Entre traições e subornos, a política brasileira desmascarada

Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro. (Agência Brasil)

A traição de Machado para gravar a cúpula do PMDB é apenas uma das muitas que aparecem no enredo contado pela Lava Jato.

23 de fevereiro de 2016. Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, segue para um encontro com o senador Renan Calheiros munido de um dispositivo escondido para gravar a conversa com seu interlocutor. A decisão de trair o antigo aliado foi tomada poucos meses antes, em dezembro, depois de conversa com seu filho, Expedito Machado. Jogou sujo com Renan, a quem conhecia desde 1991, para salvar sua própria pele. As informações que ele coletasse seriam repassadas à força tarefa da Lava Jato no âmbito do acordo de delação premiada, o que poderia reduzir sua pena por praticar crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

No dia 23 e 24, Machado esteve com Renan, e também com José Sarney. Os encontros se repetiriam nos dias 10 e 11, quando ele também gravaria as conversas com Romero Jucá. O executivo seduziu os caciques do PMDB com a sua conversa informal, provocando-os a fazer um diagnóstico sobre a Lava Jato. Foi assim que ele obteve as gravações, cujo conteúdo se tornou público nesta quarta-feira por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Opiniões sinceras da cúpula peemedebista sobre Rodrigo Janot – um mau caráter, segundo Renan –, a vulnerabilidade de Aécio Neves (“o primeiro a ser comido”, segundo Romero Jucá) e as tentativas de fechar um “pacto de Caxias” com diversos parlamentares que estavam na Lava Jato. Machado foi indicado pelos quatro políticos traídos ao cargo na Transpetro, explicou ele em sua delação. A indicação para a presidência da empresa de logística de combustíveis, porém, cobrava um preço: 100 milhões de reais, a título de “vantagens ilícitas”, foram depositados na conta de caciques do partido entre 2004 e 2014, período em que o executivo ocupou a presidência da empresa de logística. Um suborno mensal para facilitar os negócios da Transpetro e seus fornecedores com a Petrobras.

A traição de Machado é apenas uma das muitas que aparecem no enredo contado em capítulos pela operação Lava Jato que revela, de maneira nua e crua, a política brasileira. Delcídio do Amaral, ex-senador petista, sentiu uma faca nas costas quando foi deixado à míngua pelo seu antigo partido e por virtuais aliados no Senado. Flagrado numa gravação oferecendo dinheiro a Bernardo Cerveró, filho do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, Amaral foi preso em 25 de novembro do ano passado. No mesmo dia em que foi levado por agentes da Polícia Federal para Curitiba, viu o presidente do PT, Rui Falcão, soltar uma nota anunciando que o partido não lhe prestaria solidariedade.

Sentiu-se traído, também, por dois terços do Senado a quem prestou diversos favores, conforme contou em entrevista à revista Piauí, e que o abandonou quando votou por sua cassação em maio deste ano. Pelo ex-presidente Lula, que o teria chamado de “imbecil” por deixar-se gravar, apesar de ter sido flagrado num momento em que seguia suas orientações, segundo ele. Traído também pela família de Cerveró, que aceitou primeiramente dinheiro das mãos de Amaral para custear suas despesas enquanto o patriarca estava preso. Achava que o silêncio do executivo estava sendo comprado em eventual delação premiada. Mas foi o filho de Cerveró, Bernardo, quem gravou a conversa com o ex-senador em que ele oferece dinheiro a sua família, com aval do banqueiro André Esteves, ex-BTG. A gravação de Bernardo acabou levando Amaral para a prisão no ano passado, onde ficou por quase três meses.

A cada nova delação fica claro que as negociatas entre o público e o privado vem de velhos carnavais, e não só na Petrobras, “a madame mais honesta do cabaré”, segundo o ex-presidente da Transpetro. Isso porque a petroleira de capital aberto conta com uma estrutura organizada e disciplinada, segundo ele. Bancos públicos e autarquias também seriam ninhos de negociatas. Machado e Amaral contaram que a hidrelétrica de Furnas abasteceu o caixa de Aécio Neves. O executivo da Transpetro explicou, também, que desde 1946 o Brasil cobra o chamado “custo político” que moldava os orçamentos das empresas que negociavam com estatais, como a Petrobras. Um custo medido em “percentual de qualquer relação contratual entre empresa privada e poder público a ser destinado a propinas”, explanou Machado. Um percentual de 3% em nível federal, de 5 a 10% no nível estadual e de 10% a 30% no nível municipal.

Diante da ameaça de que a Lava Jato trouxesse esses esquemas à luz, dezenas de políticos tentaram usar seu poder de influência onde lhes cabia. Nos bastidores de Brasília todos conversavam com todos para encontrar um meio de paralisar a avalanche das investigações. Houve pressão sobre os ministros do Supremo Tribunal Federal também fica evidente a cada gravação clandestina ou delação que vem a público. Do ex-ministro Aloizio Mercadante (“em política tudo pode”, disse ele em conversa gravada pelo assessor de Amaral), a Delcídio do Amaral, passando por Romero Jucá e Renan Calheiros, todos citam eventuais conversas com o Supremo para, de alguma forma, insinuar que os rumos da investigação podem ser modificados com sua interferência.

No caso de Teori Zavascki, relator da Lava Jato do STF, a tentativa de interferir parece ter ultrapassado as reuniões no cafés no Supremo. O jornal O Estado de São Paulo publicou um post do filho de Teori, Francisco Zavascki,no Facebook, em que aponta como Brasília se move para manter as coisas como estão: “É óbvio que há movimentos dos mais variados tipos para frear a Lava Jato. Penso que é até infantil imaginar que não há, isto é, que criminosos do pior tipo (conforme o MPF afirma) simplesmente resolveram se submeter à lei!”, diz ele para depois alertar: “Se algo acontecer com a minha família, vocês já sabem onde procurar…! Fica o recado!” Com as ameaças, chantagens e traições reveladas na Lava Jato, vai ser difícil encarar a política da mesma forma no Brasil. (El Pais)

por Carla Jiménez

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