“Angola pode ser um centro de criação de economia verde”

(Foto: D.R.)

O director Executivo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), Achim Steiner, que veio a Angola a propósito do 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, que Luanda acolheu, diz que a sua esperança é que Angola “se torne num centro de criação de economia verde neste século XXI e de uma visão africana que conduza à qualidade de vida sem pôr em causa os recursos naturais”.

Em entrevista ao Jornal de Angola, Achim Steiner afirmou: “Vamos dizer ao mundo  o que Angola já está a fazer a nível ambiental, incluindo o combate ao tráfico ilegal da fauna e da flora”. Achim Steiner elogiou a existência da escola de formação de fiscais, que considera “um outro exemplo do trabalho do Executivo para reforçar a capacidade do país de se defender contra este tipo de actividades.
Na entrevista, Achim Steiner revela que o PNUA, em colaboração com a Interpol, estima  que  o valor de comércio ilegal e actividades criminosa resultou em mais de 270 mil milhões de dólares, usado para financiar conflitos que dividem nações e as colocam umas contra as outras.

Jornal de Angola – Hoje os problemas ambientais afectam em grande medida os países em todo mundo, sendo por isso um problema global. Está em Angola há alguns dias, como avalia as políticas ambientais realizadas pelo Executivo angolano?

Achim Steiner – Neste momento, Angola verte toda a sua atenção para a recuperação económica. As acções do Executivo tem estado voltadas para a recuperação económica, mas o interessante é que tem uma prioridade sobre os temas ambientais, um aspecto que tem assumido um papel manifestamente activo nos últimos anos, com grande realce para os temas da caça furtiva ou ilegal, a questão da protecção da biodiversidade, o desenvolvimento sustentável que são objectivos que fazem parte dos acordos de Nova Iorque e de Paris sobre as mudanças climáticas. Olho para Angola e vejo que estes temas são hoje questões que dizem muito ao Governo. Ouvi a ministra do Ambiente a falar e notei que a questão ambiental, além de ser importante para Angola, vejo que também está preocupada com os seus vizinhos.

Jornal de Angola – O que representa para Angola a sua visita e que sinal podemos tirar disso, já que é responsável de um organismo das Nações Unidas especializado e com uma assinalável importância em questões ambientais?

Achim Steiner – A minha visita tem como objectivo principal comemorar o Dia Mundial do Ambiente que as Nações Unidas organizam em cada 5 de Junho. Nós, no sistema das Nações Unidas, estamos muito orgulhosos por Angola ter acolhido este dia. É a primeira vez na história de 44 anos do Programa das Nações Unidas que Angola convidou o mundo para ver, testemunhar e perceber o que é falar de Ambiente nesta nação extraordinária. Decidimos, por isso, com o Governo de Angola, fazer do país a sede desta celebração, porque queremos que o mundo compreenda, ou se quisermos, perceba cada vez mais, o que o país tem estado a fazer em prol do Ambiente e pela protecção da biodiversidade, bem como a necessidade de travar a comercialização ilegal dos produtos da fauna e da flora selvagem.

Jornal de Angola – Em que consistiu a sua visita?

Achim Steiner – Estive no Cuando Cubango, onde visitei a escola de formação de fiscais. Este é um outro exemplo do trabalho do Executivo para reforçar a capacidade do país se defender contra o comércio ilegal de espécies da fauna e da flora angolana. Mas também vejo que há uma gestão mais activa dos recursos naturais e da biodiversidade do país. Conheço Angola desde o ano de 1991, pois trabalhei na elaboração do primeiro relatório sobre a situação ambiental no país depois dos conflitos armados. O que apreendi naquela altura é que se estava diante de uma das nações mais ricas do mundo. Há poucas nações neste planeta que além de um território enorme, tenham também dentro de si riqueza natural, desde as suas florestas, água, fauna e recursos naturais, sejam combustíveis fosseis ou metais preciosos. Tudo isso, define a riqueza desta nação.

Jornal de Angola – Sente que cada vez mais os esforços do Executivo em prol do Ambiente encontram terreno fértil?

