Brexit provoca fúria nos jovens britânicos

Uma jovem contra o resultado do Brexit em 23 de junho de 2016 (afp_tickers)

A saída da União Europeia enfureceu os jovens britânicos, que afirmam que as portas do continente fecharam-se para eles devido ao que consideram um capricho de alguns velhos nostálgicos.

No referendo de quinta-feira, 48,1% dos britânicos votaram pela permanência da União Europeia. Entre os eleitores de 18 a 24 anos, porém, essa taxa foi de 73%, enquanto que entre os maiores de 65 anos, 40% votaram para que o Reino Unido continuasse no bloco, segundo o pesquisador de opinião pública Michael Ashcroft.

No entanto, segundo a rede de televisão britânica BBC, há indícios de que os jovens foram votar em menor proporção que as pessoas mais velhas, já que houve menos participação nas zonas do país com mais jovens.

“A geração mais jovem perdeu o direito de viver e trabalhar em outros 27 países. Nunca conheceremos a dimensão total das oportunidades perdidas, as amizades, os casamentos e as experiências negadas”, afirmou o jovem britânico Nicholas ao jornal Financial Times, em um comentário amplamente difundido nas redes sociais.

“Nossos pais, tios e avós nos tiraram a liberdade de movimento”, acrescentou Nicholas, “com um golpe a uma geração que já estava afogada nas dívidas dos seus antecessores”.

‘Reino Unido cavou a própria cova’

O mal-estar dos jovens, que não conheceram o Reino Unido fora da União Europeia, já vinha crescendo há algum tempo.

Os pensionistas ficaram à margem dos cortes realizados pelo governo conservador, enquanto os mais jovens viram a educação universitária passar a ser paga, os centros de lazer fechados e as ajudas sociais para obter a independência eliminadas – medida que entrará em vigor em 2017.

Boris Johnson, líder da campanha pelo Brexit, tentou tranquilizar as novas gerações no seu primeiro pronunciamento após a vitória, afirmando que a saída da União Europeia “não significa destruir pontes nem é isolacionismo”.

Mas para Nina Biddle, estudante de 21 anos da Universidade de Sheffield que acaba de passar um ano no exterior graças a um programa que não existiria sem a União Europeia, “o Reino Unido cavou sua própria cova, culturalmente falando”.

O ano na ilha francesa da Reunión “permitiu-me aprender outra língua, ampliou meus horizontes e enriqueceu minha vida, de um modo que o Reino Unido não me poderia oferecer”, disse Biddle à AFP.

“Somos nós que estamos a viver mais anos com uma Europa menos unida”, lamentou.

Nos anos 70, ‘havia de tudo’

A pequena empresária Debra McDermott disse à AFP que os mais velhos votaram pela saída do bloco porque “nos anos 1970, quando éramos crianças, estava tudo muito bem”.

“Havia escolas, hospitais, havia de tudo. Todo mundo pagava seus impostos e tudo funcionava melhor. Desde então, o país desceu ladeira abaixo”, afirmou McDermott, que não quis revelar sua idade.

Duas histórias muito comentadas durante a campanha mostram o contraste na maneira como os idosos decidiram seu voto.

Antes de morrer, Leonard Moore, um veterano da Segunda Guerra Mundial, pediu a sua família que enviasse por correio o seu voto a favor da saída. Seu sobrinho disse ao jornal Daily Mail que Moore “lutou pela sua pátria até o fim”.

Em outro extremo, Peter Dowey, de 73 anos, ofereceu o voto ao seu neto de 17, Freddie Wells, que escolheu a permanência na União Europeia.

“Já vivi 70% da minha vida, e ele 20% da dele, se consideramos que viverá 100 anos. E na verdade, essa decisão vai afetá-lo muito mais que a mim. Tem o futuro pela frente e, portanto, aconteça o que acontecer, será a sua geração que terá que viver com os estragos, ou, espero, com a prosperidade” do país, contou Dowey à rádio BBC. (AFP)

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