Dois milhões de famílias camponesas alimentam quase toda Angola

(Foto: D.R.)

A agricultura familiar, envolvendo pelo menos dois milhões de famílias camponesas, alimenta quase todo país com uma produção estimada em 90 porcento dos bens alimentares locais consumidos todos os dias, disse o ministro Afonso Pedro Canga, em entrevista à Angop.

Afonso Pedro Canga, titular da pasta da Agricultura, é funcionário decano do sector onde já desempenhou várias funções, entre as quais a de director geral do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), último cargo que ocupou antes de ser ministro. O gestor conhece profundamente o departamento que dirige há oito anos.

ANGOP – Senhor ministro da Agricultura, as explorações agrícolas familiares desempenham um papel fundamental na produção de alimentos, geração de empregos, combate à fome, redução da pobreza e no processo de desenvolvimento do meio rural. Com base neste quadro, quais os projectos que o Governo tem para classe de agricultores?

AFONSO PEDRO CANGA (APC): O sector da agricultura familiar desempenha um papel muito importante em termos de produção de alimentos. Calcula-se que estejam envolvidas na produção alimentar aproximadamente dois milhões de famílias camponesas. Por isso, esse universo representa cerca de 90 porcento da produção de alimentos: cereais, tubérculos, leguminosas, feijão e também algumas hortícolas. Por isso, grande apoio é direccionado para esse subsector.

O governo, no seu programa, tem projectos ligados à agricultura familiar. Por essa via, financia-se a preparação mecanizada de terras, a disponibilização de fertilizantes, a vacinação do gado, assistência técnica através da Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA) ou através das brigadas do Instituto Nacional do Café (Inca).

Uma boa percentagem do orçamento do sector da agricultura é direccionada à agricultura familiar. Também no quadro de projectos financiados com créditos que o Governo angolano conseguiu junto do Banco Mundial, do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), esses recursos foram direccionados para o sector da agricultura familiar.

O programa da agricultura familiar orientado para o mercado está a ser executado nas províncias de Malanje, Bié e do Huambo e foram beneficiadas 50 mil famílias e os resultados são visíveis. A agricultura familiar está na primeira linha das prioridades da actuação do Ministério da Agricultura (Governo).

Destaca-se igualmente o Programa de Extensão e Desenvolvimento Rural (PEDR) que abrange todas as províncias do nosso país.

ANGOP – A classe de agricultores familiares enfrenta muitas dificuldades, com sementes e fertilizantes para aumentar a produção e a qualidade dos produtos. Como o Governo pensa atenuar a situação?

APC: Enfrentamos algumas dificuldades, na medida em que o volume de fertilizantes que era importado nos anos anteriores (2014/15) baixou, de maneira que o preço desse produto no mercado subiu e com a escassez os camponeses estão a sentir dificuldades.

Mas esse processo está a ser retomado. Começou-se a importação de fertilizantes por parte dos agentes económicos e também a sua distribuição, embora ainda não seja nas quantidades que nós gostaríamos. Alguns empresários já estão a beneficiar da venda de divisas e estão à espera que nos próximos dias o volume de fertilizantes aumente para resolver os problemas dos produtores, quer da agricultura familiar, quer da agricultura empresarial.

ANGOP – Qual a quantidade necessária de fertilizantes para satisfazer a procura nacional?

APC: Anualmente, importávamos 35 mil toneladas, mas houve anos que importávamos aproximadamente 40 mil tons, mas mesmo assim esse volume não satisfaz as reais necessidades. Cada ano que passa, a produção e a área produtiva aumentou e cada ano que passa há mais empresários a investir na agricultura. Portanto, essa quantidade não é suficiente. E esse produto é importado e a importação pressupõe a exportação de divisas, mas o objectivo principal é criar uma indústria de produção de fertilizantes no país.

Esse processo está em curso, aproveitando a matéria-prima que temos no país: os fosfatos, o Gás Natural Liquefeito (LNG). Então, podemos criar uma indústria de fertilizantes que satisfaça as necessidades crescentes, mas também que concorra para as exportações. Fertilizante é um produto muito procurado no mundo e em África. Portanto, temos que criar condições para surgimento, no futuro, de uma indústria de fertilizantes.

ANGOP – O Governo lançou há cerca de cinco anos o Crédito Agrícola de Campanha, mas as queixas dos camponeses persistem. Onde está o problema?

