Casa própria: do sonho ao pesadelo

Centralidade do Kilamba (Foto: D.R.)

Viver na centralidade e depender da cidade para trabalhar, estudar ou acessar serviços, passou a ser um real pesadelo. Como consequência, alguns abandonam os seus apartamentos para viverem em bairros vizinhos ao casco urbano.

Era uma viagem diária, diz Nelson de Jesus, ex-morador da centralidade do Sequele que, todos os dias, enfrentava muitos quilómetros de estrada para chegar à zona do Alvalade, seu local de trabalho. O percurso, pela Via expresso, Cacuaco, mercados dos Kuanzas, Ngola Kiluanji, São Paulo, Alameda Manuel Van dunnem e Ho Chi Minh, iniciava às 4h30. Habitualmente, consigo seguiam a mulher e dois filhos de 10 e 13 anos de idade. Estes eram obrigados a “viajar” com os pais porque estudavam na cidade.

A primeira paragem era na zona do Nelito Soares, Rangel, onde deixava os filhos em casa da sogra para posteriormente. De seguida, descia à Vila Alice para deixar a mulher que trabalha numa unidade bancária das redondezas. Depois de “largar” a família, o funcionário público chegava ao local de trabalho às 7h30.

Já cansado, ainda queimava alguns minutos à procura de espaço para estacionar, pois a zona onde é “repleta” de escritórios e lojas, o que torna o estacionamento automóvel bastante difícil. À tarde, o movimento, no sentido inverso, se repetia. O tempo que perdia no engarrafamento e na “digressão” para recolher a família, levava-lhe a chegar à casa acima das 19 horas.

“Era uma vida dura. O que rebentava comigo eram os engarrafamentos. Era um autêntico inferno. Os filhos não se concentravam nas aulas. Eu e a mulher também não rendíamos o suficiente no trabalho porque todos os dias estávamos sob stress. Foram tempos muito difíceis”, desabafou. Face os enormes constrangimentos, Nelson de Jesus decidiu deixar o apartamento do Sequele para regressar ao bairro Popular.

É a procura de proximidade que o levou a regressar à zona de residência original de trinta anos, antes mesmo de ter realizado o sonho da casa própria na centralidade. “Tenho dito que, na verdade, nunca saí do Popular. É que a centralidade, para muitos de nós, é apenas um dormitório. Até diversão, a gente lá não tem. Somos obrigados a voltar ao bairro quando queremos conviver ou jogar futebol. Agora, vamos lá apenas aos fins de semana “. À semelhança de Nelson, muitos moradores das centralidades do Kilamba e do Sequele vão trocando os seus novos aposentos por outros situados nos bairros mais próximos ao centro da cidade. Em causa, está a distância e o défice de serviços nessas centralidades que apenas funcionam como dormitórios, cuja maior parte de moradores continua a depender de outros pontos de Luanda para trabalhar, estudar, divertir-se e beneficiar de outros serviços.

Para estes moradores, diferente da monotonia que se vive nas centralidades, nos bairros adjacentes à cidade a vida corre mais depressa. Nestes locais, não é preciso madrugar para chegar cedo ao serviço nem é necessário fazer longas distâncias para tratar um documento ou encontrar um banco.

O problema assenta na falta de infraestruturas

Para o arquitecto e urbanista Cláudio Nazaré, este problema assenta fundamentalmente na “falta de mais vias rápidas que possibilitem o escoamento dos moradores destes centros habitacionais” para os outros pontos da cidade com maior fluídez e eficiência. De acordo com o técnico,“a ausência de mais infra-estruturas rodoviárias que liguem as centralidades aos pontos de maior movimentação de Luanda, dificulta em grande escala a vida” dos que escolheram os concentrados habitacionais do Kilamba e Sequele para viver. “E, como resultado desta falta de vias rápidas, muitos são obrigados a madrugar para chegar cedo aos seus locais de trabalho ou às escolas.

É que os enormes engarrafamentos que assolam Luanda iniciam cedo. E ninguém quer perder largas horas no trânsito e correr o risco de chegar tarde ao trabalho. Então as pessoas vêm-se forçadas a acordar de madrugada para galgarem a estrada”, explicou. Também, para não ter que acordar de madrugada e enfrentar demais transtornos, Joelce Nascimento, moradora do Kilamba, prefere passar os dias da semana na cidade e regressar à centralidade apenas aos finais de semana. A jovem, que é funcionária do Palácio da Justiça, na Maianga, disse que quando está no Kilamba é obrigada a levantar-se às 5h00 para deslocar-se ao trabalho.