Achim Steiner –  O que observo hoje, passados estes anos, é um progresso impressionante e de desenvolvimento do país, mas também verifico que é sempre um momento importante para reflectir, pensar na protecção do patrimônio natural dos países, porque constituem o fundamento para o desenvolvimento económico do futuro. Ter falado sobre o Ambiente   aqui é algo de grande significado, porque nos próximos anos, uma nação como Angola, as decisões determinantes, vão definir se olharemos para trás nos últimos 20 ou 100 anos ou então na última década. O que decidirmos fazer hoje vai definir se teremos mais hectares de floresta coberta ou se teremos extinção de espécies inteiras, ou ainda, se teremos conseguido utilizar a água, ecossistemas e recursos de uma maneira mais sustentável.

Jornal de Angola – O combate à caça furtiva é agora uma questão que começa a comprometer cada vez mais os países em todo o mundo, fundamentalmente os africanos. Acha que há um compromisso suficiente para se estancar este mal?

Achim Steiner –  Nós temos múltiplos papéis no que toca às políticas de combate ao tráfico de animais ou de elefantes e rinocerontes que são mortos por criminosos para extracção do marfim e chifres para fins de comércio. Nós temos um papel no que toca à governação internacional por via da Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora (CITES), uma lei internacional para o comércio dos produtos selvagens. Angola é membro dessa comissão, por isso tem obrigações e responsabilidades a nível nacional e internacional para ajudar a reforçar esta convenção que visa a protecção das espécies ameaçadas dentro do país, uma vez que regista uma grande actividade de caça furtiva, além de constituir rota de trânsito para os países da região que utilizam os portos e aeroportos angolanos para a exportação ilegal. Mas as decisões que vão ser tomadas por nações como Angola nos próximos anos vão determinar o nível de vida e a biodiversidade global que os nossos netos vão herdar.

Jornal de Angola – Que outro papel tem o Programa das Nações Unidas quanto a esta questão, cada vez mais preocupante e que dilacera a vida da fauna e da flora?

Achim Steiner – Outro papel do PNUA consiste em trabalhar com as autoridades angolanas, contando com as tecnologias ambientais de última geração para conferir maior capacidade ao país para que seja capaz de dizer stop ao comércio ilegal, que vai ameaçando a estabilidade da biodiversidade dos países. Outro papel que desempenhamos passa pela experiência de muitos países. A questão que se coloca, em função dessa experiência, é como a comunidade local tem oportunidade para a sobrevivência e ao mesmo tempo proteger a natureza diante das necessidades? Esta é uma pergunta do desenvolvimento económico e social. Mas, a natureza, os parques nacionais e até do ecoturismo, são muito importantes para o futuro das comunidades. Pretendemos trabalhar com o Ministério do Ambiente e as demais entidades de Angola, pois aí está um grande potencial para o ecoturismo.

Jornal de Angola – Fala da necessidade de migrarmos para as chamadas economias verdes?

Achim Steiner –  A nível de África, o turismo tem um peso que representa sete a oito por cento do Produto Interno Bruto (PIB). Penso que nos próximos anos o turismo vai continuar a representar um potencial enorme para Angola, porque é uma forma de utilizar os recursos naturais sem os destruir. Essa é uma opção que deve ser parte da estratégia nacional para os próximos anos. Angola é um país muito afortunado. A economia angolana continua a depender dos seus recursos petrolíferos, mas o seu futuro como nação e as infra-estruturas para energia, agricultura, turismo e indústria vai para além desta era de simplesmente buscar o petróleo e vendê-lo para o mercado Internacional. A nossa esperança é que Angola se torne num centro da criação da economia no século XXI e de uma visão africana que proteja os recursos naturais que conduza a uma economia verde que permita uma qualidade de vida com serviços de saúde e serviços de transportes sem pôr em causa os recursos naturais. Encontramos vários exemplos ao redor do mundo de como é que isto já está a ser feito. Não acontece de um dia para outro, mas torna-se possível quando existir vontade. Vamos falar ao mundo sobre o que Angola já está a fazer incluindo o combate ao tráfico ilegal da fauna e da flora.