APC: O Crédito Agrícola de Campanha foi uma das primeiras experiências direccionadas para essa franja da população, que se dedica à agricultura familiar. Os camponeses nas suas associações foram beneficiados. Cerca de 91 mil camponeses, quer de forma individual, quer através das suas associações, beneficiaram-se do crédito.

Mas, depois de um período, houve uma interrupção do crédito para a sua melhor adequação e desde o ano passado o crédito foi retomado pelos bancos comerciais.

Houve também, antes de 2012 /13, um período de estiagem prolongada que afectou as culturas e os camponeses tiveram dificuldades de reembolsar parte do crédito e o Governo teve que assumir essa responsabilidade, porque foi a garantia para os bancos. Esse problema está ultrapassado. Desde o ano passado retomou-se e esse ano vai continuar.

ANGOP – Qual o balanço que se faz do Crédito Agrícola de Campanha?

APC: O balanço que se faz é positivo. Continua a ser uma experiência positiva necessária e importante para podermos relançar a agricultura. Aliás, não se faz agricultura só contando com o nosso bolso. Por isso é que há um processo de crédito agrícola, quer para os pequenos agricultores, da agricultura familiar, os médios e quer para outro tipo de agricultores.

O governo aprovou programas concretos de créditos. Crédito de apoio à agricultura, pecuária e pesca. O Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) tem um conjunto de instrumentos de crédito, os bancos comerciais também têm programas de créditos.

Entretanto, tudo isso junto vai viabilizar o processo de concessão de crédito. Aliado ao crédito, também estamos a trabalhar para que num futuro breve possa surgir o seguro agrícola, um instrumento muito importante para os agricultores e também para os financiadores. Portanto, são esses os instrumentos que o governo aprovou – o crédito e os processos que estão em curso para a institucionalização do seguro agrícola.

ANGOP – Que importância atribui às fazendas constituídas com fundos públicos e privados, no quadro do processo de diversificação da economia e qual é o estado actual das mesmas?

APC: Esses projectos estão num processo produtivo. Outros estão numa fase de implantação, ainda não concluída. Mas estão a produzir. Podemos ir à Cacanda (província Lunda Norte) e vamos encontrar produtos como ovos, carne e hortícolas. No Negage (Uíge), no Nzeto (Zaire), os produtos dessas fazendas podem ser encontrados nos mercados informais e lojas.

Podemos ir ao Cuando Cubango, vamos encontrar o arroz a ser produzido e processado e comercializado no mercado local e de outras províncias. No Moxico, temos as fazendas Camaiangala e Sacassanje. Essas fazendas estão a realizar a colheita.

Entretanto, há um conjunto de actividades e acções que estão a ser feitas nessas fazendas. Naturalmente, há algumas dificuldades como de acesso, transporte de insumos, aquisição. Mas, de uma maneira geral, as fazendas estão a trabalhar e nós estamos satisfeitos.

ANGOP – Relativamente à produção de arroz, já existem infra-estruturas de apoio para o descasque e processamento?

APC: Na Fazenda Longa, na província do Cuando Cubango, tem uma indústria de processamento, empacotamento e expedição. Eu convido os senhores jornalistas para constatar o que existe e o que está a ser feito.

ANGOP – A Aldeia Nova é a pioneira em termos de projectos agro-pecuários. Qual o balanço de 2015 e quais as perspectivas para este ano?

APC: Aldeia Nova foi dos primeiros projectos daquela natureza de integração de família. No caso concreto, eram famílias desmobilizadas das forças armadas, que beneficiaram de possibilidades para produzir frangos e ovos, e neste momento devo fazer um balaço positivo. A produção diária é de 220 mil ovos com perspectivas de aumentar para 300 mil ou mais. Neste momento, a produção de iogurte, manteiga, queijo e refeições está num bom caminho. E os produtos da Aldeia Nova podem ser encontrados no mercado e supermercados de Luanda, Huambo, Cuanza Sul e Benguela.

Há também um dado importante. As famílias que se beneficiaram deste projecto, isto é, que produzem para a Aldeia Nova, os seus rendimentos são de facto bons. A última informação que recebi é de que cada família tinha um rendimento, na altura, quase equivalente a 800 mil ou um milhão de kwanzas por mês. Portanto, continuamos a prestar uma atenção especial a esse projecto e a outros, que eu acho estar num bom caminho e está a desenvolver-se.

ANGOP – Quais são as necessidades de cereais do país e qual a produção actual?

