinda da direita, toca-a para Jón Bodhvarsson, este para o ponta-de-lança Sigthorsson (sim, o tal que ganhou uma catrefada de duelos aéreos contra Portugal), que puxa a bola para o pé direito, desvia-a (e desvia-se) de Gary Cahill e atira de seguida um remate entre Hart e o poste direito inglês. O guarda-redes ainda toca na bola, mas esta passa-lhe por baixo do corpo (nenhum guarda-redes gosta quando assim é) e vai devagar, devagarinho lá para dentro: 2-1. Os ingleses não queriam acreditar.

Não acreditavam, mas fizeram por sacudir todo aquele azar — ou aselhice na defesa. Como? Atacando. E atacavam muito. Mais na primeira parte do que na segunda. Com mais clarividência na primeira do que na segunda. Mas se há algo que os islandeses sabem fazer (e bem) é defender. E os adeptos até ajudam.

Quando a Inglaterra atacava e a Islândia recolhia à defesa, escutava-se um cântico vindo das bancadas: “Iceland! Iceland! Iceland!” Assim, por escrito, é evidente que quem canta são os islandeses — e cantam o nome do seu país. Mas em Nice (ou mesmo pela TV), quando é cantado em uníssono, com a acústica que o estádio tem a ajudar, quase nos sentimos num pavilhão à pinha da NBA (o compasso é o mesmo) e o que se ouve é: “Defense! Defense! Defense!” E a defender há que elogiar Ragnar Sigurdsson, o camisola seis — não confundir com o dez, que também é Sigurdsson, mas Gylfi. Aos 29 anos, este matulão (quase um metro e noventa e mais de oitenta quilos), de olhar tão frio quando a frieza que tem no jogo, atua no “humilde” Krasnodar da Rússia. Antes, andou pelo Gotemburgo da Suécia e pelo Copenhaga da Dinamarca. Mas hoje fez Cahill, do Chelsea, e Smalling, do Manchester United, parecer que, eles sim, jogam num “Krasnodar” desta vida. Não perdeu um só duelo. E ainda foi ganhar os que não eram dele, mas de Kári Árnason — o outro defesa central da seleção islandesa.

A Islândia quase arrumou com o resultado perto do fim. Gunnarsson, que até é médio-defensivo e pouco de driblar, foi desmarcado em velocidade na frente e ficou um-contra-um (83′) com um defesa inglês. “Defesa”, ou mais ou menos. Quem lá estava era Jack Wilshere, um dez que é pouco de defender. Levou uma “entortadela” de Gunnarsson, pois claro, tombou depois e o islandês rematou à vontade. Valeu à Inglaterra que Hart encheu a baliza e desviou para canto. Não foi preciso arrumar com o jogo aí. “Arrumou-o” a Islândia (2-1) ainda na primeira parte.

Ninguém falará de “Brexit” – até porque o País de Gales não deixou. E mesmo que deixasse, seria redutor para os islandeses. O apuramento deles para o Euro 2016 (deixando a Holanda a ver o torneio pela TV) foi histórico. A passagem aos oitavos-de-final do Euro também o foi. Mas vencer a Inglaterra e seguir para os “quartos” (onde defrontará a anfitriã França) está para lá de histórico. Faz quase lembrar o vulcão que pintou de negro e cinza os céus da Europa em meados 2010. Um tal de Eyjafjallajökull (santinho!), lembra-se dele? A Europa, pelo menos a do futebol, também parou esta noite. Boquiaberta. E tal como o Eyjafjallajökull trouxe medo e espanto a todos, também estes islandeses, estes bravíssimos islandeses “da bola”, trouxeram.

A França que se cuide, ou vai para casa. Ou melhor, em “casa” já ela está; mas não chegará à final de Paris. (OBSERVADOR)

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