Eurodeputados portugueses unânimes sobre riscos de saída do Reino Unido da UE

Parlamento Europeu (Reuters)

Representantes portugueses dos vários partidos políticos consideram que uma eventual saída do Reino Unido da União Europeia vai obrigar a repensar o projeto europeu.

Eurodeputados portugueses das diferentes forças políticas são unânimes em considerar que uma vitória dos partidários do ‘Brexit’ no referendo de quinta-feira alteraria o atual equilíbrio de forças na União Europeia e obrigaria a repensar o projeto europeu.

O eurodeputado socialista Francisco Assis disse à Lusa que “uma eventual saída da Grã-Bretanha da UE teria decerto consequências negativas para o projeto europeu”, pois “desequilibraria um pouco a Europa, já que a amputaria de um dos seus membros mais proeminentes”, e acarretaria um “risco de progressiva e parcial desagregação do projeto europeu”.

A Grã-Bretanha é um país com peso político e económico muito significativo no interior do projeto europeu, embora não tenha aderido inicialmente. Mas a verdade é que pela sua presença é um fator de enriquecimento da Europa em todas as suas dimensões. Ficaríamos com uma Europa mais desequilibrada, mais continental, um bocadinho mais alemã, uma Europa menos atlântica, e isso evidentemente é em si mesmo um aspeto negativo”, observou.

Para o eurodeputado, um Estado-membro optar por sair da UE “não pode ser boa notícia”, pois “há sempre o risco de gerar por mimetismo uma tendência idêntica por parte de outros países”, o que em última instância “pode levar a um processo de desagregação parcial da UE”.

Se porventura democraticamente os britânicos optarem por abandonar a UE isso não pode ser entendido como o fim do projeto europeu”, mas implicará necessariamente “repensar a orientação do projeto europeu” e “introduzir modificações estruturais significativas”, afirmou Francisco Assis.

Também Paulo Rangel, líder da representação do PSD no Parlamento Europeu, advertiu que em caso de vitória dos partidários da saída do Reino Unido da União Europeia, “haverá sempre muito a perder, porque a relação entre a Grã-Bretanha e a Europa sofrerá um grande reajustamento, que poderá levar outros países a querer “relaxar” o seu compromisso com a União”.

Paulo Rangel alertou que “não é de excluir que, como tentativa de resposta ao relaxamento do vínculo de pertença dos ingleses, haja uma aceleração de integração de um núcleo duro da zona euro, núcleo de que Portugal estará quase seguramente retirado”, observou.

Tudo será caótico e mesmo catastrófico se ganhar a corrente britânica que defende a saída da União. Aí, Portugal, mesmo com posições muito díspares das de Inglaterra dentro dos alinhamentos europeus, perderá a maior força de tração atlântica e estará definitivamente entregue aos humores do eixo franco-alemão”, afirma o deputado do PSD.

O eurodeputado notou ainda que, “além do tremendo impacto económico e das longas e complexas negociações de saída”, nada impediria “um desmantelamento puro e simples do Reino Unido”, pois “já ninguém esconde que, se o ‘Brexit’ ganhar, haverá um novo referendo sobre a independência da Escócia” e o movimento “pode contagiar-se a Gales, que depende fortemente dos fundos europeus, e mesmo à Irlanda do Norte, que não vislumbra uma mudança de relacionamento fronteiriço com a República do Eire (República da Irlanda)”.

Para o eurodeputado Nuno Melo, do CDS-PP, “se é justo dizer-se que a paz constitui o primeiro e melhor exemplo de sucesso do projeto europeu, a saída do Reino Unido, parte beligerante fundamental para a vitória dos aliados nas duas últimas guerras mundiais, significaria o primeiro e mais importante fracasso da União Europeia”.

O Reino Unido é elemento essencial da identidade europeia. Empresta-lhe ligações seculares a outras partes do mundo, uma língua de dimensão universal, espécie de latim da modernidade, é um bloco comercial incontornável, lidera, a par de outros, o que de mais importante se faz na ciência, investigação e na cultura, assegura uma força militar, que não obstante a pertença à NATO, reforça as capacidades de defesa da Europa e permite um equilíbrio estratégico decisivo, perante a dimensão franco-alemã, que há anos tenta a hegemonia nos órgãos de decisão”, observou o deputado centrista.

Para Nuno Melo, o projeto comum europeu “poderia e teria de sobreviver mesmo sem o Reino Unido”, mas “ficaria inevitavelmente mais fraco, porque perderia uma das suas partes naturais”, e “esse, ninguém duvide, seria um dano verdadeiramente irreparável”.

Também Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, considera que, “seja qual for o resultado” do referendo, a Europa já perdeu, pois “se ganhar a saída, concentrar-se-á ainda mais o poder alemão, não será uma resposta de mais democracia”, e “se ganhar a manutenção, o acordo assinado permite ultrapassar linhas vermelhas impensáveis como as que dizem respeito à circulação de pessoas ou à diferenciação dos direitos laborais consoante a nacionalidade”.

Sublinhando que “a decisão cabe apenas ao povo britânico”, a eurodeputada acrescenta que se fala “de uma oportunidade de redundar o projeto europeu, mas das declarações ouvidas até hoje nada parece fazê-lo prever”.

João Ferreira, do PCP, considera que “independentemente do que venha a ser o resultado do referendo no Reino Unido, as consequências deste processo serão sempre significativas”, até porque “as cedências feitas ao Reino Unido pelo Conselho da UE evidenciam uma perigosa deriva xenófoba, racista e reacionária” da União, e “o tão propalado princípio da livre circulação de pessoas é definitivamente implodido”.

Para o eurodeputado comunista, qualquer que seja o desfecho, “as decisões tomadas para evitar esse ‘Brexit´ arrasam definitivamente uma certa visão que tende a conferir às regras da UE um carácter de sagrada inviolabilidade” e, “para um país como Portugal, fazer valer essa exigência constitui um indeclinável dever de qualquer governo portador de um mínimo assomo de brio patriótico”.

Seja o desfecho o «in» ou o «out», daqui para a frente não será aceitável, em nenhuma circunstância, que algum outro Estado-membro da UE seja confrontado com a impossibilidade de ajustar o seu estatuto às suas especificidades nacionais e à vontade do seu povo. Se necessário, requerendo derrogações, exceções ou salvaguardas específicas, perante as políticas comuns, o mercado interno, a legislação e pactos diversos da UE, incluindo os tratados, cuja possibilidade de reversibilidade agora se comprova na prática”, aponta. (TVI24)

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