Jornal de Angola – Estamos no bom caminho no que respeita à protecção e preservação da biodiversidade no país?

Achim Steiner –  Penso que Angola tem uma vantagem. É um país enorme e tem muitos recursos como florestas, zonas costeiras e vida selvagem. Mas as pesquisas nos mostram, que de mais a mais, temos desafios pela frente. A destruição do habitat dos animais, provocada pela caça furtiva e o comércio ilegal, têm também um impacto sobre a biodiversidade desse país, mas com as leis, as políticas adoptadas e a fiscalização do sistema de parques nacionais e a protecção da natureza, penso que Angola deu um grande avanço e um grande exemplo. Angola ao acolher o Dia Mundial do Ambiente, demostra ao mundo que também faz muito neste aspecto e vai fazer ainda mais nos anos vindouros, quanto a necessidade de ter uma cultura ecológica e consciência de protecção ambiental, mas também defesa ao patrimônio mundial.

Jornal de Angola – Dá a impressão de que há cada vez mais discursos políticos sobre a necessidade de protecção ambiental, mas na prática faz-se muito pouco ou quase nada.

Achim Steiner – Todos os países têm o mesmo desafio. A economia do século XX é uma economia de extracção e tem sido, de alguma forma, o paradigma do desenvolvimento, que diz economia, economia e economia. E nós pensamos que a natureza ou a infra-estrutura ecológica não é importante porque a pobreza e os problemas do quotidiano são os mais importantes. Neste século XXI, com as mudanças climáticas, que agridem a biodiversidade e seguida da poluição, mostram estarmos numa situação em que cada país tem políticas e objectivos com vista à preservação do Ambiente, mas a efectivação não é feita de uma forma adequada e isso acontece em todos os países.

Jornal de Angola – Sente que Angola está  empenhada em ultrapassar essa barreira que ainda amarra muitos países no continente africano e no mundo?

Achim Steiner –  Penso que este é o grande objectivo do Ministério do Ambiente e do Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, mudar essa realidade. Felicito o Executivo e o povo angolano pela hospitalidade e pela realização de eventos muitos interessantes. Acho que todo o mundo, nesta data, tem os olhos em Angola e com certeza aprenderam uma coisa nova. Este é o objectivo que nos trouxe ao país e a razão de se celebrar o Dia Mundial do Ambiente tão activamente é que a história do Ambiente nos últimos 100 anos não tem sido feliz. Somos muito mais países e as nossas economias cresceram e precisamos de mais energia, mobilidade, habitação, alimentação e transporte, num mundo onde tínhamos apenas mil milhões de pessoas. Vivemos no século XXI e somos sete mil milhões de pessoas. A população africana vai nos próximos 40 anos passar para os dois mil milhões. Temos de repensar como manter as infra-estruturas ecológicas.

Jornal de Angola – A caça furtiva é uma grande ameaça à estabilidade da biodiversidade e até da vida das comunidades humanas?

Achim Steiner – Okavango, que é agora uma referência mundial, não existia se Angola não o preservasse. A  fauna que está sob ataque da caça furtiva e outras actividades ilegais não matam apenas elefantes e rinocerontes mas   roubam os recursos mais preciosos destas nações. O PNUA publicou para a Interpol um novo relatório sobre crimes ambientais. Não é apenas a caça ilegal mas também o comércio ilegal de madeira, pesca ilegal e as práticas criminosas , como actividade “offshore”. Com a Interpol estimamos globalmente que o valor de comércio ilegal e actividades criminosas resultou em mais de 270 mil milhões de dólares. Esse dinheiro é usado para financiar conflitos que dividem nações e as colocam umas contra as outras. Decidimos nos dedicar à luta contra o comércio ilegal da fauna e flora porque isso é um crime que compromete as nações e as comunidades e é produto que financia um dos grandes males neste planeta, a guerra. (jornaldeangola)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA