De assobios a aplausos, para Assis o “vírus” está a contaminar o PS

(TVI24)

Figura central da oposição à geringonça que António Costa criou, Francisco Assis veio ao congresso por um “dever de lealdade”, apesar da solidão política e da “crueldade” de que lamenta ser alvo. Seis meses depois, pensa “exatamente o mesmo”

Não muda uma vírgula do que disse há seis meses. Francisco Assis é a cara da oposição à geringonça PS/BE/PCP/PEV e assim continua. O seu discurso era dos mais esperados no 21º Congresso do PS. Ele aguardou pacientemente pela sua vez numa das últimas filas do pavilhão, depois de tirar a senha. Foi alvo de uma série de fotografias, mais perto ou à distância, não só por fotojornalistas, mas também por militantes. 41º a tomar a palavra. Falou e foi dos poucos momentos em que o silêncio se ouviu e a sala (que ainda não encheu) mais se compôs. Recebeu assobios no início, mas foi aplaudido no fim.

Veio e inscreveu-se “por um indeclinável dever de lealdade” para com seu partido e a sua “família política”. “Em democracia há o direito a dizer publicamente o que pensamos, fazê-lo sempre sem disfarces”, lembrou.

“É sem disfarces que assumo uma solução muito crítica em relação à forma como o partido tem sido conduzido nos últimos tempos”

Os assobios chegaram aí. Assis esperou uns segundos, mas continuou: “Seis meses depois continuo a pensar exatamente da mesma maneira”.

A Europa é o principal fator de clivagem com BE e PCP: “A extrema esquerda permanece fiel contra. É importante que PS se disponha a combatê-la com a mesma veemência de sempre na história da democracia”. Para Assis, o que está em causa é mesmo o “vírus ideológico verdadeiramente perturbador e grave que é precisamente esse radicalismo antieuropeu”.

Um vírus que já está a adoecer o partido: Francisco Assis vê “algum lento resvalar no interior do PS” para um discurso que considera “inaceitável”. Seja como for, dá o benefício da dúvida, até pela história socialista: “Estou convencido que momentos no futuro nesta matéria saberemos respeitar”.
“Crueldade”: “Diferença não é dissidência”

Sabe e sente que é alvo de um “elevado grau de isolamento no seio do partido”. “Não vos vou dizer que é uma circunstância agradável ou sequer fácil, para alguém que sempre, nos últimos 30 anos, confundiu a vida pessoal com a do partido”.

“A solidão política tem alguma dose de crueldade. Há quem nos venha lembrar de que nada vale ter razão sozinho ou escassamente acompanhado. Perde razão algum dia alguém que pretende silenciar convicções profundas. É em nome delas que aqui vim e aqui estou. Com uma oposição que radica numa constatação elementar: em tudo o que é essencial divergimos do BE e PCP, tanto na analise como no projeto político”.

A aliança à esquerda é, pura e simplesmente, “contranatura” para Assis e advém de um PS enfraquecido nas eleições. Foi aqui que começaram os primeiros aplausos ainda que, como ele, muito solitários.

As diferenças com os partidos mais à esquerda, esquerda radical, nas suas palavras são “razão suficiente para rejeitar a solução política presentemente adotada”.

“É certo que nos permitiu chegar ao poder, mas permitiu sobretudo a outros condicionar decisivamente o exercício da governação. O Governo tem uma liberdade muito condicionada, permanentemente vigiada por quem pensa de forma diferente da nossa”.

Francisco Assis cumpriu os três minutos de discurso dando conta de que não tinha a “expectativa de ser aplaudido”, mas sim a “esperança legitima” de ser ouvido, “com respeito como é próprio de um partido democrático e deste grande partido”. Até porque “a diferença nunca se transformou em dissidência”. E aí sim, não contava, mas os aplausos vieram mesmo, generalizados e bastante audíveis.
Outro crítico da “geringonça” que assim continua

Eurico Brilhante Dias já interveio duas horas depois, e nesse entretanto vários congressistas prescindiram da palavra dado o atraso nos trabalhos. Mas este socialista não o quis fazer porque todos sabem que votou contra os acordos à esquerda. Mantém a sua tese.

“Assumo integralmente que uma solução política que António Costa propôs ao partido era frágil. Mas essa solução está tomada e foi aprovada pelos órgãos do partido. Como militante, e considerando que o PS deve abrir-se não só à sua esquerda como à sua direita, pelo Estado social, escola pública, serviço nacional de saúde, deve abrir-se a esses cidadãos e oferecer-lhe muito mais do que puro radicalismo à esquerda”

Seja como for, com o programa político aprovado por unamidade, mostra “total solidariedade” ao presidente do PS, Carlos César, e a António Costa deixa a mensagem: “Tudo farei que o programa do PS seja aplicado de forma fiel, porque palavra dada é palavra honrada. Para aqueles que tiveram medo e estavam revoltados, possam votar no PS nas próximas eleições”.

Antes, tinha sido Álvaro Beleza a dar uma no cravo e outra na ferradura a António Costa. Saudou primeiro “o querido amigo” Assis, a quem teceu uma série de elogios: “muito inteligente, genuíno e sobretudo leal”. “Isto é política com letra grande e isto engrandece o Partido Socialista”.

Dele difere quanto à análise da geringonça. “A coligação tem sido sólida e tem-se notado um esforço por parte desses partidos para serem mais responsáveis”. Admite-o, mas acenou ao secretário-geral com o aviso de que o PS não pode “andar a reboque” de outros partidos.

“Como o António Costa acredita em vacas que podem voar, tudo é possível. Eu que sou médico sei que a morte é a única coisa irreversível” (TVI)

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