Cirurgião premiado na Europa recusou trabalhar em Portugal a seis euros/hora

Cirurgião plástico João Décio Ferreira. (Reprodução Facebook)

Cirurgião plástico João Décio Ferreira recebe prémio internacional de Sexologia Clínica, pelo trabalho desenvolvido na área da mudança de sexo, com uma técnica cirúrgica inovadora a nível mundial.

O cirurgião plástico João Décio Ferreira recebe este domingo em Munique a medalha de ouro Magnus Hirschfeld da Sociedade Alemã de Sexologia Clínica pelo trabalho desenvolvido na área da mudança de sexo, com uma técnica cirúrgica inovadora a nível mundial.

A Sociedade Alemã de Sexologia Clínica atribui a distinção ao “trabalho de uma vida” do médico português devido à sua contribuição “quer a nível de investigação, quer a nível de ensino, para melhorar o conhecimento sexológico e tornar as vidas sexuais mais humanas”.

João Décio Ferreira disse à agência Lusa sentir-se honrado com o prémio de “grande valor” e garantiu ser um “incentivo para continuar”.

“É um reconhecimento internacional daquilo que faço, o que é sempre agradável e é um incentivo para continuar. É sinal que estamos no caminho certo. Quando se faz uma coisa nova, nunca podemos dizer que está terminada, vamos sempre aperfeiçoando mais um bocadinho”, afirmou.

O médico desenvolveu em 2006 uma técnica que permite a construção de uma vagina com enxerto de intestino delgado e outra que possibilita construir um pénis com tecido da zona abdominal e enxerto de cartilagem da costela.

“Eu não estava contente com a técnica da cirurgia genital do masculino para o feminino que é usada a nível mundial [faloplastia, ou seja, a inversão da pele do pénis com o enxerto do antebraço], pela estética e complicações que gerava. Resultado: criei uma nova”, concluiu.

O cirurgião plástico, de 72 anos, sublinhou que a distinção internacional contrasta com o reconhecimento que tem recebido em Portugal, uma vez que, depois de reformado do Serviço Nacional de Saúde (SNS), recusou uma proposta para ficar a operar no Hospital de Santa Maria a receber seis euros por hora.

“O valor que me deram na altura andava à volta de 6 euros à hora. Agora, fora de Portugal dão-me uma medalha de ouro. Pensei que é um pouco mais de reconhecimento”, criticou.

João Décio Ferreira referiu que a solução para os transexuais portugueses “é complicada” porque, a nível do SNS, contam apenas com o Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra para cirurgias de mudança de sexo.

O cirurgião plástico continua a operar a nível privado no Hospital de Jesus em Lisboa, que tem aplicado valores mais baixos para quem quer fazer as operações de reatribuição de sexo, temendo não ser o suficiente porque “a maior parte [dos transexuais em Portugal] não tem capacidade económica sequer para pagar as despesas da clínica”, referindo que muitos utentes “correm o risco de suicídio”.

O médico salientou ainda o “contraste bestial” entre o prémio que recebe este domingo pela Sociedade Alemã de Sexologia Clínica e o processo instaurado pelo Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra em 2015, entretanto arquivado, por crime de difamação agravada devido a observações publicadas pelo cirurgião no seu site e a comentários emitidos numa reportagem da SIC.

João Décio Ferreira é o segundo médico português a receber o galardão Magnus Hirschfeld pelas mãos do Presidente da Sociedade Alemã de Sexologia, Jakob Pastoetter, depois do cirurgião Pedro de Freitas o ter recebido em 2014. (TVI24)

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