APC: O cereal é um produto muito importante, principalmente o milho, o arroz, massango e massambala, porque são a base da nossa alimentação. A mandioca, batata, leguminosas e carnes também são. Fundamentalmente, o milho e o arroz. O milho quer para consumo imediato, quer para a avicultura, suinicultura e bovinicultura. Por isso, a nossa produção actual não nos satisfaz ainda.

Temos uma produção de aproximadamente um milhão e 800 mil toneladas (ano 2015), adicionando as necessidades para a produção de ração nós necessitamos pelo menos dois milhões e 100 mil toneladas/ano para satisfazermos as necessidades de consumo e da indústria avícola e suinícola. Mas devo aqui sublinhar que essas necessidades crescem. Por exemplo, temos o grande desafio de aumentar a produção de carnes de frango, ovos e leite e isso vai necessitar de muitas quantidades de cereais, principalmente de milho, muitas quantidades de outros grãos como a soja.

ANGOP – Qual é a estratégia?

APC: A estratégia é criar condições para que o empresário privado nacional ou estrangeiro produza. Uma das primeiras condições que o Executivo cria é conceder terrenos para que o investidor possa realizar os seus projectos, nos termos da Lei de Terras. Criar um ambiente de negócios para que o investidor possa encontrar segurança naquilo que ele vai fazer, quer segurança em termos de terra, quer facilidade de créditos.

Também precisa de encontrar alguma capacidade no mercado para poder adquirir localmente as matérias-primas e os equipamentos que necessita para poder efectuar a sua produção. Por isso, no quadro da estratégia da saída da crise, um dos programas centrais do Executivo é o de cereais: o milho e o arroz, o da carne, entre outros.

Outro elemento fundamental é a necessidade de termos uma fileira de semente de qualidade produzida localmente. Este também é outro programa que o Executivo aprovou para que possamos reduzir a importação de sementes de qualidade. Para tal, foi aprovado o regulamento das sementes, que não tínhamos. Havia a lei, mas não tínhamos o regulamento. Foi aprovado recentemente. O programa das sementes consta da estratégia de saída da crise. Estamos a receber, tal como no programa de cereais, projectos de investidores para se habilitarem a créditos e terrenos para produzir os cereais que são fundamentais para a nossa economia.

ANGOP – Já existem laboratórios que vão testar a qualidade das sementes?

APC: Temos laboratórios do Serviço Nacional de Sementes e do Instituto de Investigação Agronómica nas diferentes Estações Experimentais Agrárias. Temos laboratórios centrais do Ministério da Agricultura, em Luanda, laboratório de Benguela, Cunene. Também há laboratórios privados.

Devo aqui enfatizar que assistimos a um dinamismo na produção de milho. Se visitarem algumas províncias como Malanje, Cuanza Sul, mesmo Moxico, Huíla e Huambo, que visitei recentemente para inaugurar a campanha da colheita de milho, vão encontrar um grande dinamismo. Muitos campos com milho e soja. Então, temos todas as condições para podermos aumentar a produção. Temos espaços para que os investidores privados possam actuar e poder suprir esse défice, quer para nosso consumo interno, quer perspectivando a exportação.

ANGOP – É possível estabelecer um horizonte temporal para se começar a exportar milho?

APC: É um risco. Se eu disser amanhã vamos começar a exportar e não acontecer, o senhor jornalista vai cobrar-me. O que é importante é ter essa visão. O processo está em andamento e a produção também. O importante é termos as condições para que o produto seja competitivo no mercado e a exportação vai acontecer. Há um programa específico para a promoção das exportações. Quer dizer, nós vamos assistir e já estamos a receber manifestações de interesse de investidores que querem produzir para vender no mercado local e para exportação, mesmo antes de termos auto-suficiência alimentar.

As duas coisas podem caminhar. Não precisamos de primeiro suprir o défice para depois exportar. Se aparecer um investidor que quer direccionar o seu produto para a exportação, nós saudamos, encorajamos e apoiamos, porque precisamos de diversificar as fontes de arrecadação de divisas.

Por exemplo, alguns produtores já estão a exportar hortícolas e batatas. Benguela já começou. Como vêm, o próprio mercado vai influenciar o processo de exportação.

ANGOP – Qual é o destino das hortícolas exportadas?

APC: Olha, o exportador ou produtor está a exportar para República Democrática do Congo (RDC). Ele tem lá uma central, um entreposto. Como vêm, é um pequeno exemplo, mas encorajador. Convidamos todos outros produtores para também terem essa visão de produzir para vender no mercado interno, mas também para exportar.