“É que, para além de trabalhar no palácio da Justiça, sou estudante de direito na Universidade Agostinho Neto. Tenho uma vida diária muito intensa. Dormir na centralidade para trabalhar e estudar na cidade, é complicado. É muito chato. Das vezes que tentei sair do Kilamba para o serviço, enfrentei muitas dificuldades. É que se não quiseres chegar tarde ao trabalho, tens que levantar mesmo às 5 horas. Não tenho paciência para este movimento todo. Por isso decidi ir viver noutro sítio”, atestou. Joelce passa a semana inteira na casa de um familiar. Mas, se não tivesse esta oportunidade, não importar-se-ia em pagar uma renda. “Pela minha tranquilidade eu me sacrifico. Viver nestas centralidades é seguro e bom.

Mas, pecam por não terem uma infraestruturas e serviços de apoio”. No que toca aos serviços, o arquitecto Cláudio Nazaré entende que os mesmos já poderiam estar em funcionamento tão logo foram habitadas. Se assim fosse, refere o especialista, evitava-se o trânsito constante dos seus moradores destes centros para outros pontos da cidade.

“Às vezes, é um simples documento que movimenta um morador da centralidade para outros pontos de Luanda. Não faz sentido.

É uma situação preocupante e que deve ser levada em consideração”, defende o especialista que entende ainda que, “seria responsabilidade de quem construiu as centralidades deduzir que elas precisam de serviços hospitalares, escolares, creches, serviços públicos e administrativos, mercados e outras infraestruturas de apoio integral ao cidadão”.

Saúde em risco

saude2Já Izelth Canga, moradora há quase três anos na centralidade do Sequele, refere que, todos os dias chega ao serviço, na Marginal, antes das 7h30. Para o efeito, ela precisa pôr-se a estrada cedo, por volta das 5h30.

Se sair depois deste horário, a técnica de farmácia admite que pode chegar muito mais tarde. Desde que se mudou para a centralidade, a antiga moradora do Rangel, afirmou que, durante a semana, é obrigada a dormir cedo para evitar atrasos.

Vai para cama por volta das 22 horas e desperta as 4 horas. Quando chove a situação é mais caótica, pelo que é obrigada a levantar-se muito mais cedo. “Acordo as 4 horas e levo por ai quase uma hora para deixar as coisas aprumadas. É muito sacrifício. Inclusive já pensei em sair daqui, mas recuei na decisão por causa da família.

O meu marido trabalha em Tolatona e os filhos estudam mesmo cá. Então a única que está em apuros sou eu. O problema é que aqui não há nada. Falta tudo. E esta coisa de se levantar cedo, todos os dias, está a dar-me cabo da saúde”, frisou.

Para além da produtividade laboral que fica em risco, a saúde, nestes casos, é sempre a mais sacrificada porque as pessoas que vivem nas centralidades e trabalham no centro da cidade, tendem a dormir muito pouco, é o que diz o psicólogo Nvunda Tonet.

Segundo o médico, a nível psicológico, vão ocorrer falhas de memórias que acontecem frequentemente com esquecimentos constantes, o que resulta em atrasos e dificuldades de percepção.

Já do ponto de vista físico, o indivíduo, nestas condições, vai sentir-se mais cansado com sinais de sonolência durante o período do dia. “É um conjunto de efeitos cognitivos, psicológicos e físicos bastante severo para o sujeito”, explicou. A ser uma situação recorrente, Nvunda Tonet refere que os moradores das centralidades podem desenvolver síndromes e comportamentos graves.

No caso, os trabalhadores, correm o risco de desenvolver síndrome de exaustão profissional, depressão recorrente e outras perturbações que afectam gravemente o seu bem-estar. “Portanto, para quem vive nessas centralidades e depende do casco urbano para realizar as suas actividades diárias, o mais recomendável é que tenham dois a três dias na semana para descansar o suficiente. Isso alivia a sobrecarga e reponha as energias”. (opais)

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