As calças do pai…

GUSTAVO COSTA Jornalista (Foto: D.R.)

No início da década de sessenta, na Europa futebolística,   quem envergasse a   camisola   do Benfica, cumpriria a profecia do “velho capitão”, Mário Wilson: arriscava-se a ser campeão…

Num passado de memória tétrica, quem, no nosso continente, vestiu a calça dos pais que dirigem regimes “Ben-Alizados”, arriscou e acabou por arrastar a família para o lodo da humilhação…

Nos tempos que correm, quem, no nosso país, decida enveredar por esse tortuoso caminho, arrisca-se a ver a sua aventura remetida para o fundo da tabela da competição, com a lanterna vermelha a baloiçar aos ventos da vergonha, do desprezo e da chacota.

Por isso, não percebo, como diz o pai de um amigo, de amigo meu, por que tantas criaturas, portadoras de sôfrega vocação para o devorismo – passe o apressado neologismo – se gabam por vestir as calças do pai?

As criaturas que as exibem para repelir a nossa inveja e justificar a sua riqueza gratuita, como diz o velho, pai do amigo, de amigo meu, não percebem, no entanto, que, por mais dinheiro que tenham, podem vestir as calças do pai, mas não conseguirão nunca calçar, de uma só vez, senão um par de sapatos…

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem vestir as calças do pai, mas não conseguirão, nunca, comer, de uma só vez, três, quatro ou cinco vezes ao dia…

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem vestir as calças do pai, mas não conseguirão, nunca, ingerir, de uma só vez, dois copos de água, três de cerveja ou seis de vinho…

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem vestir as calças do pai, mas não conseguirão, nunca, conduzir, de uma só vez, senão uma motorizada ou uma viatura ou tripular, de uma só vez, senão um avião ou um barco…

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem vestir as calças do pai, mas não conseguirão, nunca, dispor senão de vinte e quatro horas por dia…

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem vestir as calças do pai, mas não con- seguirão, nunca, beber, comer, assobiar e falar ao mesmo tempo.

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem vestir as calças do pai, mas, como diz o discurso da fleugmática “Servidão Humana” do britânico Somerset Maughan, não conseguirão, nunca, ver, no máximo, senão com dois olhos…

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem vestir as calças do pai, mas não conseguirão, jamais, incorporar no seu ADN, em simultâneo, a cultura da excelência como gesto- res, engenheiros ou economistas, a perfeição como médicos, biólogos ou linguistas,a energia inteligente como estilistas, músicos ou propagandistas ou o brilhantismo como ministros, generais ou parlamentares…

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem vestir as caças do pai, mas, coitadas, são incapazes de se impor sem a velha praga da in- triga, do sectarismo e de uma uma espécie de “Quadratura do Círculo” onde, se de manhã propagam uma coisa, a tarde espalham exactamente o seu contrário…

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem vestir as caças do pai, mas, coitadas, carregam às cos- tas uma mochila indigente: os seus filhos só começam a deixar de ser adolescentes aos 40 anos de idade… Por mais dinheiro que tenham, como é que essas criaturas ainda não perceberam o que diz o pai do amigo, de amigo meu?

É claro que perceber, perceberam! Por mim, confesso que tenho dificuldades em perceber por que razão essas criaturas são movidas por tão esquizofrénico vampirismo.

Tenho dificuldades em perceber por que razão essas criaturas precisam de o acoplar ao seu ADN, como se, na condição de voluntários integrantes de uma clientela de um centro de desintoxicação, tivessem sido tomados por uma deriva psiquiátrica…

O dinheiro faz falta? É claro que faz! Mas, como diria, em estado de choque, um antigo militante do MPLA, daqueles que já não se fabricam, não será que estamos a ser colonizados pelos novos clérigos que desembarcam numa espécie de overdose ascética salmodeando os versículos infalíveis da alta rentabilidade de aplicações financeiras no mundo do Além? Sem dúvida que sim!

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas estão-se a esquecer, porém, de que, no Além, definitivamente, não existe mais um mercado abastecedor de contas de subtrair ao Estado e outro mercado abastecedor de contas de somar ao seu património.

Por mais dinheiro que tenham, essas criaturas podem até deleitar-se, hoje, ao ver “os cães ladrar” enquanto “a caravana passa”, mas correm o risco de, amanhã, virem a ser recordados apenas pelas piores razões…

O problema é que, por causa do dinheiro, quem os tutela está a forçá-los a indignarem-se, em silêncio, cada vez mais contra a indecência e, cada vez menos, a lembrarem-se da existência, entre nós, da decência.

O problema é que, por causa do dinheiro, os tutelados, ao fim da “longa marcha”, tenderão a sucumbir à inércia de “caixões” que, afinal, “não têm bolsos” para “armazenar dinheiro fúnebre”…

E, diante da última morada e do último endereço, perceberão que “os mortos não poderão ser ressuscitados para assustar os vivos”.

E, que, uma vez franqueadas as portas do “Cemitério do Partido”, as hipócritas homenagens do costume nada poderão fazer para reabilitar o “arquivo morto”…

Só aí então é que, diante da deserção geral, concluirão que, “nada será como dantes”. Pode ser tarde demais. Porque a seguir:

Os vizinhos desaparecerão; os amigos tornar-se-ão desconhecidos; as velhas lealdades destaparão a sua sede de vingança; as antigas alianças desmembrar-se-ão para proclamar a sua inocência e, com o guarda fato completamente desmanchado,o pesadelo dificilmente distinguirá “um palmo à frente na escuridão do seu futuro”… (novojornal)

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