Podem começar com pouco, mas cada dia que passa vai melhorar. Isso também ajuda a melhorar a nossa qualidade. Nós não exportamos qualquer produto. Exportamos o produto e a qualidade. Quanto mais exportamos, também vamos ver um efeito benéfico que aumenta a oferta do produto no mercado interno.

ANGOP – Relativamente aos empresários que estão a exportar para países vizinhos, que incentivos do Estado existem para que possam colocar os produtos a preços competitivos nestes mercados?

APC: Há incentivos e nesse momento, quer a nível de outros departamentos ministeriais como Ministério das Finanças, Ministério do Comércio e Banco Nacional de Angola (BNA), há facilidades como redução de algumas obrigações aos exportadores. Há todo um conjunto de acções e medidas que foram tomadas para que possa haver incentivo à exportação. Brevemente, iremos analisar e aprovar o programa das exportações, onde constam algumas medidas. A própria estratégia de saída da crise aponta medidas e incentivos para aqueles que querem produzir esses bens, quer para consumo, quer para exportação.

ANGOP – Quanto investe o governo para importação de ovos, leite e carnes vermelhas?

APC: Não posso precisar quanto o Governo gasta mensalmente. Posso dizer-vos, naturalmente, quanto à importação de ovos reduziu significativamente. Lembram-se que em 2013 nós produzíamos menos de 100 milhões de ovos/ano e actualmente estamos a produzir ou até ano passado a produção de ovos chegou perto de 450 milhões de ovos. Houve um aumento significativo que fez com que houvesse uma redução da importação desse produto, a ponto de os mercados exportadores para Angola ressentirem.

Quanto à carne, por exemplo de frango, a que mais se consome no país, precisamos de facto de muitos investimentos. Os produtores priorizaram a produção de ovos, porque a rentabilidade é maior e também as condições de produção são diferentes da de frangos.

Nos frangos gastamos, segundo dados de 2015, cerca de 400 milhões de dólares norte-americanos só com importação de carne de frangos. Tem um peso significativo na nossa importação, mas o programa de produção de frangos e de carne tem prioridade e todos instrumentos estão a ser criados para que possamos reduzir de facto o défice desse produto.

ANGOP – No subsector florestal, que projectos existem para a exploração e transformação da madeira localmente e agregar valor a este produto?

APC: Quanto à madeira, temos um potencial de madeira de cerca de 57 milhões de metros cúbicos. O volume disponível para a exploração anual é de aproximadamente um milhão e 207 mil metros cúbicos, sendo 340 mil metros cúbicos na floresta natural e 850 mil de metros cúbicos na floresta plantada. Isso é o que nós podemos extrair anualmente.

Isso implica, naturalmente, a criação de condições para conter o impacto negativo na floresta para ser uma exploração sustentável. A exploração florestal implica um conjunto de condições, equipamentos, estradas, pessoal técnico e também empresários que tenham essa capacidade e rigoroso controlo dessa actividade.

ANGOP – Qual é a capacidade anual de corte da madeira?

APC: Até 2015 produzimos 125 mil metros cúbicos de madeira em toro. Claro, necessitamos de crescer e apontamos isso para os próximos anos, com os investimentos em curso no sector privado.

A legislação está a ser adequada, reformulada. Lembram-se que já tínhamos a lei que regula a actividade florestal, que data dos anos 50/60. Agora estamos a trabalhar para termos uma nova lei das florestas e da fauna selvagem. O ante-projecto já foi apreciado em Conselho de Ministros e agora merecerá o seu tratamento pela Assembleia Nacional.

No domínio das florestas, a madeira é um produto que foi eleito no quadro da diversificação da economia. Primeiro para atender as necessidades do país, em termos de artefactos de madeira como portas, janelas, mesas e outros materiais de construção, mas também para a exportação, embora já se faça alguma exportação. Temos todo potencial para crescer.

Por outro lado, estou a falar da floresta natural, mas também temos um potencial florestal plantado. Temos os polígonos, principalmente no Planalto Central, que estão a merecer novo enquadramento e tratamento quanto a sua protecção e exploração sustentável e para aumentar a área plantada.

Nós tínhamos nos anos 80 um potencial da área plantada de aproximadamente 150 mil hectares nos polígonos florestais, quer do Ministério da Agricultura quer das áreas que estão sob tutela de outros departamentos ministeriais, como ministérios da Indústria e dos Transportes. Nos últimos anos, por várias razões, essa área reduziu. Agora estamos num processo de plantação e reflorestamento para diversos fins: ambientais, industriais, de energia e de produção de produtos da madeira.

ANGOP – Para quando a potenciação do Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF) com recursos humanos e materiais?

APC: Quanto ao IDF, precisamos de aumentar a sua capacidade em matéria de fiscalização. Os serviços de fiscalização do IDF têm algumas insuficiências materiais e também em termos de recursos humanos são poucos e muitos estão em idade de reforma e temos que substituir esses quadros que já deram o suficiente e criarmos condições para integração de jovens. Estamos a fazer isso com alguma prudência, tendo em conta as dificuldades financeiras. O Ministério do Ambiente também está a fazer um bom trabalho no que diz respeito ao controlo das áreas de conservação.

ANGOP – Para onde vai a madeira exportada?

APC: Nós exportamos madeira para vários países africanos e para Ásia e Europa. A nossa madeira tem um peso no mercado internacional. Tem bom preço, mas há uma questão que nós gostaríamos e temos que fazer – acrescentar valor à nossa madeira. Temos que evitar a exportação da madeira em toro. E, antes da exportação, podemos processar a madeira aqui, fazendo a transformação primária, acrescentando valor. Assim, ganhamos duas vezes. Criamos emprego, principalmente nas zonas de exploração. Criamos indústria de processamento, de transformação primária, serrações e depois exportamos. Ganhamos duas vezes. Se nós exportarmos madeira em toro o seu valor no mercado internacional é baixo. O mesmo volume se fizermos a semi-transformação – madeira serrada – ao exportarmos ganhamos mais.

ANGOP – Quando é que o país passará a agregar valor a esse produto?

APC: Há já umas unidades – poucas – que estão a fazer isso no Uíge, em Luanda e Cabinda. Estamos a criar também um instrumento que regula essa actividade e que condicione a exportação da madeira em toro. Estamos a trabalhar para que no próximo ano possamos ter esse instrumento efectivo.

ANGOP – Angola já foi até 1974 o quarto maior produtor de café, com mais de 200 mil toneladas anuais. Hoje, a actividade cafeícola está reduzida a meia dúzia de produtores. Que projectos existem para que o país volte a ser o grande produtor de café em África e no mundo?

APC: Outro produto muito importante que está a merecer um tratamento especial, com base nas unidades privadas existentes, na agricultura familiar e pequenos produtores, é o café. Está a investir-se para que possamos aumentar a produção e a qualidade do café exportável. Já há algum café, já se exporta, mas em poucas quantidades. Porém, a perspectiva é aumentar essa produção e aumentar as exportações do café. Para tal, há um conjunto de medidas que estão a ser tomadas: primeiro, medidas de apoio ao produtor com fornecimento de mudas, pelo Instituto Nacional do Café (INCA), para renovar as plantações ou expandir a área plantada, assim como medidas que têm a ver com a concessão de créditos aos cafeicultores.

A cafeicultura exige uma força de trabalho permanente. Podemos dizer que é uma actividade intensiva em mão de obra. Precisamos de espaço e condições de crédito para que os empresários possam desenvolver essa actividade para poderem honrar seu compromisso com os trabalhadores.

Já temos resultados. Mesmo no mercado nacional, já encontramos o nosso café. Muitas empresas já estão a fazer o descasque, a torrefacção e a processar. Estou optimista que vamos recuperar a produção de café e que nos próximos anos será superior a actual.

ANGOP – Qual a produção actual do café em Angola?

APC: No ano passado, a produção cifrou-se em 12 mil toneladas que é manifestamente pouco.

ANGOP – A que se deve a baixa da produção do café?

APC: As pessoas que conheceram Angola como grande produtor de café, quando produzia 200 mil toneladas de café por ano, sabem que as áreas de produção, por razões do passado, foram abandonadas. Agora é preciso recuperar. As plantações estão velhas. As pessoas que antes produziam o café já não existem, a mão-de-obra reduziu, as vias de comunicação não estão boas. Agora precisamos renovar as plantações, integrar mais pessoas, etc.

ANGOP – Quais são os países para onde é exportado o café de Angola?

APC: Países da América, Ásia e Europa.

ANGOP – Senhor ministro, a cultura do café está aliada à cultura do cacau e do palmar. Existe algum projecto voltado à produção desses bens?

