Expatriados controlam 80 por cento da indústria panificadora nacional

pão (Foto: Vigas da Purificação)

A Associação da Indústria Panificadora assume existir um quadro difícil de actuação facto que torna urgente a redefinição de políticas para melhoria do actual cenário.

O presidente da Associação da Indústria Panificadora de Angola, Gilberto Simão, assumiu que cerca de 80 por cento da indústria panificadora nacional é, neste momento, controlada por expatriados.

Ao confirmar o facto ao JE, esclareceu que durante muito tempo o Governo abasteceu a indústria panificadora nacional através das moageiras que, até certa altura, satisfaziam as necessidades do mercado em 40 por cento. Mas, avançou, com a liberalização da economia, as moageiras desapareceram.

“Hoje, nós dependemos da importação do trigo, um negócio dominado, maioritariamente, por expatriados”, explica.

Os empresários angolanos ligados ao sector da panificação controlam apenas 20 por cento do mercado, na opinião de Gilberto Simão. E, face à escassez de divisas no mercado, a situação dos investidores nacionais piorou.

O presidente da associaçãodisse, igualmente, que o sector está a enfrentar uma crise generalizada, que não se resume apenas na falta de divisas, mas, sobretudo, na falta de estruturas sólidas ligadas à importação e comercialização da farinha de trigo.

“Até à altura da constituição da associação, o país não possuía legislação e registos sobre este sector de produção”, conta.

Neste momento, existe uma estrutura devidamente montada, que importa e comercializa farinha de trigo para algumas padarias a preços muito atractivos. Para outros, o produto é comercializado a preços especulativos.

Daí que, entre as medidas encaradas pelo Executivo para contrapor a realidade consta, a entrada em cena do Entreposto Aduaneiro.

“O preço do saco de trigo desceu até quatro mil kwanzas. Com a escassez da divisa no mercado nacional, o país regrediu para o cenário anterior”, lamenta.

Melhorar a actuação

Com vista a sua organização e consequente definição de estratégia para uma melhor actuação, estão em curso um conjunto de estratégias de sensibilização de industriais, um pouco por todo o país, para que se organizem, as estruturas, além de medidas que visam regulamentar e disciplinar o sector.

Numa primeira fase, foi criada a Associação da Indústria e Panificadoras de Angola (APA). Seguidamente, a organização vai trabalhar para regulamentação do sector. Luanda, a título de exemplo, conta com mais de 500 associados, ao passo que as restantes províncias detêm aproximadamente 50 indústrias panificadoras cada.

Necessidades

Neste preciso momento, as reais necessidades da indústria panificadora nacional ronda as 50 mil toneladas de trigo mês, cerca de 600 mil toneladas de fermento, 160 toneladas de melhorantes, perto de 700 toneladas de óleo vegetal e 1.200 toneladas de sal.

Investimentos

De acordo com o presidente, o negócio do pão está segmentado por micro, pequenas, médias e grandes unidades de produção. Os preços dos equipamentos variam de acordo com a capacidade. Com o desenvolvimento da tecnologia, os equipamentos estão a se tornar cada vez mais acessíveis.

Segundo constatou, para se dinamizar a indústria panificadora, o país precisa apostar na plantação, transformação e comercialização da farinha de trigo.

O industrial Gilberto Simão. (Foto: Vigas da Purificação)
O industrial Gilberto Simão.
(Foto: Vigas da Purificação)

Para o responsável, a excessiva dependência da importação tem vindo a contribuir em grande medida no enfraquecimento do negócio, sobretudo para o empresariado nacional.

Segundo explicou, os preços do saco de farinha, por exemplo, registam níveis de variação que rondam entre 15 mil kwanzas na província do Cunene, 17 nas Lundas e 12 em Luanda.

“Neste preciso momento, apenas os armazéns de expatriados têm farinha de trigo a preços especulativos”, disse.

De acordo com o industrial, em condições normais, o saco de trigo deveria ser vendido entre quatro e cinco mil kwanzas, mas o que se verifica não é isto. O saco está a ser vendido a 12 mil kwanzas em Luanda.

Metas

Para dinamizar o sector, os associados defendem a regularização para preservar os negócios da indústria panificadora.

De acordo com os industriais, urge a indexação do preço de venda da farinha de trigo com o preço da venda de pão, uma vez que ambos são produtos vigiados por Lei. Por outro lado, os investidores no sector almejam apoio institucional para criar a central de compras com vista assegurar o abastecimento do mercado nacional. Além deste desiderato, querem ver igualmente criada a cooperativa que iria ocupar-se da importação dirigida da farinha de trigo.

Outro elemento não menos importante que os empresários da indústria panificadora gostariam de ver resolvida está relacionada com a integração dos associados nas equipas de fiscalização do Ministério da Indústria com vista a acompanhar os trabalhos do sector.

Pretendem igualmente ver os membros da associação integrados nas acções de fiscalização do sector, para um melhor acompanhamento do desdobramento do Ministério da Indústria junto dos associados.

Gilberto Simão lamentou a forma como o pão tem sido comercializado no mercado nacional, uma realidade que gostaria de ver alterada com a aprovação de um diploma que obriga os industriais a venderem o produto, apenas para pessoas singulares e instituições devidamente credenciadas.

“É muito lamentável ver o pão a ser transportado na cabeça e vendido em qualquer esquina sem a mínima condição de higiene”, lamentou.

A associação garantiu que vai trabalhar neste sentido para assegurar as condições de higiene desde a produção, conservação e comercialização do pão. “Vamos trabalhar para manter as condições de comercialização do pão, o regulamento vai obrigar os industriais a assegurar este sector”.

Rentabilidade

O negócio do pão consta entre os mais rentáveis, pois em menos de um mês é possível montar e começar a produzir. Segundo explicou, o sector não enfrenta dificuldades em termos de acesso ao crédito, mas sim a excessiva dependência na importação da matéria-prima. Face à ausência da cadeia de produção e comercialização do trigo, pode-se afirmar que não é rentável para os angolanos.

APA

A Associação da Indústria Panificadora de Angola (APA), criada há um ano para defender os interesses do sector, tem como meta organizar os associados para melhor defender os seus interesses. Até à data presente, estão criados os núcleos pelas províncias. Em Luanda, a organização conta com mais de 500 unidades das quais apenas 200 estão representadas na associação.

NOTAS:

50 MIL TONELADAS

É a quantidade de farinha de trigo/mês de que Angola tem necessidade para fazer fluir a indústria da panificação e responder, deste modo, ao elevado consumo do pão.(jornaldeeconomia)

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