APC: Não temos em Angola uma produção de cacau como cultura de realce. Há alguma experiência em Cabinda, no Instituto Nacional do Café (INCA), mas como produções de plantações de cacau não temos, por razões históricas, que não vamos agora explicar.

Mas se existirem projectos de pessoas interessadas em produzir o cacau serão bem-vindos e vamos dar todo apoio. Pelo menos existe algum conhecimento técnico junto do Inca, que cuida também essa parte. Quanto ao palmar, já há alguma produção. Há inclusive um programa e unidades de produção do palmar que agora poderão, naturalmente, aumentar a sua actividade.

Já tivemos no passado uma grande produção de óleo de palma. Estamos a receber projectos. Recentemente recebi três empresários que querem investir no palmar. Temos cooperação no sector do palmar com instituições das Filipinas, Malásia e da Indonésia – grandes produtores de óleo de palma. Estamos a trocar material genético para melhorarmos o nosso material. Temos investigação do palmar, estações especializadas para a investigação do palmar e também um processo de renovação do palmar existente.

ANGOP – Quais as províncias identificadas para a implementação de projectos ligados à cultura do palmar?

APC: Temos Cabinda, Uíge, Cuanza Norte, Cuanza Sul, Bengo, Benguela e outras que podem aparecer.

ANGOP – O Ministério da Agricultura, através dos perímetros irrigados, conseguiu atingir a produção preconizada para 2015?

APC: A irrigação é um processo e nós temos um plano nacional de irrigação – o Planirriga. No quadro deste plano, prevê-se viabilizar sete milhões e quinhentos mil hectares com elevado potencial de irrigação. É o plano director. O processo começou primeiro por reabilitar os perímetros irrigados ou a reconversão de alguns perímetros irrigados, modernizá-los, e esse processo foi feito.

Foram reabilitados e modernizados aproximadamente 30 mil hectares com rede de irrigação estabelecida. São esses os perímetros que estão agora a viabilizar a produção de hortícolas, de banana e também de cereais. Podemos visitar Caxito (Bengo), Matala (Huíla), Cavaco (Benguela) e Mucoso (Cuanza Norte), mas também estão a surgir novas áreas irrigadas de iniciativa privada. Vamos encontrar fazendeiros a implementar sistemas de rega de pequena, média e nalguns casos de grande dimensão.

Temos a Quiminha (Luanda) e Sumbe (Cuanza Sul) – esta com uma área de cerca de três mil hectares de produção de algodão. Portanto, está a cumprir-se paulatinamente com os planos constantes do plano de irrigação para que, de facto, possamos enfrentar o grande desafio das estiagens cíclicas que condicionam a produção.

Noutra linha de acção, temos os pequenos sistemas de rega, principalmente para a agricultura familiar. Pequenas unidades, em pequenas áreas. Essa também é uma direcção do nosso programa para podermos criar as condições. É por isso que vamos, em função das disponibilidades financeiras, começar a trabalhar para concluirmos o perímetro irrigado de Calueque e outros que podem surgir à volta dos grandes aproveitamentos hidroeléctricos em curso.

Em Malanje, por exemplo, em Capanda, está também planificado o surgimento de um perímetro. Laúca também e todo Médio Kwanza podemos aproveitar o potencial para que possamos enfrentar os grandes desafios da estiagem cíclica, mas também aumentar a produção e a produtividade por unidade de superfície.

ANGOP – Nos próximos meses arrancam as unidades fabris da Satec, no Kwanza Norte, Textang II, em Luanda, e África Têxtil, em Benguela. Qual é a situação actual dos projectos de produção de algodão no país, uma vez que existem poucas divisas para fazer recurso à importação de matérias-primas?

APC: As unidades têxteis, as três unidades, vão necessitar anualmente de 20 mil toneladas de algodão em fibra e o que está a acontecer agora é que os privados estão a preparar os seus projectos para dar início à produção da matéria-prima. No sector familiar, está a preparar-se as condições para apoiar as famílias. Vamos começar no Cuanza Sul, onde temos já uma área preparada, assistência técnica, com água, para podermos atender às necessidades da indústria têxtil nascente.

Foram concedidos terrenos aos privados em Malanje, Cuanza Norte e Benguela para produzir algodão. Nos primeiros anos vamos ter que importar a matéria-prima, mas depois vamos reduzir paulatinamente, porque 20 mil toneladas/ano com a nova tecnologia nós podemos produzir e não precisamos muito para atingir esse volume de produção de algodão em fibra. (angop)

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